colecções disponíveis:
1. Lendas de Sintra 2. Sintra Magia e Misticismo 3. História de Sintra 4. O Mistério da Boca do Inferno 5. Escritores e Sintra
6. Sintra nas Memórias de Charles Merveilleux, Séc. XVIII 7. Contos de Sintra 8. Maçonaria em Sintra 9. Palácio da Pena 10. Subterrâneos de Sintra 11. Sintra, Imagem em Movimento


quarta-feira, 2 de maio de 2018

3 de Maio: Aniversário do Convento dos Capuchos da Serra de Sintra

Um frade sentado nos rústicos degraus entre as cruzes que colinas acima de Monserrate
indicavam o caminho para o Convento dos Capuchos da Serra de Sintra.

    Este 3 de Maio é para mim tão especial como todos os que têm passado. O deste ano celebra 458 anos de história desde a fundação do Convento dos Capuchos da Serra de Sintra. Na verdade, o nome de baptismo do Convento era Convento da Santa Cruz da Serra de Sintra. E que Santa Cruz? E como se relaciona essa com o dia 3 de Maio?

    Neste ano o consumir de tempo por parte dos projectos em que estou envolvido fez com que escrevesse apenas um artigo sobre o Convento, tendo-o feito na última edição do Jornal de Sintra. E é nesse artigo que encontrará a resposta às perguntas que acima coloquei, assim como outros factos da sua história.

As entradas para as enfermarias, em frente daquela
que hoje é conhecida como "Sala da Penitência"
(esta última não se encontra presente na imagem).

    As vivências que ali se deram tentavam, no maior desconforto humano, enaltecer a entrega que faziam à sua fé. Entre as crónicas de há séculos atrás foram anotados os nomes daqueles que ali viveram assim como aquilo que ali viveram. Mas há que nunca esquecer que esses, esses que nos fazem o peito enfunar no entusiasmo e fascínio que encontramos nos relatos das suas histórias, foram tão humanos como nós, sentindo o calor, sentindo o frio, a humidade, o sono, a paixão, o amor, o ódio, enfim, tudo aquilo que nos distingue - a nós e àqueles - das personagens de ficção que nunca existiram.

    Poderá celebrar o aniversário do nosso amado Convento ao ler aqui o artigo do Jornal de Sintra dedicado ao seu aniversário e às razões e tradições do seu original nome.



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segunda-feira, 30 de abril de 2018

"Invenção e Exaltação nos Capuchos" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 27 de Abril de 2018

Exaltação e Invenção nos Capuchos
na edição de 27 de Abril de 2018
do Jornal de Sintra

Que Exaltação e que Invenção foram estas? É o que irá saber agora ao poder consultar gratuitamente online o meu último artigo no Jornal de Sintra. Invenção e Exaltação nos Capuchos trar-lhe-á o que decerto não espera e que assinala algo de grande e sentimental importância:

    Mas hoje o Convento dos Capuchos irá mostrar-nos o que nos próximos dias chegará. E isso
está relacionado com a sua invocação original, com o nome através do qual surgiu na Serra de
Sintra: Convento
da Santa Cruz da Serra de Sintra.
    No ano de 312 o Imperador... (...)


    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 27 de Abril de 2018.

    Deixo ainda o convite para se associar à página de Facebook do Jornal de Sintra, um periódico histórico que completou em Janeiro deste ano os seus 84 anos!

    E não se esqueça que também tem disponíveis online os meus anteriores artigos do Jornal de Sintra - para além daqueles de publicação exclusiva no blog.





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terça-feira, 17 de abril de 2018

"Entre o Livro e o Manuscrito" - Palestras na Mostra do Livro na Biblioteca de Sintra

Biblioteca Municipal de Sintra, Casa Mantero
Imagem: Câmara Municipal de Sintra


    Na Sexta-feira e Sábado encerrarei as noites da Mostra do Livro na Biblioteca de Sintra, evento que decorrerá entre 20 e 22 de Abril, e que visa celebrar o Dia Mundial do Livro.

    Trarei aos presentes (levando-os até outros tempos) algumas histórias da História de Sintra que se encontram Entre o Livro e o Manuscrito, e que serão divididas pelos dois dias:


1) Entre o Livro e o Manuscrito:
      Silhuetas do Passado de Sintra

            Dia 20 de Abril, Sexta-feira, 21h30-23h00

    Do pergaminho ao papel, da pena à prensa, que pessoas e traços de carácter desvelamos nós naqueles que no passado por Sintra passaram? As suas histórias são guardadas na história, brilhando como tesouros ao serem recontadas.


2) Entre o Livro e o Manuscrito:
      Antigos Ambientes de Sintra
 
            Dia 21 de Abril, Sábado, 21h30-23h00

    Muitos dos espaços que hoje em Sintra visitamos possuem a capacidade de encantar os visitantes com a sua antiguidade. Mas quantos deles não foram mutilados? E quantos outros não tinham uma configuração completamente diferente? As histórias da história mostram-nos as surpresas através dos que lá conviveram.

Fragmento de iluminura do século XVI, de livro da
Biblioteca Nacional de Portugal

    Nos três dias da Mostra do Livro poderão também encontrar - a partir das 10h30 e até às 23h00 - uma pequena feira do livro e outras actividades que passarão pelo teatro (com a Casa das Cenas), música, workshop's (incluindo um dirigido a famílias com crianças de mais de 4 anos pela escritora Margarida Botelho), jogos, contos, e andando todos esses em redor do Livro. A programação poderá ser aqui consultada.

    Na Biblioteca Municipal de Sintra - Casa Mantero - com entrada livre. Mapa com percurso da estação de comboios de Sintra para a Biblioteca neste link.


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terça-feira, 3 de abril de 2018

"A Imperatriz Leonor de Portugal" (2.ª parte) - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 28 de Março de 2018

A Imperatriz Leonor de Portugal
na edição de 28 de Março de 2018
do Jornal de Sintra

    Podendo considerar-se como a segunda parte do artigo publicado no blog neste passado mês de Março, encontra agora disponível para leitura gratuita online este último artigo do Jornal de Sintra: A Imperatriz Leonor de Portugal. Neste artigo encontrará a conclusão de um longa viagem de casamento, mas também algumas das formas como ela se relaciona com Sintra:

    Outro dos homens que fazia parte da comitiva que acompanhava D. Leonor na sua viagem até Itália era o Bispo de Coimbra, D. Luís Coutinho. Aquele que havia dado a extrema-unção ao tio de Afonso V, ao Infante D. Pedro, após este ter sido atravessado por uma flecha dos homens do Rei.O Bispo de Coimbra, no regresso daquela comitiva torna-se Bispo de Lisboa, mas... Passados poucos meses, o novo Bispo de Lisboa, D. Luís Coutinho, vê-se obrigado a vir até à Serra de Sintra, mais precisamente até aos banhos de Santa Eufémia, para tentar salvar (...)

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 28 de Março de 2018.

   
    Deixo ainda o convite para se associar à página de Facebook do Jornal de Sintra, um periódico histórico que completou neste presente ano 84 anos de vida!

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quinta-feira, 15 de março de 2018

A Imperatriz Leonor de Portugal e Frederico III




    “Callate e aquy o nom digas a nynguem” – foi o que, em Alfarrobeira, no ano de 1449, o Conde de Avranches disse a um criado o qual chorando, o informava que no seu lado do campo de batalha o Infante D. Pedro das Sete Partidas tinha caído morto. O Conde de Avranches, Álvaro Vaz de Almada, pretendia assim que os homens do Infante D. Pedro, os homens daquela que era vista como a facção rebelde, continuassem a lutar sem saberem que aquele que trajando uma cota de malha com uma cobertura de veludo carmesim e um capuz na cabeça, tinha caído com o coração atravessado por uma flecha.

    O Conde de Avranches cairia algum tempo depois, segundo uns gritando ora fartar rapazes, segundo outros ora vingar vilanagem – certo é que a junção das duas suposições chegou-nos  até hoje com a tão conhecida expressão é fartar vilanagem

    Do outro lado do campo de batalha, fazendo frente à facção tida como rebelde, encontrava-se o sobrinho do caído Infante D. Pedro, que naquele ano contava já 17 Invernos. O seu sobrinho tinha, na sua cabeça e desde o seu 14.º aniversário de vida, a sombra da coroa portuguesa: tratava-se do Rei D. Afonso V.

Afonso von Gottes gnaden kung zu portergall umd zalgarbe herr
zue Sept und allgogiro
(“Afonso pela Graça de Deus
Rei de Portugal e Algarve, senhor de Ceuta e Alcácer”):
desenho representando o Rei D. Afonso V – primeiro Príncipe
de Portugal de título –, presente no diário de Jörg von Ehingen
(anos de 1400) pertença da Württembergische Landesbibliothek
(Estugarda, Alemanha).

    Este foi um dos episódios mais marcantes do Rei Afonso, o quinto de nome e título, e que se relaciona com o que neste mês aqui escrevo.

    Quando o Rei D. Afonso V somou mais um Inverno, quando fez 18 anos, recebeu cartas do Rei dos Romanos, o qual mostrava interesse em casar com uma de suas irmãs, a qual tinha – aquando da abertura das cartas – 15 anos de idade.

    Há que dizê-lo: este casamento tinha sido de antemão proposto perante um terceiro elemento: o Rei de Nápoles e Aragão. Este matrimónio serviria agora também de paliativo: o Papa recebera uma queixa da tia de Afonso V, reclamando que o seu irmão, o caído Infante D. Pedro, tinha ficado durante três dias com o seu corpo sem vida sobre a terra do campo da batalha de Alfarrobeira, à mercê das bicadas das aves de rapina. Para além disso, apesar de ter recebido a extrema unção por parte de D. Luís Coutinho, tinha o corpo ao fim desses três dias sido levado para lugar desconhecido.

Fragmento de quadro da Imperatriz Leonor (de Portugal),
pintado em 1468 por Hans Burgkmair.
Actualmente no Kunsthistorisches Museum (Viena, Áustria).

    No ano de 1451, dois religiosos tidos na sua aparência como vulgares, são roubados e deteudos no Caminho de Santiago. É por mero acaso que o Bispo de Coimbra topa com o seu destroço, e os ajuda a chegar a Lisboa. Estes dois religiosos – como disse, vulgares no seu aspecto – eram afinal os embaixadores do Rei dos Romanos, que vinham selar o casamento desse com a jovem irmã do Rei de Portugal, D. Afonso V.

    Já em Lisboa, são recebidos de forma muito afectuosa pelo Rei de Portugal e tratados quase como príncipes. O casamento é selado, e para que aquele dia fique na mente de todos em memória marcado, o Rei decide dar perdões judiciais a casos de difícil resolução, assim como o perdão das dívidas de muitos. Seguem-se as festas, inclusivamente com justas na Rua Nova em que até o irmão do Rei, o Infante D. Fernando, chega com os seus aventureiros, vestidos com guedelhas de seda fina como selvagens, em cima de bons cavalos vestidos e cobertos de figuras e cores de alimárias conhecidas...

Miniatura representando Frederico III,
com as armas de Portugal em
baixo, tendo por cima dessas a inscrição
Leonora imperatryx.
Presente em manuscrito
da Österreichische Nationalbibliotek.
    Em Outubro desse mesmo ano de 1451, o Rei sai da Sé de Lisboa e acompanha a pé a irmã até ao Cais da Ribeira, onde uma ponte de tonéis fazia, sobre a água, o seu caminho para a embarcação que aguardava levá-la do Reino de Portugal para sempre.

    A viagem ainda a levou ao Norte de África, antes de cruzar o Mediterrâneo. A irmã do Rei D. Afonso V não conhecia o Rei dos Romanos. Estava a caminho da região de Itália para o conhecer, para se casarem presencialmente, para serem ambos investidos Imperadores.

    No último dia de Fevereiro de 1452, em pleno Inverno, D. Lopo de Almeida – que acompanhava a futura Imperatriz – escrevia ao seu Rei, D. Afonso V:

...o dia, que a Senhora Vossa Irmã chegou à Cidade de Siena, saíram os da Cidade a recebê-la...
...e depois veio o Duque Alberto, Irmão do Imperador, com muita gente...
...e ao cabo de pouco veio El Rey da Hungria, e a cavalo lhe deu a dita Senhora a mão...
...chegámos junto com as portas da Cidade, e na entrada do arrabalde estavam a maior parte dos cidadãos a pé, vestidos de carmesim e escarlatas forradas de martas mui negras...

...por esta Cidade pintaram as armas do Imperador com as vossas: a porta, donde pousa vossa Irmã, estão [elas] pintadas...


A coluna de mármore que foi levantada em Siena
e que tinha no topo as armas de Portugal. De fresco presente na Biblioteca
Piccolomini, da Catedral de Siena,
realizado por Pinturicchio no início dos anos de 1500.

    A 16 de Março seria celebrado o casamento em Roma. Três dias depois, a 19 de Março, na mesma cidade de Roma, Frederico III [ex Rei dos Romanos] e Leonor de Portugal seriam investidos Imperadores do Sacro Império Romano-Germânico.

D. Leonor de Portugal, Imperatriz do
Sacro Império Romano-Germânico,
tendo à frente as duas filhas: Helena e Kunigunde.
Iluminura de manuscrito do século XV,
da Bayerische Staatsbibliothek.

    E de que forma se relaciona tudo isto com Sintra? Quem acompanhou D. Leonor, que na chegada a Siena, no encontro com Frederico III, tinha apenas 17 anos de idade? E que legaram esses seres humanos para a nossa história? Recontares que mostram ambientes diferentes daqueles que a limitada imaginação é capaz de recriar...

...este dia, acabadas as justas, foram cear, e acabada a ceia vieram todos por vossa Irmã, e levaram-na a casa do Imperador, e dançaram em sua sala quase uma hora, e veio colação [refeição] maior que a de Fernão Serveira, que com três patos dizia que se fartaria muito bem e lançar-se-ia na cama. O Imperador partiu-se da dança antes da colação e foi-se à sua câmara, e acabada a dita colação, levou El Rey a dita Senhora àquela mesma câmara com poucos, salvo mulheres, e acharam-no já lançado [e] vestido entre os lençóis; e tomaram vossa Irmã e lançaram-na na cama com ele também vestida, e cobriram-lhe as cabeças e beijaram-se, e feito isto...

    ...muito mais há para saber no próximo artigo do Jornal de Sintra.




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domingo, 25 de fevereiro de 2018

"A Rainha Mãe" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 23 de Fevereiro de 2018

A Rainha Mãe
na edição de 23 de Fevereiro de 2018
do Jornal de Sintra


    Já se encontra disponível para leitura gratuita online o meu último artigo no Jornal de Sintra. A Rainha Mãe traz um ambiente do século XVI e as responsabilidades e amor que uma estrangeira no Reino de Portugal teve.

    Ao final do dia que se seguiu ao de sua morte, o corpo da Rainha saiu do Paço de Enxobregas (actualmente Xabregas; antigamente local paradisíaco) acamado num esquife, acompanhado por cerca de dois mil cavaleiros segurando tochas. Milhares de mãos iam tocando nos varais do esquife à medida que esse ia atravessando as apertadas e sinuosas ruas da cidade amuralhada de Lisboa, por entre prantos e gritos de desgostoso e amargo querer do povo, recusando aceitar a decisão divina da sua partida deste mundo. Chegado a... (...)

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 23 de Fevereiro de 2018.

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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O 14 de Fevereiro e os Amores do Rapaz da Praça dos Canos (Séculos XIV/XV)

    Como surgiu o Rapaz da Praça dos Canos? De infidelidade, de amor, ou de desejo carnal?

    Chegado o 14 de Fevereiro, sinto-me – pelo simbolismo que tem – impelido a fazer uma evocação sobre o amor, particularmente sobre partes da nossa história que podem aos meus contemporâneos fazer pensar sobre o amor, em vez de continuarem a interpretá-lo de forma rotineira ou a deixarem-se ir em cegas paixões a que erradamente chamam amor.

O "Rapaz da Praça dos Canos"
    Quando se fala de bastardos, de filhos não legitimados, percebemos sempre que algo saiu da normal rotina do casamento. Mas na realidade nunca questionamos se algum desses casos pode ter um legítimo amor, ou uma legítima paixão.

    Para tal, tanto pode esse amor ser despertado naturalmente, como a paixão pode ter começado a arder de uma pequena centelha surgida no normal correr de um dia. Mas o amor ou a paixão podem para isso ter condições. Isto é, o próprio relacionamento já existente entre duas pessoas pode ter propiciado o despertar de um novo amor ou de uma nova paixão: por dolo do trato na já existente união entre as duas pessoas, por ausência de interesse intelectual e/ou físico, ou simplesmente por uma das pessoas se ter tornado completamente diferente daquilo que aparentou ser quando para si puxou a outra. Estes são alguns dos casos que propiciam o surgir de novos amores, mais até do que novas paixões.

    Até que ponto é erro ou pecado, fazer-se alguém infeliz? Ou até, até que ponto é erro ou pecado, deixar-se ser infeliz? Até que ponto é erro ou pecado, deixar os sonhos escaparem com o sopro de Deus (ou do Universo) que é insuflado quando nos sentimos verdadeiramente felizes por amar de forma pura e por sermos puramente amados?

    O pai do Rapaz da Praça dos Canos casou-se no século XIV, nos anos de 1300. Na verdade, não era feliz. Tinha sido obrigado a casar. Quem o fazia feliz era alguém que tinha estado sempre em companhia da sua esposa. Este verdadeiro amor houve (...) e como se dela enamorou, sendo casado e ainda infante, de maneira que para dela no começo não perdesse de vista nem de fala estando ausente, como ouvistes, que é a principal razão de se perder o amor, nunca cessava de lhe enviar mensagens... Aqui adaptei alguns termos para que possa compreender o sentido que a frase tem nos dias de hoje. E de certeza que percebeu.

Túmulo do Rei D. Pedro I: à esquerda vê-se Inês de Castro
sendo degolada; à direita vê-se a cabeça de Inês de Castro já no chão

    O sonho de se amar, sobreveio quando a sua esposa faleceu. Sobreveio quando aquela com quem o pai do Rapaz da Praça dos Canos tinha sido obrigado a casar, faleceu. Poderiam agora viver juntos sem impedimentos de maior, aquele homem que tinha casado infeliz e a rapariga que dele recebera mensagens quando ausente.

    Mas esta história tem um triste fim. Essa rapariga viria a ser degolada, cortar-lhe-iam a cabeça. O pai do Rapaz da Praça dos Canos nunca a esqueceu. No seu próprio túmulo mandou que fossem colocadas, esculpidas, cenas da vida dos dois. Mandou que fosse esculpido o dia do Juízo Final, em que bons e maus  eram devidamente separados, uns encaminhando-se para o Paraíso, outros caindo na bocarra voraz do Inferno. No topo de tudo, numa janela e separados apenas por uma coluna de pedra, Pedro, de mãos juntas, jura eterno amor a Inês.

    Esta é uma das mais belas histórias da nossa história.

    O Rei D. Pedro I nem depois que reinou lhe aprouve receber mulher. Existiu no entanto um único caso conhecido, em que se tendo envolvido com uma mulher, essa concebeu um filho seu. A esse filho foi dado o nome de João, sendo entregue ao cuidado de um cidadão de Lisboa que vivia junto à Catedral, na Praça dos Canos.

    Mas já lá iremos ao Rapaz da Praça dos Canos.

    D. Pedro certamente ficou com um sentido de justiça ainda mais apurado. Na história que se cruza com a história de Sintra vemos isso através dos dois escudeiros que roubaram um judeu que andava pelos montes a vender especiarias. Foram mandados degolar pelo Rei no Paço de Belas. Depois de apanhados, perante si, o Rei tentava extrair a verdade da boca de ambos, caminhando de um lado para o outro, vindo-lhe por vezes as lágrimas aos olhos por terem sido com ele criados e pelo fim que a injustiça que haviam cometido merecia – e que se concretizou. 

Túmulo do Rei D. Pedro I: o Dia do Juízo Final.
Subindo para o lado esquerdo, as almas que se encaminham para o Céu;
caindo à direita na boca do Inferno, as almas perdidas;
no canto superior direito, numa janela de uma torre, Pedro e Inês.

    Passadas décadas, o Rapaz da Praça dos Canos é obrigado a entrar numa guerra, deixada acontecer – se assim se lhe pode indirectamente atribuir – por um meio-irmão seu. Mas por um meio-irmão que era filho legítimo, e não um bastardo como ele era. Este bastardo, o Rapaz da Praça dos Canos, foi no entanto aquele que o povo escolheu para que o reino se salvasse.

    Ao longo de uma aventura medieval – que para quem a leia, nada mais é que o recontar da nossa história – o Rapaz da Praça dos Canos trava inúmeros combates, toma as mais difíceis decisões, fala com eremitas emparedados, e acaba por se tornar em D. João I, Rei de Portugal.

    D. João I casou com Philippa of Lancaster, que após casamento na Catedral do Porto em 2 de Fevereiro de 1387, se tornou naquela que conhecemos como Rainha D. Filipa de Lencastre. O selar do casamento deu-se a 2 de Fevereiro, mas as festas realizaram-se apenas dias depois, no dia de São Valentim, dia 14 de Fevereiro.

    D. João e D. Filipa, para além da Ínclita Geração fariam brotar muito do que em Sintra se vê. Fariam brotar em eremitas da Serra de Sintra, das mais belas edificações que aqui existiram. Fariam brotar também, o amor que os filhos lhe tinham, bem notório nas palavras que o Rei D. Duarte escreveu sobre o amor que os filhos sentiam por D. João I.

    Assim também se passou com o amor de D. Duarte por sua mãe, por D. Filipa de Lencastre, o qual fez com que, à beira da morte dessa, o próprio D. Duarte saísse de um estado depressivo em que se encontrava já há tempos, e estado o qual fazia com que lhe aconselhassem que frequentasse mulheres e bebesse vinho para espairecer. Creio que as recomendações não especializadas não mudaram muito em seiscentos anos.

Túmulo do Rei D. Pedro I: a própria representação do Rei já amortalhado.
A inscrição que se encontra por baixo foi por alguns definida - de forma
romântica ou poética, entenda-se - como contendo
até ao fim do mundoOutras hipóteses são aqui está o fim do mundo e ainda aqui espero o fim do mundo.

    Até aqui temos tido um amor que, para quem não lide com o passado no dia-a-dia, parece algo imaculado. O que é certo é que, realmente, muito amor brotou em coisas que eram importantíssimas, e que permitiam ter a intensidade que a nossa história do século XIV para o século XV tem, como esta envolvendo o Rapaz da Praça dos Canos, o qual se haveria de tornar no Rei D. João I e o levaria a casar com aquela que na história fica com a imagem de uma delicada e elegante de sentimentos, nobre inglesa.

    Seriam os casamentos dos reis sempre assim? Não. Os casamentos, o matrimónio, foram sempre contratualizados (salvo algumas excepções surgidas de ímpetos, como o caso do Rei D. Fernando I). O coração do rei (não querendo dizer que todos o tivessem com bom fundo, tal como qualquer ser humano que estas palavras leia) era sacrificado em prol do que se entendia como o que deveria ser feito para o Reino prosperar. Tal como em qualquer família o coração dos filhos é sacrificado segundo o entendimento dos progenitores para aquilo que melhor é para a vida profissional, amorosa e de amizade, tendo em vista a vida dos filhos e o estender da longevidade da família.

    Relativamente à evocação do amor deste 14 de Fevereiro – e no seguimento daquilo que tenho aqui hoje contado – existe muitas vezes um apequenar da figura do homem quando, tendo um casamento contraído, acabava por gerar o que eram conhecidos como bastardos, o que, por sua vez, eram vistos apenas como um produto do satisfazer do desejo intenso da líbido. Mas seria realmente sempre assim? Não o sabemos. O que se sabe, como o disse, é que isso é visto quase sempre, quase sem excepção, como esse desejo de carne húmida e quente, que tão intenso desequilíbrio de emoções gera no ávido consumir de dois corpos que se desejam.

    Na música, na pintura, na literatura, nas mais belas criações, encontramos por vezes, nas obras excepcionais, um arder dos sentidos que consumimos intensamente com o nosso coração e com os nossos sentidos. É sabido também, em termos teológicos, que o Diabo, o mal, entra pelos sentidos. E não basta terem-se princípios, pois um princípio pode ser bom para quem o tem, mas no seu aplicar ser mau para aqueles que essa pessoa rodeiam, ou que até, muitos afecta de malévola, egoísta, maneira.
Túmulo do Rei D. Pedro I, fragmento de imagem do tema Dia do
Juízo Final, já acima apresentada. Aqui - já em detalhe - vê-se, a uma
janela, Pedro jurando amor eterno a Inês.


    Mas existe algo grandioso que vai muito além dos sentidos: a nossa concepção de amor. A nossa concepção de amar. De ver sorrir e de fazer sorrir, tendo em vista apenas o pequeno e simples prazer de dar e receber. Esse prazer que é projectado na fantasia da mente como eterno, dura por vezes poucas semanas, meses, ou anos, mas foi em momentos tido como sempiterno.

    Outras vezes dura o resto da vida. Mesmo até que nunca consumemos em vivência contínua esse sorrir e fazer sorrir para com a pessoa que também o sente em direcção a nós.

    E finalmente chego onde quero chegar na evocação do amor do 14 de Fevereiro deste presente ano. As pessoas tendem a pegar nas histórias dos reis e rainhas que envolvem filhos ilegítimos, ou relacionamentos adúlteros, e brincar com elas da forma como os portugueses brincam sempre com o que não é seu e envolve complexidade de sentimentos por parte de outros. Fazem-se piadas sexuais, diz-se em tom de gozo que fulano ou sicrano tinha sede e foi ao pote. Que se sentiu tentado e cedeu. É um prazer poderem brincar com isso, com a cedência humana dos outros, especialmente quando quem brinca nunca teve oportunidade para se poder sentir tentado sequer. Mas nunca se vê alguém sugerir que se calhar até existia um amor maior, o qual tentou ser vivido indo além daquilo que um dia foi contratualizado por obrigação.

    A história lega-nos que o Rei D. Pedro I teve amigas com que dormiu. Certamente que alguns brincarão com a situação. Mas contextualizando o dito – referência de menos 100 anos depois do Rei ter morrido – vamos muito além daquilo que as pessoas são capazes de viver: Este rei não quis mais casar depois da morte de Dona Inês (...) nem depois que reinou lhe aprouve receber mulher (...) de nenhuma houve filhos salvo de uma dona natural da Galiza que chamaram dona Tareija, que pariu dele um filho que teve o nome Dom João, que foi mestre de Avis em Portugal e depois rei, como adiante ouvireis. O nosso amado D. João I.

Busto do Rei D. Fernando II no Mosteiro da Batalha

    Do Rei D. Fernando II também dizem que D. Maria II serviu para procriar, e que Elise Heinsler serviu para se divertir. Quem vasculhe a correspondência dos mais próximos do Rei e de Elise Heinsler, perceberá que a diversão tem limites e que quem a queira não se sujeita à pressão social, às ofensas e discriminação, como aquelas que os dois passaram.

    Quem saiba que o Rei D. João I, o Rapaz da Praça dos Canos, teve filhos bastardos, logo dirá que o bastardo teve bastardos, sem compreender cronologicamente a existência dos mesmos, nem compreendendo como as regras do matrimónio o privavam de ter liberdade de escolha. Nesse caso e de forma egoísta, felizmente para nós hoje. As suas condicionantes geraram o casamento com D. Filipa (com as festas celebradas no 14 de Fevereiro), o que acabou por gerar muita da beleza da nossa história, do que podemos por Portugal encontrar, e do que podemos ainda em Sintra ver. 

    Amar é a libertação do espírito. Mas nem todas as pessoas são capazes de dar e receber. Não sentem o espírito de Deus a ser em si insuflado nem permitem que quem consigo vive o sinta. Todas as pessoas podem no entanto ter o escape de amar. De sentir. E quem sente, bom ou mau, fá-lo de involuntário modo. Mas fá-lo com o espírito de Deus, do Universo, em si insuflado, para se poder libertar. Mesmo estando dentro de um contrato que o levará a todos os momentos menos agradáveis.




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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

"Tramas de Amor do Século XIX" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 26 de Janeiro de 2018

Tramas de Amor do Século XIX
na edição de 26 de Janeiro de 2018
do Jornal de Sintra

    Já poderá ler gratuitamente e online o meu último artigo no Jornal de Sintra. Tramas de Amor do Século XIX mostrar-lhe-á um ambiente das intrigas amorosas vividas em redor do Paço Real de Sintra, através de uma cujo exemplo é constituído por um triângulo amoroso perdido na história. E o tempo em que entramos é propício para o seu recordar:

    A caminho do mês da Lupercália, do mês do especial dia 14 e daquilo que antecede a transição para a estação que em suas cores o amor floresce, lentamente nos... (...)

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 26 de Janeiro de 2018.

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

As Lendas de Sintra na sua Biblioteca: Sintra Lendária! (2.ª edição)


A 2.ª edição do livro
Sintra Lendária - Histórias e Lendas do Monte da Lua
de Miguel Boim (O Caminheiro de Sintra)

    As lendas de Sintra chegarão até à sua biblioteca através da 2.ª edição do livro Sintra Lendária - Histórias e Lendas do Monte da Lua!

    Para além de o ter disponível em várias livrarias e estabelecimentos comerciais do país, poderá obtê-lo já autografado - ou com dedicatória. E o mesmo, se o pretender oferecer a alguém!

    Esta segunda edição do Sintra Lendária teve o miolo do livro totalmente impresso em papel 100% reciclado, contribuindo assim para a preservação das nossas florestas!

    Ao longo de 400 páginas de lendas e histórias lendárias deparar-se-á com mais de 300 gravuras e fotografias antigas de Sintra, assim como mais de 1.000 notas de rodapé, resultado do trabalho de investigação com que estas histórias da História são sustentadas!

    Se quiser receber um exemplar da 2.ª edição do Sintra Lendária autografado ou com dedicatória, bastará enviar uma mensagem de e-mail - caminheiro.de.sintra@gmail.com - requisitando-o!


a apresentação do livro Sintra Lendária no histórico Grémio Literário
pelo presidente da Câmara Municipal de Sintra, Dr. Basílio Horta
esq. para a dir.: Basílio Horta, Miguel Boim, Alexandre Gabriel (editor da Zéfiro)
créditos fotográficos: © Grémio Literário

    E antes de o adquirir poderá consultar primeiramente o artigo sobre o Sintra Lendária presente nas imagens que se encontram imediatamente abaixo - terá inclusivamente acesso ao índice, para além da menção ao antigo palácio da Regaleira (que existe no lugar daquele que hoje nos fascina) e à antiga configuração da Peninha!

primeira página do artigo sobre o livro Sintra Lendária,
presente na revista digital (gratuita) O Caminheiro de Sintra

segunda página do artigo sobre o livro Sintra Lendária,
presente na revista digital (gratuita) O Caminheiro de Sintra

terceira página do artigo sobre o livro Sintra Lendária,
presente na revista digital (gratuita) O Caminheiro de Sintra


E agora já pode consultar as primeiras páginas do Sintra Lendária em formato pdf!
Para tal bastará aceder a este link do site Academia.edu (ou não sendo aí utilizador registado, tem também este link ao seu dispor)!


O p.v.p. (preço de venda ao público) é de 29,90€.
O envio para Portugal continental em correio registado tem um custo de 5,60€ (peso = 0,856 kg).









quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

"Os Directores Espirituais do Convento da Trindade" - Miguel Boim, 22 de Dezembro de 2017

Os Directores Espirituais do Convento da Trindade
na edição de 22 de Dezembro de 2017
do Jornal de Sintra

    Já poderá ler gratuitamente e online o meu último artigo no Jornal de Sintra. Os Directores Espirituais do Convento da Trindade traz algo que poderá ser enganoso para quem viva de artifícios e penda para o extremo do ignorar do mal, como para quem penda para o extremo do exclusivo viver da fantasia:

    É-me vossa Paternidade por cá muito necessário, para coisas que não são para papel (sobrenaturais). Lembre-se muito de me encomendar a Nosso Senhor, que de cada vez me sinto mais obrigado a... (...)

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 22 de Dezembro de 2017.

    Deixo ainda o convite para se associar à página de Facebook do Jornal de Sintra, um periódico histórico que se encontra prestes a completar 84 anos de existência!

    E não se esqueça que também tem disponíveis online os meus anteriores artigos do Jornal de Sintra - para além daqueles de publicação exclusiva no blog.