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quarta-feira, 4 de março de 2020

A Origem da Expressão "Andar à Boleia" || e também "ónibus", "sopas de cavalo cansado", "bus", e outras.


 
Uma carruagem / ominus londrino do século XIX.


     Hoje usamos as expressões "apanhar boleia" ou "ir à boleia", ou outras semelhantes envolvendo o termo "boleia". O que vemos nesta gravura colorida de meio dos anos de 1800 são dois boleeiros na Baixa de Lisboa.

Dois boleeiros na Baixa de Lisboa.
     Os boleeiros eram os condutores de carruagens puxadas a cavalos (para o dizer de forma mais genérica). O banco onde se sentavam tinha o nome "boleia", daí serem boleeiros.
Os boleeiros de omnibus, por exemplo, podiam por vezes levar alguém consigo a seu lado que não tivesse dinheiro para pagar a viagem, sentado na boleia. Não ia no interior da carruagem pois não tinha dinheiro, mas não tendo dinheiro fazia à mesma a viagem. A pessoa ia assim à boleia - e mais intensidade ganha este termo se imaginarmos isto a acontecer no Inverno, com o calejamento e roupas dos boleeiros para o frio e vento no topo da carruagem, ao contrário do indivíduo que ia "à boleia".

     A título de curiosidade: os omnibus eram carruagens que funcionavam como funcionam para nós hoje os autocarros. O próprio termo omnibus é um termo de Latim que significa "para todos". O nosso BUS vem do uso inglês Bus ("autocarro"), que por sua vez vem precisamente de omnibus, das antigas carruagens. No Brasil, o ónibus - aqui com grafia de Portugal - também tem a sua origem nas antigas carruagens. Mas indo ao que interessa: ao longo de várias décadas dos anos de 1800, saíam os omnibus da Rua do Ouro (na Baixa) em direcção a Sintra, várias vezes ao dia, todos os dias.
A viagem era demorada, podendo levar quatro a cinco horas. O caminho Lisboa a Sintra não era tão directo como é hoje. Naqueles tempos existiam enormes subidas e descidas, que mais enormes se tornavam para as carruagens de então a rolarem sobre piso irregular (com o boleeiro muitas vezes quase a saltar da boleia, mesmo a essa estando preso).

     Em redor, a vegetação seca, a aridez, era em si um desconsolo. Ao longo dos montes onde hoje em dia se vêem urbanizações (Monte Abraão, Rinchoa, entre outras) viam-se, no correr dos topos das colinas, linhas de moinhos como se fossem cavaleiros gigantes com seus braços e velas armadas ao vento.

     Antes, havia-se passado por um dos sítios mais belos de Portugal, como muitos estrangeiros assim o reconheceram: a Porcalhota. Nos nossos dias é algo inimaginável, mas a quantidade de relatos torna esse facto indesmentível.

     No Cacém existia paragem obrigatória. Muitas vezes encontravam-se duos ou trios de músicos, compostos por indivíduos de roupas muito pobres, a tocarem guitarra e violino, e com uma cantora a cantar à desgarrada, improvisando versos mediante o que estava a ver em seu redor - quer ambiente, quer criaturas em seus jeitos e acções.

     Os boleeiros diziam que dali para a frente seria impensável humano ou besta conseguir continuar viagem sem parar para restabelecer energias. Aos cavalos davam uma malga de vinho tinto com pão nesse mergulhado. É deste rejuvenescer dos cavalos em longas viagens que vem o famoso termo "sopas de cavalo cansado".

     Na verdade, muitas das vezes quando saíam do Cacém não eram somente os cavalos que iam embriagados, mas também o boleeiro e os passageiros.

     Por vezes, no chegar a Sintra à noite, quando ia alguém montado a cavalo à frente da carruagem de archote na mão, o fumo espesso e as faúlhas misturavam-se com o nevoeiro que ia atingindo o rosto do boleeiro no topo da carruagem, enquanto este a fazia subir e descer as inclinações de São Pedro, para finalmente chegar então à Vila.

     Outros tempos, mas tempos de andar à boleia na mesma. E tempos em que ainda se acende um cigarro com outro, como o boleeiro o está a fazer na gravuda colorida.





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terça-feira, 3 de março de 2020

"Fevereiro, Mês de Amor" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 20 de Fevereiro de 2020



Fevereiro, Mês de Amor
na edição de 20 de Fevereiro de 2020
do Jornal de Sintra

    Em mais um ano não resisti a utilizar a desculpa do dia de São Valentim para falar de amor. E aqui, neste caso, indo até bem lá atrás no tempo, até ao século XIV e vindo desse para cá.

    «D. Pedro certamente ficou com um sentido de justiça ainda mais apurado. Na história que se cruza com a história de Sintra vemos isso através dos dois escudeiros que roubaram um judeu que andava pelos montes a vender especiarias. Foram mandados degolar pelo Rei no Paço de Belas. Depois de apanhados, perante si, o Rei tentava extrair a verdade da boca de ambos, caminhando de um lado para o outro, vindo-lhe por vezes as lágrimas aos olhos por terem sido com ele criados e pelo fim que a injustiça que haviam cometido merecia – e que se concretizou.

Passadas décadas, o
Rapaz da Praça dos Canos é obrigado a entrar numa guerra, deixada acontecer – se assim se lhe pode indirectamente atribuir – por um...»

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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

"A Estação de Sintra e... (1.ª parte)" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 24 de Janeiro de 2020



A Estação de Sintra e... (1.ª parte)
na edição de 24 de Janeiro de 2020
do Jornal de Sintra

    Se falo sempre em viagens até ao passado, desta vez são as viagens do passado que até nós chegam. Como eram as viagens até Sintra? Com que se conforto faziam? Que diferenças podemos nós perceber entre os dias que vivemos e o passado - para alguns - distante?

    «Chegar hoje a Sintra é facílimo, embora lhe possa parecer difícil segundo aquilo que são os padrões dos nossos dias. A estrada Lisboa-Sintra era uma estrada austera, desértica, com moinhos onde hoje vemos as urbanizações na Venteira, Monte Abraão, Rio de Mouro. Mesmo assim já representou um grande avanço quando no século XIX apareceu o omnibus que saía da Rua do Ouro, na Baixa, em direcção a Sintra. O omnibus era uma carruagem – das puxadas por cavalos, entenda-se – como aquelas que melhor ficam associadas à palavra “diligência”; o serviço já antes existia, mas não com o conceito com que então surgiu. O próprio termo omnibus é um termo de latim que significa “para todos”, e é também desse que vem o BUS, utilizado para transportes públicos desde o Norte da Europa até ter chegado a Portugal nos nossos anos 90.

    Na década de 1870 surgiram as primeiras...
»

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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Isolados na Serra (3.ª parte) - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 20 de Dezembro de 2019


Isolados na Serra (3.ª parte)
na edição de 20 de Dezembro de 2019
do Jornal de Sintra

    Finda aqui a viagem até ao passado daqueles que há muitos séculos atrás viveram na Serra de Sintra. A 3.ª parte mostra-nos - também - como lidavam com o frio de num Inverno como aquele que vivemos.

    «Na parte mais fechada de um vale que em sombra descia das colinas do Castelo de Sintra e da localização da ermida de Santa Maria da Pena (actual Palácio da Pena) e se ia lentamente abrindo e clareando, encontrava-se, há quase setecentos anos atrás, uma ermida. Nesses tempos, a cada 15 de Janeiro dirigiam-se as pessoas até esse escuro vale para cultuarem a invocação dessa ermida: Santo Amaro. Nesse mês frio, o povo usava os seus mantos e capas sobre as roupas de cores apagadas, tentando proteger-se como podia com as peles de cordeiro e de cabrito. Aqueles que de suas janelas, com o quente das lareiras por trás, miravam os que lá em baixo nas ruas enlameadas passavam, trajavam cores mais vivas e peles mais “requintadas”. Um dos que lá em baixo certo dia passou, acabara de sair de um convento no centro de uma Lisboa medieval e pôs-se a caminho desse sombrio vale na Serra de Sintra. Crê-se que seria o ano de 1374 e o seu nome era Álvaro. Com ele chegaram também dois Joões. Fugiram à crueldade da vida na cidade, e tentaram entregar-se a Deus através de uma vida eremítica na ermida e nas...»

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

"Isolados na Serra (2.ª parte)" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 22 de Novembro de 2019


Isolados na Serra (2.ª parte)
na edição de 22 de Novembro de 2019
do Jornal de Sintra

    A viagem até ao passado daqueles que aqui, na Serra de Sintra, há muitos séculos atrás viveram isolados, continua. Entre o desconforto que hoje nas nossas vidas percebemos e aquele que no passado distante descobrimos, vai a distância que não nos permite perceber que, entre esses do passado, existia quem ainda de forma mais dura tentava viver. Felizmente - para nós hoje, claro - aqui na nossa História vão permanecendo gravados.

    «Repare: ainda estamos no Outono e o frio que nos acossa faz-nos somente pensar em encontrarmos um recanto quente. E isso tendo todas as roupas tecnologicamente avançadas que hoje temos. Em casa – nas casas portuguesas, que são ambivalentemente más para Inverno e Verão – aqueles que têm aquecedores ligam-nos, aqueles que têm lareiras acendem-nas, mas tudo isso é apenas como uma rala esfera luminosa da fraca luz de uma vela numa imensidão escura. O tempo que as casas levam a aquecer é longo, e o tempo que levam a que o quente se dissipe é curto. Tenho estado só a falar dos nossos dias, sim. Mas olhemos agora para trás de nós, lá ao fundo na distância.

O interior dos sapatos com palha para os tentar tornar mais quentes, os caminhos enlameados, as roupas ensopadas e as abas dos chapéus dobradas perante a força da chuva, ou as gorras encharcadas. A maioria das pessoas não tinha acesso à variedade de mudas que nós temos hoje, nem com a mesma rapidez as secavam (tal como não as lavavam com...
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terça-feira, 5 de novembro de 2019

"Isolados na Serra (1.ª parte)" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 24 de Outubro de 2019


Isolados na Serra (1.ª parte)
na edição de 24 de Outubro de 2019
do Jornal de Sintra

    É no isolamento que muito em nós e também nos outros - pela sua ausência - conseguimos encontrar e compreender. Mas é também no isolamento de outros - de outros, do passado - que conseguimos perceber que por vezes a linha que divide loucura e excentricidade é extremamente ténue. Quer essa esteja relacionada com religião, espiritualidade, ou - para o caso, e relacionando isso com o passado - com a má vida.

    «"...Desgraçado. Diz um periódico de Sintra (Portugal) que foi há dias apresentado na autoridade local daquela povoação um súbdito espanhol que, atacado de uma singular monomania religiosa, divagava pela Serra de Sintra, tendo construído uma cova para a noite; comia somente castanhas cozidas e dormia em cima de umas ramas de pinheiro."

    Ainda o Parque da Pena não estava plantado, ainda nem sequer existia a Rampa da Pena, podíamos ler em castelhano a notícia que aqui transcrevi (ressurgida nos dias de hoje no Sintra Lendária). Para os espanhóis...
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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

"O Amante Mais Rico" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 27 de Setembro de 2019




O Amante Mais Rico
na edição de 27 de Setembro de 2019
do Jornal de Sintra


    Qual o amante mais rico? Muitos pensarão apenas na riqueza em formato monetário. Mas tratar-se-á disso mesmo? E que outras riquezas - dentro do espectro do amor - poderão aqui por Sintra ter passado? Seria um interminável tema, mas neste artigo é possível tocar em algumas dessas formas de forma a mostrar o bizarro da vida:

    «Agora poderá estar a achar que não deverá ter percebido bem alguma parte. Teresa Guiccioli era casada? Mas como mantinha então uma relação com o poeta que nos legou das mais fogosas palavras sobre Sintra, em inglês escritas? Como atrás o mencionei, o segundo marido de Teresa gabava-se de Byron ter sido cicisbeo de Teresa. E o cicisbeo era um homem ou um rapaz que, com o consentimento do marido de uma senhora, era o amante dessa. É claro que as coisas eram mais complexas e elaboradas do que aquilo que se pode escrever apenas em duas linhas, mas basicamente tinha que ver com uma mudança de mentalidades e com a preocupação com as aparências (claro, sempre e sempre, as aparências...), principalmente no que dizia respeito ao acompanhar as modas.

     E as modas foram mudando assim como as mentalidades. E a meio do século XIX era já (...)
»

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sábado, 7 de setembro de 2019

"Nostradamus Por Sintra Ludibriado" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 30 de Agosto de 2019



Nostradamus Por Sintra Ludibriado
na edição de 30 de Agosto de 2019
do Jornal de Sintra


    Nostradamus? Mas como pode ser? Pode, e através de contornos que, apesar de não explicados por extenso no artigo (encontram-se em outro local), já mostram o que terá acontecido há cinco séculos atrás. E tudo com o ambiente que então em Portugal se vivia:

    «...para uma arena colocada onde temos hoje a Praça do Comércio, a qual era rodeada de ameias. O elefante entrou na arena e somente passados momentos foram levantados uns largos panos que colocaram a descoberto um rinoceronte que na arena já se encontrava escondido. Assim que o rinoceronte viu o elefante "fez um jeito para o índio que o trazia preso por uma cadeia comprida, como em modo de lhe dizer que o deixasse ir para onde o inimigo estava". Baixou o focinho e o corno, "assoprando pelas ventas com tanta força que fazia levantar o pó e palhas do chão, como se fosse um redemoinho de vento." O elefante – que não era ainda totalmente adulto –, apesar de uma tentativa inicial de intimidação com urros, dirigiu-se para uma das janelas gradeadas que estavam numa parte arena, torceu dois dos varões das grades – que eram consideravelmente grossas – saindo por entre essas e começando a correr para o Rossio "onde era sua pousada, não tendo conta com coisa que achasse diante, assim homens de pé como de cavalo, que perante todos passava, fazendo tamanha revolta que, com os brados que davam uns aos outros que se guardassem, parecia que era alguma batalha  (...)»

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terça-feira, 30 de julho de 2019

"Santa Maria da Pena e um Eclipse" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 12 de Julho de 2019

Santa Maria da Pena
e um Eclipse

na edição de 12 de Julho de 2019
do Jornal de Sintra


    Eclipse no sentido literal? Sim, no sentido literal. Se aconteceu? O eclipse? Sim, aconteceu. E poderá ter acontecido de uma forma muito especial e inesperada para quem olhe para o passado. E também para quem no passado o tenha vivido com a hipótese que se coloca.

    «Cerca de três dias depois, o Príncipe João veste uma longa capa dourada que se vai arrastando sobre os degraus que o Príncipe deixa para trás no seu subir até um cadafalso; sobe depois mais outro lanço de degraus que o levam até uma cadeira na qual se senta. Aí segura numa de suas mãos um ceptro. Momentos depois a mão deixa o ceptro para se juntar à sua outra e se apoiarem ambas sobre um missal; assim é prestado o seu juramento; com os nobres diante de si, prestam-lhe estes também um outro juramento; terminados os juramentos há uma bandeira do Reino de Portugal que se solta, assim como uma voz lança no ar: Real, Real, Real, pelo muito alto e muito poderoso El Rei D. João Nosso Senhor! O Príncipe transformado em Rei desce do estrado e monta um cavalo, gritando o dito Real, Real; o agora Rei D. João II começa a afastar-se a cavalo do cadafalso onde foi coroado, percorrendo um terreiro cercado por edificações: o terreiro do antigo Paço Real de Sintra.
    Os anos foram  (...)
»

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quinta-feira, 25 de abril de 2019

Sintra e Gil Vicente - 5 artigos de Miguel Boim no Jornal de Sintra (2018-2019)


O Filósofo e o Parvo:
não só na obra de Gil Vicente, mas também na vida.

    Gil Vicente e Sintra é uma associação de dois ícones portugueses que é comummente feita. E aquilo de que se não foge de encontrar mencionado é o termo Paraíso Terreal, como se pode observar à direita num prospecto turístico de meados do século XX.

O habitual termo Paraíso Terreal
aparecendo sempre na evocação de
Sintra e Gil Vicente.
Mas que mais de Sintra podemos
em Gil Vicente encontrar?
    Mas o que realmente de Sintra encontramos na obra completa de Mestre Gil? É-nos possível perceber, vislumbrar, como Gil Vicente sentiria este lugar de Portugal que para alguns de nós representa um reduto onde a alma se tenta na verde solidão saciar?

    Ao longo de cinco artigos (cinco partes de Gil Vicente e Sintra) escritos para o Jornal de Sintra, analisei algumas das formas como o Mestre aludiu a Sintra, como essas podem ser interpretadas à luz da época, e como as suas palavras podem reflectir o sentimento que esse ser humano do século XVI - que gravou o seu nome na nossa História ao longo de 500 anos - tinha para com a Serra de Sintra.

    500 anos depois, ainda aqui se mantêm os descendentes da fauna que também captou a fantasia de Mestre Gil.

    500 anos depois, ainda que sem a mesma variedade de fauna, somos encantados pela voz da natureza e de passados os quais sentimos que com o nosso presente nos podem reconciliar.

    500 anos depois, podemos sentir Sintra em toda a obra de Mestre Gil, devendo nós hoje perceber que também naqueles tempos existia quem preferisse o sossego da Serra à agitação das festas no Paço Real, quem preferisse estar com verdadeiros lobos ao invés de estar com aqueles que frequentando as ditas festas, vestiam humana pele.



    1.ª Parte de Gil Vicente e Sintra
Terra de Cardos e Pedras

Terra de Cardos e Pedras
na edição de 28 de Setembro de 2018
do Jornal de Sintra

    «...Mas Mestre Gil era muito mais do que alguém com grandes capacidades para executar algumas poucas funções. Gil Vicente era ele próprio um gerador de fantasia. No ano de 1520 esperava-se a entrada em Lisboa do Rei D. Manuel e da Rainha. O Mestre era reconhecido pela sua fantasia a ponto tal que o Rei deu indicações para que se seguissem todas as sugestões do Mestre. Quando se viu chegado o dia da entrada do Rei e da Rainha, havia inclusivamente no Tejo uma caravela mal aparelhada e de velas esfarrapadas e pintadas de más pinturas de que saíam grandes fumaças e fogos artificiais (...) e muitos trovões; e a caravela sem governar ora através ora a popa (...) e os diabos fazendo coisas de muito prazer com que houve a maior festa do recebimento... No dia seguinte, o Rei e a Rainha tinham muitas plataformas ou palcos por entre os quais haviam de passar. Num deles era visível um homem deitado, adormecido, do peito do qual saía uma grande árvore dourada (a Árvore de Jessé, brotando do peito de Adão) tendo essa árvore representações de todos os reis e de todos os profetas, acima desses estando Deus com os seus anjos, estes últimos tocando seus instrumentos musicais. Ao lado desse palco, um outro muito coberto de ramos e arvoredo, com muitas fontes de água, que representava a Ilha da Madeira; e no meio uns ricos aposentos em que viviam quatro fadas e em uma rica câmara estava um berço dourado que embalavam quatro sereias cantando suavemente; e as fadas falaram em lugar da Ilha, oferecendo-se para criarem o filho ou filha primeiro que [a Rainha] parisse, e [que] seria por elas fadado (...)» (CONTINUAR A LER)



    2.ª Parte de Gil Vicente e Sintra
O Cavaleiro Portugal e a Serra de Sintra

O Cavaleiro Portugal e a
Serra de Sintra

na edição de 09 de Novembro de 2018
do Jornal de Sintra


    «...E é assim que começa a Farsa da Lusitânia, dizendo-nos que uma ninfa, há três mil anos atrás, tinha por morada uns rochedos ao pé da Serra de Sintra, serra que então se chamava Solércia (“Solércia” queria dizer tanto agudeza de espírito e esperteza, como algo capaz de desencantar mil ardis ou de muita manha ter). O Sol, que passava sempre na distância e via aquela ninfa de nome Lisibea entre as rochas próximas da Serra de Sintra, e a visse nua sem nenhuma cobertura, tão perfeita em suas corporais proporções, como formosa em todolos lugares de sua gentileza, fez, através do amor entre ambos, que Lisibea desse à luz uma filha de nome Lusitânia.  (...)» (CONTINUAR A LER)



    3.ª Parte de Gil Vicente e Sintra
Coração de Amante e a Entrada no Inverno

Coração de Amante e a Entrada
no Inverno

na edição de 07 de Dezembro de 2018
do Jornal de Sintra


    «...Mas antes de lá se chegar, há que percorrer o caminho que Mestre Gil muitas vezes terá feito e onde muito observaria. Nesse caminho, da Cidade de Lisboa à Serra de Sintra, Gil Vicente via – já naquilo que é hoje considerado como Sintra – traços dos tempos modernos, dias em que a alegria e a tradição, naquele ano de 1529, já há muito se tinham perdido. Batia a saudade dos tempos passados – tal como a nós hoje, dos nossos passados tempos de vida. É aqui sim, que Mestre Gil fala do que Portugal até há pouco (início do século XVI) fora, e da alegria que era então sentida também no concelho de Sintra; assim que entra em palco, assim que começa o Triunfo do Inverno, o Mestre encontra-se só, perante a audiência, e diz: Em Portugal vi eu já / em cada casa um pandeiro, / e gaita em cada palheiro; / e de / vinte anos a cá / não há aí gaita nem gaiteiro. / A cada porta um terreiro, / cada aldeia dez folias, / cada casa atabaqueiro: / e agora Jeremias / é nosso tamborileiro. / Só em Barcarena havia / tambor em cada moinho, / e no mais triste ratinho / s’enxergava uma alegria / que agora não tem caminho. (...)» (CONTINUAR A LER)



    4.ª Parte de Gil Vicente e Sintra
The Green Man, Sintra e o Mestre Gil

The Green Man, Sintra e o Mestre Gil
na edição de 11 de Janeiro de 2019
do Jornal de Sintra


    «...Como tais preocupações apresentavam apenas o brilho que ofusca os escuros recantos onde de forma recôndita a falta de dignidade tem por hábito andar, o Ferreiro e a Forneira decidem ser hora de partir. E é na sequência da sua partida que surge o mais conhecido excerto de Mestre Gil Vicente relativo à Serra de Sintra, e dito pela boca da própria Serra de Sintra: Um filho de um Rei passado / dos gentios Portugueses / tenho eu muito guardado, / há mais de mil anos e três meses / por um mágico encantado. / E este tem um jardim / do paraíso terreal, / que Salomão mandou aqui / a um Rei de Portugal; / e tem-no seu filho ali. / Este será o presente, / e eu irei por ele asinha, / porque é para a Rainha / justo e conveniente. / O qual Príncipe virá / em pessoa aqui com ele, / que sabe as virtudes dele, / e como e quem o trouxe cá, / e quanto se monta nele. / E virá acompanhado / dessas cachopas Sintrans, / e de mancebos do gado, / Louçãos e elas louçãs, / com seu cantar costumado.

    O Verão diz então que o jardim apresentado – para que mais fastio não cause pois ainda nem acabado está – conclui o seu triunfo, aquilo que na realidade foi o triunfo do Verão.

    E chegamos agora ao desvelar de como foi ludibriado quem até aqui chegou. Entram quatro mancebos e quatro moças, todos muito bem ataviados em folia, dizendo esta cantiga: Quem diz que não é este / San João o Verde? Exactamente, São João, o Verde. Aos olhos de hoje não conseguimos compreender muitas das coisas do passado, ou tomamo-las como erradas. Mas se com os devidos e necessários filtros para se olhar para esse mesmo passado, somos capazes de entrar de forma mais profunda nas vidas que os nossos antepassados viveram. Na 3.ª parte destes artigos mencionei que a Rainha dera à luz em Abril de 1529. Em Abril, como é óbvio, não é Verão. E é o próprio Verão, na peça, a dizer que foi no seu tempo que a Rainha foi alumbrada, iluminada, que deu à luz. Além do mais, com o enfraquecimento do Inverno (após os dois triunfos desse), quem apareceu de imediato, trazendo os cânticos da natureza consigo, foi o Verão. E se – por exemplo – olharmos para outra peça do Mestre, aquela que tem o nome de Auto dos Quatro Tempos, vemos que esses “tempos”, as estações do ano, estão divididas entre Verão, Estio e Outono e Inverno. A forma como foi ludibriado foi ao ter interpretado este Verão de quem tenho falado ao longo de todo o artigo, como o nosso Verão; na realidade trata-se daquilo que interpretamos hoje como Primavera, e que então era tida com o termo Verão. No fundo, este Verão de que falei ao longo de todo o artigo representa o renascimento no ciclo da natureza, a sua renovação. (...)» (CONTINUAR A LER)



    5.ª Parte de Gil Vicente e Sintra
O Fim de Mestre Gil e Suas Sintras

O Fim de Mestre Gil e suas Sintras
na edição de 08 de Fevereiro de 2019
do Jornal de Sintra


    «...Estávamos então em 1529. Em 1502 tinha sido a primeira representação de uma obra do Mestre, actuando ele próprio praticamente só perante a Rainha, o Rei, e o então recém-nascido Príncipe. Em 1529 esse recém-nascido já se tinha tornado no Rei D. João III. E o que daqui, de 1529 para a frente surgiu, foi um lento apagar do Mestre, até o seu nome ter silenciosamente desaparecido. O Auto da Lusitânia (do qual falei na 2.ª parte desta sequência de artigos) foi concebido para celebrar o nascimento do Príncipe D. Manuel (a quem foi também posteriormente dedicado o retábulo da Pena (o retábulo ainda poderá ser visto nos dias de hoje no Palácio da Pena)). Contudo existiu uma outra obra de Gil Vicente que foi utilizada nas festas de celebração do nascimento do Príncipe D. Manuel, mas não cá em Portugal e sim em Bruxelas, na embaixada de Portugal em Bruxelas, no final do ano de 1531. À partida não terá sido a primeira vez que foi apresentada, e tinha o título de Jubileu d’Amores. Entre a assistência em Bruxelas encontrava-se um cardeal italiano, de nome Girolamo Aleandro. Depois da apresentação da obra o cardeal enviou uma carta ao secretário do Papa, queixando-se da peça. Entre os múltiplos traços heréticos, referia que (...)» (CONTINUAR A LER)



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