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domingo, 20 de junho de 2010

Camilo Castelo Branco e Sintra: a dissertação sobre a Lenda de Seteais para Lady Jackson


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Fonte: Biblioteca Municipal de Sintra
Imagem: Imageshack



Sobre a Lenda de Seteais de Sintra, já aqui esplanada n'O Secreto Palácio de Sintra, Camilo Castelo Branco faz uma pequena dissertação para Lady Jackson (Catherine Hannah Charlotte Elliott Jackson) para a elaboração do livro dessa, Fair Lusitania, onde é notória a aspereza crítica do escritor português, enlevada pelas emoções que a marca negativa do povo português imprimia no autor.

Existe ainda - depois da referida dissertação - uma pequena nota em forma de adenda, aludindo ainda a outra hipótese para a origem dos sete ais.

Já tínhamos que fortes noções referidas e impressas a respeito de Seteais, umas de gente boçal, outras de pseudo antiquários, não obstante a escritora deu-nos a novidade dos sete clamorosos ais ou hourraha em 1808 [nota: infelizmente não foi possível discernir a que escritora o autor se refere, no entanto, a data de 1808 é a mesma da Convenção de Sintra, mencionada na adenda que se segue a esta dissertação].

Ninguém pode prever até onde se estende a elasticidade de uma inépcia. Leio no Arquivo Pitoresco, em um artigo do Sr. Vilhena Barbosa, que selectamente pesquisa há longos anos todas as velharias portuguesas o seguinte a respeito de Seteais:



"Desde tempos muito antigos um dos divertimentos predilectos da gente moça era ir àquele rocio
[nota: em português actual é "rossio", e não o actual "rocio" significando orvalho], à tardinha, despertar os ecos que ali há. Pela disposição dos píncaros da serra, formando um recôncavo no fundo do terreiro, as palavras proferidas em voz alta na extremidade do norte do mesmo terreiro, são repetidas pelo eco com muita clareza e por várias vezes. Dizem que naqueles tempos a palavra mais usada em tais exercícios era um ai, e que daqui viera o nome do rocio, denominando o Senteais na opinião de uns, por parecer que a serra os sente e expressa; ou Seteais, segundo outros, crendo que o eco repete sete vezes a mesma palavra. Fosse porém, qual fosse a etimologia do nome, o que é certo é que foi este último que prevaleceu."

E devia prevalecer neste país onde estudam etimologias nas crendices populares.
Recorramos à palavra radical e refutemos de vez, se possível é, interpretações apenas ajeitadas para completarem o cabaz de ridiculezas que os estrangeiros levam de Portugal para escancararem as mandíbulas dos seus patrícios.
"Seto", em antigo português, sebe, tapada, redil, estacada, etc . (de Septum 
[nota: "do latim Septum"], que tem análogas significações).
"Seteaes" – plural de seto. Quer haja sido uma tapada o terreno em que se fundou o palácio, ou, em remota época, uma estacada de torneios, ou simplesmente um terreno vedado por sebes, tudo nos elucida a etimologia da palavra, nem nos acostar-mos à conjectura do sete ais, nem às repetições do ai que o eco repercute, nem ainda à sensibilidade dos píncaros da serra, conforme as tradições que o operoso Sr. Vilhena Barbosa não refuta na sua escrita.

Declaro que não fundamento em autoridades a minha opinião porque a não trasladei. É de crer que não encontre a palavra seto nos vocabulários de uso vulgar, nem ainda no Elucidário; porém Fr. Santa Rosa de Viterbo publicou um livro de não menos porte, intitulado Dicionário Portátil das Palavras, Termos e Frases
[nota: Coimbra, Real Imprensa da Universidade, 1825] que antigamente se usavam e que hoje regularmente se ignoram, e a palavras está aí. Se a formação do plural de sete em seteses fizer implicância aos gramáticos, transijam com as irregularidades do povo no seu modo de formar plurais, e convenham em que se dizia também seteal. Na província de Trás-os-Montes há campos, feiras, e devezas com aquela denominação e daí deriva o verbo setear (cercar).
Camilo Castelo Branco (Nota à Formosa Lusitânia (Fair Lusitania) de Lady Jackson)


Nota a Lady Jackson, ainda sobre a Lenda de Seteais de Sintra:

Disseram-me que este nome Seteaes tem referência à assinatura da convenção (de Sintra) (nota: embora a Wikipédia refira que a Convenção de Sintra foi assinada no Palácio de Queluz, não cita fontes, ajudando assim a manter a ainda dúvida de se a mesma terá sido assinada no Palácio de Queluz como defendem alguns autores, ou no Palácio de Seteais em Sintra, como defendem outros autores) Porquanto, quando os oficiais e soldados que enchiam a casa tal souberam, expediram sete clamorosos Ais! ou hurrahs, repelindo o seu quinhão de aviltamento de Junot, em memória de quem se denominou a casa do Marquês de Marialva, Palácio dos Sete Ais. Dizem outros que a causa é haver no edifício um eco que repete sete sílabas.


© O Caminheiro de Sintra

5 comentários:

  1. Edurocker - Brasil / Sp17 de setembro de 2010 às 07:48

    Olá, gostaria de parabeniza-lo e agradecer lhe por divulgar textos ricos da história, e que poucos teêm conhecimento. Muito grato.

    Abraços.

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  2. Caro Edurocker,

    e muito agradecido lhe fica o Caminheiro de Sintra, pelas boas palavras e agradecimento por si deixados.

    Com os melhores cumprimentos

    O Caminheiro de Sintra

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  3. Meu caro:

    Wikipédias e lendas aparte, permita-me dizer acerca da chamada "Convenção de Sintra" o seguinte:
    A 22 de Agosto de 1808, depois de travadas as batalhas da Roliça e do Vimeiro, foi assinado um "Armistício [provisório] para suspensão de hostilidades entre os exércitos britânico e francês". A 30 de Agosto, já depois de discutidos e ajustados os acordos finais, foi assinada a "convenção definitiva para a evacuação de Portugal pelo exército francês", ratificada pelo General Junot, da parte da França, e pelo General Dalrymple, da parte da Grã-Bretanha (Dalrymple era Governador de Gibraltar e tinha sido encarregado pelo governo britânico de se dirigir a Portugal para chefiar as tropas inglesas em Portugal. Acabou por desembarcar em Portugal já a seguir à batalha do Vimeiro, tendo sucedido a Wellesley como General em Chefe das tropas britânicas).
    Embora poucas vezes seja dito, estes acordos tornaram-se públicos na Inglaterra a 16 de Setembro, já com os franceses a saírem de Portugal, e antes mesmo de se tornarem públicos em Portugal (à excepção de meia dúzia de Generais portugueses, a quem os ingleses lhes comunicaram o conteúdo de ambos os tratados). A má impressão que causaram estas notícias na Inglaterra denota-se nas chuvas de críticas que a imprensa britânica fez a este respeito, sobretudo por poucos dias antes se ter sabido das vitórias de Wellesley na Roliça e Vimeiro. Na sequência, o Governo britânico mandou instaurar um processo de inquérito sobre o referido armistício e convenção, que terminou no final de Dezembro do mesmo ano. Resumindo, todos os intervenientes nestes acordos foram absolvidos pela grande maioria do conselho militar que chefiou o processo (eram todos generais). Este processo foi então publicado, no início de 1809, com o título Proceedings on the enquiry into the Armistice and Convention of Cintra, and into the conduct of the officiers concerned. Segundo as investigações que tenho feito (compilando dezenas de documentos coetâneos sobre este assunto), é neste documento que aparece pela primeira vez a expressão "Convenção de Sintra", aplicada à convenção acima aludida de 30 de Agosto.
    Dalrymple, não obstante ter sido absolvido, viu a sua conduta e reputação repreendida publicamente pelo rei George III, acabando por nunca mais ter recebido um alto cargo.
    Anos mais tarde, numas memórias sobre a sua conduta, adiantou, ainda que não tenha indicado o sítio certo onde se assinou o tratado, que a expressão Convenção de Sintra era “um nome impróprio e infeliz aplicado a este tratado; pois produziu a opinião que foi realmente negociado e concluído naquela vila, num determinado salão do Palácio Marialva, ao passo que Sintra estava na retaguarda da «posição formidável», cuja posse tinha sido obtida pela convenção” (Memoir writen by General Sir Hew Dalrymple of his proceedings as connected with the affairs of Spain and the commencement of the Peninsular War, p. 75). De facto, segundo o armistício de 22 de Agosto, o rio Sizandro era a linha de fronteira entre ambos os exércitos inglês e francês, e a Convenção de Sintra só permitia a aproximação dos ingleses à capital aquando do embarque da primeira divisão do exército francês.
    Ainda não consegui descobrir precisamente onde foi assinada e ratificada a convenção, mas uma coisa é certa: em Sintra (ou Cintra) não foi de certeza.

    Cumprimentos de um leitor atento,
    Edgar

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  4. Caro Edgar,


    muito, muito obrigado pelo seu precioso contributo.

    Acções como a sua avivam ainda mais o gosto de por Sintra trabalhar, e a história aos outros dar a conhecer.


    Com os melhores cumprimentos

    O Caminheiro de Sintra

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  5. Caro Caminheiro,

    Anteriormente indiquei que o texto do armistício e da convenção foram publicados na Inglaterra a 16 de Setembro. Porém, esqueci-me de referir que a publicação dos mesmos documentos era antecedida por uma carta que o próprio Dalrymple escreveu, a 3 de Setembro, ao Governo britânico, remetida do "Quartel-General de Sintra" (Veja aqui e nas páginas seguintes). O facto dos três documentos terem sido publicados na mesma ocasião, aliado a alguma fama que o nome "Cintra" já tinha no público inglês, e também a uma provável ignorância da geografia portuguesa, foram os factores que penso terem provavelmente contribuído para a convenção ter assim ficado conhecida. (Repito que a expressão surge primeiro na Inglaterra).

    Um parêntesis: Suponho que a convenção tenha sido assinada em Torres Vedras, pelo facto do armistício prever que essa localidade não seria ocupada por nenhum dos exércitos (inglês ou francês). Em relação à sua ratificação, Junot teria-a feito em Lisboa, e Dalrymple possivelmente na Lourinhã. (Mas como digo, isto é uma mera suposição).

    Cumprimentos,
    Edgar

    ResponderEliminar

Caríssimo(a),

por favor sinta-se à vontade para aqui escrever aquilo que agora pensa ou sente.

Ver-nos-emos em breve, sem disso sabermos.

O Caminheiro de Sintra