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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Senhora Pedagache - As Memórias de Charles Fréderic de Merveilleux - Parte VI



© Pesquisa: O Caminheiro de Sintra
Imagem: Arquivo do Caminheiro de Sintra


Uma aldeã da região de Sintra
"Vem aqui a ponto falar da Pedagache, mulher não só extraordinária mas também muito sedutora. Por forma alguma tinha aspecto de uma bruxa, embora pelos seus encantos fosse muito capaz de embruxar um homem. Confesso que não me atrevo a explicar o dom que ela possuía de ver o corpo humano, bem como o dos animais, por dentro e outrossim o interior da terra a uma grande profundidade, e creio bem que seriam vãos os esforços de todos os filósofos juntos para explicar este fenómeno. Eis alguns casos verídicos, aliás geralmente conhecidos em Lisboa. Quando essa dama não contava mais de cinco anos, estando à mesa em casa de seu pai, viu um menino no ventre de uma criada que servia a refeição. Esta, ofendida com tal visão, sustentou que não estava prenha, mas o que é certo é que pouco depois houve o parto, confirmando-se assim a visão da menina. Tendo visto uma cadela emprenhada revelou que ela tinha na barriga sete cachorrinhos, indicando-lhes a cor e garantindo que nenhum se parecia com a mãe. Pariu a cadela e, com efeito, foram sete os cachorros e tais como a menina os descrevera.

Algum tempo depois, passeando a menina por certo caminho parou e disse que estava vendo um homem a trabalhar debaixo da terra a mais de sessenta palmos de profundidade, e veio a averiguar-se a verdade da visão pois ali existia uma mina cujo respiradouro media a profundidade indicada pela jovem.

Julgou-se a princípio que andava ali obra do demo, mas depois de um exame rigoroso abandonou-se tal suspeita, contentando-se todos em admirar silenciosamente um dom tão extraordinário acerca do qual as luzes da inteligência humana não alcançavam explicação que satisfizesse.



Existe em Lisboa e nos arredores um grande número de poços que foram abertos por indicação dessa mulher, que garantia onde e a que profundidade se encontrava água abundante, garantindo que seria bem empregado o trabalho que tivessem em captá-la - e sempre se verificou com exacta precisão qualquer das suas previsões. Não era possível duvidar da faculdade maravilhosa desta mulher em descobrir as águas subterrâneas e, acreditem ou não os estrangeiros no que deixo dito, o que é certo é ser um facto tanto como é o caso do frade a que me referi, o qual olhando fixamente o Sol descobre os sítios onde existe água pela coluna de vapor.

O mesmo direi em relação à faculdade que tem esta senhora de ver no corpo humano as obstruções que se formam nas partes nobres ofendidas quando as pessoas se desnudam na sua presença. Ao princípio os médicos de Lisboa levaram as coisas de chalaça, mas em breve ficaram confundidos porque quando tratavam os enfermos guiados pelas indicações desta senhora nunca deixaram de ter êxito e quando abriam os corpos dos que morriam encontravam as entranhas conformes com a descrição que a senhora fizera delas. O estrangeiro de quem tenho vindo a falar, homem muito entendido em anatomia, teve ocasião de experimentar no seu corpo a verdade do que se dizia do admirável dom que possuia essa gentil senhora. Tendo tido a infelicidade, durante a sua estadia em Sintra, de cair de uma altura de doze pés, partiu as costelas. Melhorou, mas ficou com uma dor fixa e muito forte no peito. Por descargo de consciência disse a essa senhora o que sentia e tendo descoberto a parte dorida foi por ela indicado, depois de exame, o ponto dorido e revelado que via ali sangue pisado. O cavalheiro aproveitou essa indicação e, socorrendo-se de uma infusão de ervas vulnerárias, deu com ela fomentações no sítio dorido. Algum tempo depois, tendo cuspido sangue, sentiu-se melhor e em poucos dias ficou curado.

Seria inútil contar vários outros feitos particulares que testemunham a verdade do que diziam dessa mulher extraordinária, poia ao meus leitores se não acreditaram no que já lhes contei não seria com mais esses acrescentos que se convenceriam.

Tem esta senhora uma irmã gémea que não possui nenhum destes maravilhosos dons; a sua compleição, porém, é deveras singular, porque raríssimas vezes urina. A senhora Pedagache passa também cinco e seis semanas sem defecar, embora comendo sempre com apetite. Uma e outra gozam de perfeita saúde. Há dias em que as duas irmãs se parecem tanto, embora a mais nova não seja tão branca, que o próprio marido se poderá enganar. Várias vezes me aconteceu falar a uma julgando que falava com a outra, o que originava cenas cómicas. A semelhança completa, porém, só se dá em certas épocas e com pouca frequência. Aqui ficam pois alguns dados a desafiar a sagacidade dos que se dedicam a desvendar os segredos da Natureza, deixando eu a cada um a liberdade de acreditar ou não no que acabo de contar da senhora Pedagache. Se alguém puser em dúvida o que deixo relatado, declaro-lhe desde já que isso pouco se me dá, pois que a sua crítica em pouco me atingirá e apenas vai recair sobre as numerosas pessoas que não terão dúvida em atestar tudo o que deixei escrito. Admiro-me muito que a Academia de Ciências de Parias não tenha aceite o oferecimento que lhe fez o senhor Pedagache de conduzir a sua mulher a França, mediante um abono de mil escudos para os gastos de viagem e estabelecimento de uma pensão de cem luíses de ouro graciosamente farantida pelo rei, se os talentos de sua mulher ficassem bem comprovados. Resignou-se, porém, facilmente com a recusa, reflectindo em que, sendo sua mulher muito formosa, além de bastante comunicativa e os franceses muito dados à sedução do belo sexo e não existindo para eles obstáculos à satisfação dos seus desejos, teria constituído uma imprevidência expor-se ao perigo que corre em Paris todo o marido de uma mulher encantadora. O senhor Pedagache, não obstante ser francês, é bastante atreito a ciúmes, o que, aliás, não escondia, sendo ele próprio que mo confessou.

A maioria das pessoas há-de convir, mesmo que não acreditem nas assombrosas faculdades com que Deus enriqueceu esta amável portuguesa, em que o senhor Pedagache tem razão em se não expor às contingências que lhe poderiam perturbar o sossego. Quanto ao mais não devo esquecer que essa senhora, muito estimável tanto pela sua beleza como pela sua virtude, havia de brilhar muito em Paris por tais qualidades, ambas sobejamente conhecidas em Lisboa. E é com prazer que lhe rendo essa justiça.
"


© O Caminheiro de Sintra


As outras partes de Sintra nas Memórias de Charles Merveilleux, relato do século XVIII:

I. Castelo de Sintra, Subterrâneos de Sintra, Descrição Física, e a Chegada - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte I
II. Subterrâneos de Sintra e os Seus Tesouros - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte II
III. Cisterna do Castelo dos Mouros e Sua Descoberta, ou a Segunda Parte dos Tesouros de Sintra - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte III
IV. O Magnetismo de Sintra - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte IV
V. As Visões de Sintra - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte V
VII. O Curandeiro de Sintra - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte VII
VIII. O Convento dos Capuchos, e os seus Capuchinhos - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte VIII


Nota: a gravura representa apenas uma mulher do século XVIII.

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