colecções disponíveis:
1. Lendas de Sintra 2. Sintra Magia e Misticismo 3. História de Sintra 4. O Mistério da Boca do Inferno 5. Escritores e Sintra
6. Sintra nas Memórias de Charles Merveilleux, Séc. XVIII 7. Contos de Sintra 8. Maçonaria em Sintra 9. Palácio da Pena 10. Subterrâneos de Sintra 11. Sintra, Imagem em Movimento


sábado, 22 de julho de 2017

2007-2017: 10 Anos de O Caminheiro de Sintra


Miguel Boim: 10 anos de O Caminheiro de Sintra


    Tudo aqui começou há mais de treze anos, escrevia eu em 23 de Julho de 2007. Encaro este como o ponto de viragem no meu conhecimento de Sintra, e consequentemente, na minha vida e na minha maneira de estar nesta, tal foi (e é) a influência que Sintra exerce em mim.

    O suporte em que o fazia naquele Verão de 2007 era num dos modelos mais simples do Blogger e, claro, tendo o verde como fundo. As minhas pretensões eram simplesmente passar para palavras algumas das minhas recordações, umas longínquas, outras mais recentes, mas sempre realçadas nas minhas emoções não fosse esta mística serra um dos grandes amores da minha vida.

    O começo do texto, “tudo aqui começou”, referia-se à imagem que era apresentada. Mas dizia mais sobre ela e sobre essa primeira metade da década de 1990: Foi no trilho que nesta estrada desemboca, que me tornei um iniciado nos caminhos da serra.

    Foi assim, desejando contar memórias de uma época em que a Serra de Sintra estava muito ao abandono, que O Caminheiro de Sintra surgiu como escritor. Na verdade publiquei uma pequena série de textos que acabei por retirar do blog quando fiz nesse uma mudança radical já no ano de 2010.

O surgir de O Caminheiro de Sintra em Julho de 2007

    Essas memórias eram principalmente dos dias e noites que O Caminheiro de Sintra, o Miguel Boim, tinha passado na Serra em tempos em que não existia Google Maps – ou internet sequer em Portugal, num sentido mais aproximado do que a conhecemos hoje – e o único mapa digno desse nome estava desactualizado em muitas décadas, fruto da natural erosão e da forma como a vegetação sem controlo crescera.

    Eram tempos que se podiam percorrer quilómetros dentro de uma densíssima floresta e em que percorrendo um fechado trilho de vegetação em redor de nós, poderia aparecer de repente à nossa frente, uma ruína de uma antiga casa, surpresa que nos causava quase um êxtase. Era um romanticismo que alguns conheceram na Serra de Sintra por esses anos. Apesar de todos os sentimentos, todas as emoções de uma natureza selvagem, sem controlo – e escondendo então as histórias mais fantásticas da história que anos mais tarde descobriria – acabava por ter mil perigos que hoje não existem graças a entidades como a Parques de Sintra Monte da Lua, o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas, a Câmara Municipal de Sintra, a Protecção Civil e os gloriosos Bombeiros, que zelam, recuperam e projectam a protecção de uma das áreas mais importantes que temos em Portugal em termos de Património Material e Imaterial.

    Mas naquele tempo, para um adolescente que crescera na Rua dos Fanqueiros tão próximo da Praça da Figueira como do vetusto Terreiro do Paço, numa casa dos anos de 1700, a Serra foi algo que não esperava encontrar. Muito provavelmente o contraste que sentiu ao ler estas palavras foi entre a cidade e a Serra, mas o tesouro que Serra se tornou para o meu coração não teve que ver com isso; antes, foi através da perda de vários dos pilares mais importantes que uma criança pode ter na vida. Como consequência, deu-se também, na entrada da adolescência, uma mudança para Queluz. Foi felizmente essa proximidade que passadas décadas me levou até aqui, onde hoje novamente me encontro.

A convite da editora Zéfiro em 2012
seria publicado no fim de 2014
o livro Sintra Lendária


    O impacto que a natureza da Serra teve em mim ao longo daqueles dias e noites foi o de uma mãe, que vai ensinando o seu filho ao deixá-lo aprender por si; ao superar-se no reconhecer dos medos que a noite num adolescente evoca; na fé que tem de ter no seu caminho quando o coração tem o fogo que o que os rodeiam não o possuindo, não o entendem; foi, principalmente e embora que quase paradoxalmente, o lugar, o espaço, onde me sentia seguro, longe da opressão que aterroriza ao não tocar, e amado com um maternal amor.

    A adolescência foi passando e naqueles braços, feixes de verde com que a Serra me acolhia, despertou em mim a centelha da curiosidade pelos humanos de outros tempos, de outras “Serras” que por ali tinham andado. E começou a procura, muito esparsa, lenta, pela história de todo aquele ambiente selvagem.

    Chegou o impacto do início da vida adulta, e... Sintra era uma saudade que provocava um aperto no coração. Pensava para mim um dia viverei algo não semelhante, mas pelo menos com uma mesma intensidade.
    A saudade, o mistério da vida nas suas coisas mais simples, levava-me sempre para as recordações de uma vida bizarra que havia encontrado uma verde mãe, embora tivesse tido de me podar a mim próprio tal como acontece com quem mais isolado cresce e vive. E no Verão de 2007, queria escrever sobre isso, deixar isso gravado, nem que fosse da forma mais simples. Nesse 23 de Julho continuava, deixando que se notasse aquele fascínio de paixão que ainda afectava a minha escrita: Tudo o que bastou, passar este portão de madeira que na altura não existia, e sentir sob os meus pés a energia da terra que me levava caminho e serra acima. Existia um pequeno muro que ladeava uma pequena corrente de água. Muito musgoso e escorregadio, era também muito íngreme esse estreito e custoso caminho, mas o atalho que nos permitia dava já o gozo de quem ainda não conhecia o misticismo sempre aqui presente. Hoje iluminado por raios de sol, brilha tanto como a imagem que dele tenho de há tantos anos atrás.

    Os anos foram passando, e tudo se foi dando da forma mais natural, espontânea, possível. O isolamento, o estar concentrado apenas no passado da Serra vivendo-o dentro de minha mente dia e noite, certamente que terá contribuído para toda essa espontaneidade com que no caminho e no meu caminho, me começou a perseguir.

O Centro Interactivo de Mitos e Lendas de Sintra,
na velha Vila de Sintra, projecto no qual fui,
através da empresa J.W. Thompson, consultor de conteúdo

    Mesmo vivendo de forma mais isolada, conheci pessoas que têm um enorme amor também à Serra. Conheci pessoas que foram reconhecendo o meu trabalho e foram fazendo com que esse fosse crescendo. Não creio que o desejo de citar nomes me vai impedir de – por esquecimento momentâneo – não colocar aqui alguns. Talvez deva só relembrar algumas instituições que estiveram com o meu trabalho em momentos chave, como por exemplo a Equinócio que tanto insistiu inicialmente comigo para que eu os ajudasse nas caminhadas temáticas, coisa que só a Casa do Fauno viria a conseguir, após mil conversas e sonhos trocados. Ou a Voando em Cynthia, crucial para que eu conseguisse desenvolver ainda mais as minhas visitas. A editora Zéfiro, que em 2012 me convidou para escrever o segundo livro, e que desde o fim de 2014 originou o querido filho (Sintra Lendária) que de ano para ano percorre cada vez mais caminhos medidos por pares de olhos que lêem as suas páginas.

    Ou o Jornal de Sintra que depois de no passado ter tido colunas de Agostinho da Silva, José Pedro Machado, Francisco Costa, entre outros, me honrou com o convite para escrever regularmente. Ou os textos, artigos, que honrando-me me pedem para outras publicações. Ou a J.W. Thompson, que quis forçosamente que fosse o seu consultor de conteúdo no projecto que se ergueu no centro da Vila velha, o Centro Interactivo de Mitos e Lendas de Sintra. Ou a Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra que fez com que criasse As Lendas de Sintra e os Ratos de Biblioteca, projecto que no último ano lectivo foi felizmente um imenso sucesso e com o qual pude levar histórias da história a mais de 2000 alunos do concelho de Sintra.

Projecto que permitiu que levasse o Património Material e Imaterial
a mais de 2000 alunos das escolas do concelho de Sintra,
com a supervisão da Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra

    Por razões óbvias não continuarei com as nomeações. E sei que aqueles que... me são significativos pelas conversas da vida, pelos trabalhos em conjunto, sabem que o meu afecto por eles fica sempre expresso, marcado, na forma como me dedico aos trabalhos em conjunto.

    O Caminheiro de Sintra quis, foi sua intenção, esconder o Miguel Boim, o adolescente que nos anos 90 se deixou enlaçar pelo amor maternal da Serra de Sintra. Daí ter surgido o pseudónimo. Felizmente, ainda muito o esconde deixando em evidência aquilo que para aqui é sempre mais importante: a história de Sintra, os seus espaços, os seus recantos, as suas memórias, com as quais queremos fundir as nossas. Tal como no final do século XIX, o eminente Theodore Fontane era conhecido como O Caminheiro de Brandenburg precisamente porque nos seus passeios dava a conhecer as lendas, a história, a paisagem, dos tempos da antiga Marca (“principado”) de Brandenburg (para manter a tradição da espontaneidade tratou a vida de me dar esta informação apenas há umas horas).

    Na vida muito se perde, muito se trabalha. Mas quando o trabalho é movido por uma fornalha imensa e tem como insígnia um longevo amor, as coisas vêm ter connosco. Tal como veio ter com Sintra através destas palavras.


Ana Galvão com Miguel Boim e Nuno M. Valente no programa As Donas da Casa, Antena 3








sexta-feira, 7 de julho de 2017

"A Rainha D. Carlota Sepultada em São Pedro de Penaferrim" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 30 de Junho de 2017

A Rainha D. Carlota Sepultada em São Pedro de Penaferrim
na edição de 30 de Junho de 2017
do Jornal de Sintra


    Já se encontra disponível para leitura gratuita online, o meu último artigo no Jornal de Sintra. Não é só sobre uma maneira de ser e um rosto que marcou a nossa história através do despeito que muitos têm pelo seu nome; é também um excerto do século XIX que interessará especialmente aos sanpedrinos: A Rainha D. Carlota Sepultada em São Pedro de Penaferim.

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 30 de Junho de 2017.

    Deixo ainda o convite para se associar à página de Facebook do Jornal de Sintra, um periódico histórico acabado de completar neste mês de Janeiro os seus 83 anos!

    E não se esqueça que também tem disponíveis online os meus anteriores artigos do Jornal de Sintra - para além daqueles de publicação exclusiva no blog.










Apontamento Sobre a Presença na Feira do Livro de Lisboa 2017

Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra, na Feira do Livro de Lisboa 2017


        Apenas um pequeno apontamento para agradecer a todos aqueles que estiveram presentes na minha palestra que decorreu no último - e abrasador - dia da Feira do Livro de Lisboa 2017, assim como àqueles que iam passando pelas laterais do auditório e se deixaram magnetizar com a história lendária de Sintra. E, claro, sem esquecer quem esteve nos stands da editora Zéfiro a trabalhar ao longo de toda a Feira.

        No final da palestra - e apesar do calor pelo qual todos passámos - muitos da audiência ainda estiveram em mais uma fila para levarem uma recordação; tanto as palavras que deixei no livro de cada um como a vontade de cada um em que o fizesse, uniram-nos na admiração que temos por este património material e imaterial que faz com que as nossas emoções e sentimentos continuem dia após dia, ano após ano, a serem agitados por esta terra, por esta Serra.

        Por último, uma nota para algo que ocorrerá nos próximos dias, e que - embora que simples - é para já um enigma:



Até breve!











sábado, 3 de junho de 2017

Dom João Manuel e as Carapuças com Cornos de Cabra


Um Sátiro (ou Fauno)
na publicação de Hieronymus Osius, Fabulae Aesopi
(das fábulas de Esopo, também tratado no meu último
artigo do Jornal de Sintra), ano de 1564

    Quem foi D. João Manuel? Quantos D. Joões Manuel não existiram?
    Este era especial, e, aliás, até mesmo o uso deste Dom era especial.
    Não no sentido que intuitivamente lhe reconhece, não advindo de um título da alta nobreza (Duque, Marquês, Conde, Visconde, Barão, Senhor), nem advindo de mercê própria (Dom poderia assim ser concedido: à parte de título nobiliárquico); o que o tornava especial além do seu enquadramento familiar, é que foi na sua sucessão, no herdar deste Dom específico, que se geraram as tragédias em que o Alcaide-mor de Sintra ficou no Norte de África com uma flecha atravessada no rosto e lutando como bravo leão, ou que a aparição do coroado, depois da passagem por essa batalha, passou a ser avistado em vários pontos, avistando-se mais concretamente a esperança de por entre nevoeiro reaparecer, trazendo um novo mundo ao interior ou ao espírito de Portugal. Mas para tal, quanto a mim, é necessário que cada um de nós saia primeiramente da névoa em que esse se encontra, mostrando um novo mundo a si próprio.

    Mas voltando a D. João Manuel: o seu pai, figura muito conhecida na história de Portugal, teve até enquanto muito jovem, a oferta de um escravo que havia nascido no Congo. Acabou muitos anos mais tarde por tornar esse escravo num cavaleiro da Ordem de Santiago – muito também devido a feitos praticados por esse mesmo escravo na conquista de um território, a par do irmão do Rei, a par do Imperador Carlos V, e a par de D. João de Castro.

    Esse pai de D. João Manuel que inclusive tornou em cavaleiro um escravo que tinha recebido quando jovem, era precisamente o Rei D. João III. D. João Manuel, além de ser filho de um rei português do século XVI, era Príncipe Real. E um príncipe, deveria ter sempre a sua sagração enquanto cavaleiro, em grandes festas – ou aquilo que assim fosse encarado – ou desafios onde pudesse mostrar a sua destreza, onde pudesse demonstrar os seus aprestos na cavalaria, em toda a nobreza e manejos que a essa estivesse ligada, como nos ficou escrito, na nossa história, por exemplo através do Rei D. João I.

    As festas e desafios escolhidos, decididos para o Príncipe D. João Manuel foram-nos contados nas palavras de Jorge Ferreyra de Vasconcellos, que poucos anos antes – pouquíssimos! –  era apenas um moço de câmara do Infante D. Duarte (irmão do Rei D. João III). Para essas festas e desafios foi escolhido um conhecido lugar de Lisboa que naqueles anos tinha um Palácio Real e tomava o nome de Enxobregas. Se associou Xabregas a Enxobregas, fê-lo da forna correcta, exceptuando talvez ou muito provavelmente, a imagem que em sua mente apareceu da “modernidade” de Xabregas. Nesses anos de 1540 era a zona tomada literalmente como um lugar paradisíaco, onde os bergantins atracavam em águas claras vendo a poucos metros de si o Palácio Real, e por detrás desse, erguendo-se colinas repletas de doces bosques guardando fantasias da Antiguidade Clássica.

    Mas o lugar não foi escolhido pelos homens que percorrem o chão de terra à qual se agarra a maior razão e lucidez. O lugar foi escolhido por um conjunto de selvagens com cabelo pelos joelhos, com cornos de cabra saindo de suas carapuças, que foram a um outro Paço Real numa montanha de um promontório da Luna – representação à qual inevitavelmente associamos Sintra, o Paço Real de Sintra, ainda para mais pela forma como está transcrito no livro Sintra Lendária -, e em que entrando na sua principal sala, orlos fazendo soar, anunciaram o desafio à família real.
    O dia do desafio viu-se chegado, as estruturas para as justas foram montadas, e os cavaleiros, todo o tipo de cavaleiros e suas armaduras os revestindo, foram chegando. Uns traziam sua honra para celebrar o investir do Príncipe enquanto cavaleiro, outros traziam presentes para fazer honra ao dia.


Dom João Manuel

    O contar da celebração do armar cavaleiro o Príncipe D. João Manuel, revela-nos que os maiores presentes tinham sido trazidos da Serra de Sintra. Tinham sido capturados direi antes, na Serra de Sintra, por dois bravos cavaleiros portugueses que cruzando-a se cruzaram com dois gigantes que de lá queriam partir para o Mediterrânio. Ali esses viram seu destino riscado para serem ao Príncipe de Portugal ofertados. A obra, romanceando – se assim se poderá tal termo utilizar dada a profusão e transição de estilos que marca na época –, conta-nos também que os dois gigantes foram da Serra de Sintra trazidos numa águia sobre um batel, mas quando essa se aproximava de Enxobregas, uma de suas asas tocou o Tejo, fazendo com que ela se virasse, atirando os dois gigantes e os dois cavaleiros para o fundo do Tejo. Das águas do rio emergiu apenas um dos cavaleiros, enquanto o outro se perdeu.
    Este recontar transmite-nos muito provavelmente que um desses dois cavaleiros faleceu no afundar de uma embarcação que se dirigia para as festas de investidura do Príncipe Real de Portugal como cavaleiro. Apesar disso, as celebrações continuaram.


 
uma composição de Francesco Corteccia, do século XVI, onde os coros de orlos - como os tocados pelos sátiros - se encontram presentes 

    Assim, no século XVI nos foi contado que foi armado cavaleiro o Príncipe de Portugal D. João Manuel, que nunca chegou a ser Rei de Portugal e que faleceu poucos dias antes de seu único filho e herdeiro nascer, o que motivou – enquanto o herdeiro não nasceu – grande preocupação, até porque sua mãe o carregava dentro de si com todos os riscos à situação inerentes.. O filho do Príncipe D. João Manuel nasceu sem conhecer seu pai, e rebelde, é ainda hoje conhecido como “o Desejado”. O pai de D. Sebastião e Príncipe Real, D. João Manuel, viveu apenas 17 curtos anos, não sendo os suficientes para conhecer o Rei que através da sua história de vida marcou nossa cultura.

    Passam hoje, 3 de Junho, 480 anos desde que nasceu para curta vida viver. Uma curta vida que nos legou também, dois gigantes caçados na Serra de Sintra e selvagens sátiros anunciando justas em Xabregas, numa embaixada silvestre que teria, eventualmente, entrado pelo Paço Real de Sintra, orlos tocando.

    Muito havia por dissecar nestes doces e romanceados contornos, mas hoje é dia de celebrar os 17 anos da vida vivida que o Príncipe D. João Manuel na nossa história tomou.








terça-feira, 23 de maio de 2017

"Lendas de Sintra - Histórias e Lendas do Monte da Lua" - palestra na Feira do Livro de Lisboa (2017) por Miguel Boim

 
O livro Sintra Lendária - Histórias e Lendas do Monte da Lua
estará à venda nos stands C22 e C24 da editora Zéfiro na
Feira do Livro de Lisboa 2017, no Parque Eduardo VII
(fotografia de capa do fotógrafo Taylor Moore)

    No dia 18 de Junho (um Domingo) às 19 horas darei uma palestra na Feira do Livro de Lisboa 2017, intitulada "Lendas de Sintra - Histórias e Lendas do Monte da Lua". Será no último dia da Feira do Livro, o que fará que mesmo quem costuma deixar tudo para último - como a ida à FLL - ainda a poderá aproveitar! E quem vá à Feira do Livro logo nos seus primeiros dias, ficará com uma desculpa para lá voltar no último dia.

    A palestra tomará lugar no auditório da Praça Laranja, enquanto que o livro Sintra Lendária - Histórias e Lendas do Monte da Lua estará à venda nos stands C22 e C24 da editora Zéfiro na Feira do Livro.

   "Os contornos da Serra são quase como dentes de uma chave que destranca a fechadura da realidade que nos encerra. Usando-a, descerramos a realidade e entramos então num Mundo de fantasia que da superfície dos nossos sonhos lentamente como um véu se eleva, que sendo enfunado ganha formas, ganha corpos, ganha rostos. Serra e Vila são então o espaço e o tempo em que as lendas se cruzam com a realidade aumentando a nossa curiosidade pelos mistérios da vida." in Sintra Lendária - Histórias e Lendas do Monte da Lua, de Miguel Boim (Editora Zéfiro, stands C22 e C24 da Feira do Livro de Lisboa)

    E afinal, como é que foram moldados estes véus de sonhos na história de Sintra? Onde se encontra a lenda e o mito, e onde se encontra a realidade anotada pelos seres humanos do passado? As respostas encontram-se na história, e é nessa que nos deparamos com as realidades menos esperadas que nos despertam para o cariz lendário das histórias vividas em Serra e Vila.

Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra
Créditos fotográficos: C.N.E.
Núcleo Serra da Lua

☙☘❧ INFORMAÇÕES GERAIS


► Palestra por Miguel Boim (O Caminheiro de Sintra) na Feira do Livro de Lisboa
autor do livro Sintra Lendária - Histórias e Lendas do Monte da Lua, editora Zéfiro (stands C22 e C24 da Feira do Livro de Lisboa)

► Domingo, 18 de Junho de 2017
às 19h00

► Local da palestra: auditório da Praça Laranja
da Feira do Livro de Lisboa

► Acesso livre a todas as pessoas que se encontrem na Feira do Livro de Lisboa (Parque Eduardo VII)

◎ Página de Facebook O Caminheiro de Sintra (Miguel Boim): https://www.facebook.com/Caminheiro.de.Sintra/

◎ Blog O Caminheiro de Sintra (Miguel Boim): http://palacio-de-sintra.blogspot.pt/









"A Pedra Amarela e Uma Raposa de Fernão Lopes" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 19 de Maio de 2017

A Pedra Amarela e Uma Raposa de Fernão Lopes
na edição de 19 de Maio de 2017
do Jornal de Sintra


    Já poderá ler online o meu último artigo no Jornal de Sintra, que através das mutações das lendas e da impossibilidade das fábulas, nos leva do século XIX até à Antiguidade Clássica. Trata de uma memória minha de há mais de vinte anos atrás, incidindo sobre um dos pontos mais conhecidos da Serra de Sintra: A Pedra Amarela e Uma Raposa de Fernão Lopes.

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 19 de Maio de 2017.

    Deixo ainda o convite para se associar à página de Facebook do Jornal de Sintra, um periódico histórico acabado de completar neste mês de Janeiro os seus 83 anos!

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quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sintra e a Invenção da Cruz: 457 anos sobre a fundação do Convento dos Capuchos, 562 anos sobre o nascimento do Príncipe Perfeito



    Este é um dia especial para Sintra, e especialíssimo para alguns espaços específicos de Serra e Vila.

    E porquê Invenção da Cruz? Porque hoje é dia 3 de Maio, e em Portugal, durante a maior parte do correr do tempo no reino, a Invenção da Cruz foi celebrada a 3 de Maio. Existiram outros dias do ano para o celebrar (cá, tendo também sido a 14 de Setembro) mas para o que hoje interessa e tenho para – de especial – lhe contar, foi no 3 de Maio. A origem do termo – Invenção da Cruz – poderá conhecê-la no artigo que publiquei no ano de 2016, também a 3 de Maio (disponível aqui).

O Convento dos Capuchos da Serra de Sintra, por William Burnett,
década de 1830 (transformação e tratamento de imagem por parte do autor
a partir de original da Biblioteca Nacional de Portugal)

    Temos um Rei, por exemplo, que em termos de impacto pela vivência, pela sua vivência aqui em momentos críticos, pode dizer-se que tem uma ligação especial com Sintra. Não nasceu aqui, mas nasceu num dia da Invenção da Cruz, num 3 de Maio dos anos de 1400. O povo, de saia e barrete, e os eruditos de chapeirão e sapato em ponta, sempre tentaram inventar lendas que o ligassem a Sintra, mas curiosamente essas lendas parece que ganharam vida e no seu recontar colocaram outras personagens da história na vez do nome de D. João II, ou o inverso.

Iluminura do Livro dos Copos, mandado elaborar por D. João II,
podendo ler-se neste fragmento
Saibam todos que na era de mil quatrocentos e trinta e dois anos...
(transformação e tratamento de imagem por parte do autor
a partir de original da Torre do Tombo)


    Mas isso também não é para hoje e poderá muito bem ser para breve. Mas mais do que nas lendas por humanas mentes produzidas, nós temos a realidade lendária que foi vivida, e lendária por tão intensa ter sido em seu viver e sentir. Sabemo-lo mesmo que não saibamos exactamente do que se fale: a morte, o ódio, o amor, o perigo, tudo é lendário quando a extremos levado. O início do reinado de D. João II passa por um tropeção quando é coroado em Santarém, mas o pai, D. Afonso V decide voltar e o novo Rei passa a velho Príncipe.


Iluminura do Livro dos Copos, mandado elaborar por D. João II,
podendo ler-se neste fragmento
O nome Deos Seja Sempre Louvado

(transformação e tratamento de imagem por parte do autor
a partir de original da Torre do Tombo)

    Da segunda e definitiva vez que D. João, Príncipe de Portugal, é coroado Rei, inicia de imediato uma série de medidas que passam por adagas, e cepo e sator (carrasco). Tudo, em nome da justiça e do povo. Aliás, a alma da divisa que a Guarda Nacional Republicana (G.N.R.) utiliza é a mesma que o Rei teve para si: Pela Lei e Pela Grei. Essa reviravolta na forma como a justiça é aplicada, acaba por estar relacionada com Sintra, pois foi em Sintra, no Paço Real (vulgo, Palácio da Vila), numa parte específica que mesmo nos dias de hoje feia sendo, é para mim das mais belas, pela coroação do Príncipe Perfeito nesse lugar. Sim, o ser humano que nasceu no dia da Invenção da Cruz do ano de 1455 e que ficou marcadamente conhecido na nossa história, foi coroado Rei em Sintra. O Rei que se preocupava com o que os filhos dos pais diziam, como no caso de João Álvares, conhecido como o Gato. De pobre ascendência conseguiu destacar-se no paço; mas certa vez seu pai passou por si, fez-lhe a devida vénia, e Gato desprezou-o; D. João II ao tomar conhecimento da situação disse para o Gato não lhe voltar a aparecer, pois o homem que desprezava seu pay e lhe nam fazia bem, podendoo fazer, nam era pera se fiarem delle. Entre milhares de coisas mundanas – mas intensas para quem as vivia como cada um de nós hoje vive sua vida – foi também o Rei que fez cumprir justiça quando os camponeses se queixaram do roubo impune que os homens dos grandes senhores faziam nas suas amoreiras: roubando-lhes os bichos-da-seda, e assim quebrando o negócio da extracção do fio que fazia a nobreza sentir o suave deslizar do tecido em seu corpo. E, voltando a Sintra, o Rei que se relaciona também com o cume onde hoje em dia se situa o Palácio da Pena, mesmo antes de ser o Mosteiro de Nossa Senhora da Pena que ali antes ocupava aquele cume da Serra.

O altar da Igreja (gruta) do Convento dos
Capuchos da Serra de Sintra


    Mas agora, pela Invenção da Cruz, há também que falar de uma edificação religiosa. Ou melhor talvez seja a ela aludir como construção religiosa. Saindo da coroação de D. João II e das cerimónias fúnebres com essa relacionada – iniciadas de noite com centenas de homens carregando archotes pelos caminhos de Sintra saindo –, temos necessariamente de entrar num dos lugares mais especiais da Serra, e que séculos atrás era conhecido também como "Convento da Santa Cruz." Refiro-me ao Convento dos Capuchos da Serra de Sintra, e a mais um feliz aniversário da sua fundação. "Feliz", pois todos nós podemos senti-lo, é quase como uma dádiva divina para na terra sentirmos através da estranheza da sua configuração (a felicidade da curiosidade e vida com que nos preenche, mesmo que a morte ou a mortificação tenha estado sempre bem presente nos corações daqueles que ali viveram). Celebram-se hoje 457 anos desde a sua fundação no dia da Invenção da Cruz, 3 de Maio, do ano de 1560. Já dele várias vezes aqui falei, e mesmo de forma um pouco mais extensa no ano passado, quando igualmente relembrei o seu aniversário. Mas falar no Convento dos Capuchos da Serra de Sintra significa não poder deixar de falar em D. João de Castro, um dos grandes heróis, valido da honra e da curiosidade que faz com que o mundo se desenvolva, da história de Portugal. E só doze anos depois da vida ter abandonado o seu corpo é que viu, através de seu filho, o desejo de ver levantado o austero Convento no meio da Serra de Sintra. Para além do encanto que o interior do Convento transmite a quem o visite e a quem do conhecimento da religião se encontre distante, conhecer os hábitos, os seres humanos – e seus nomes – que ali viveram, e alguns dos quais ali, ao longo daqueles espaços, no interior daquele monte de rochas, também foram sepultados. O Convento dos Capuchos mantém de forma rígida, um outro tempo, um outro ambiente, para que nós ainda nos dias de hoje consigamos senti-los levemente, já num ritmo de vida completamente diferente, já num sentir completamente diferente.

O Pórtico das Fragas, de entrada para o Convento
a aguardar por si, 457 anos depois

    Hoje é um dia especial para Sintra. Celebram-se dois aniversários muito importantes. Não posso deixar de lembrar que os espaços com esses aniversários relacionados estão ao seu alcance, para que a história possa sentir.









quarta-feira, 26 de abril de 2017

Pedro Pelo Chão Esquecido


    Pedro, Senhor da Casa do Infantado que logo após ter sido criada recebeu – por ora, então – a Quinta de Queluz, encontra-se hoje pelo chão esquecido.

    Um chão gasto, visto e comentado, milhares de vezes por semana.
    Pedro era o último de vários irmãos, sendo o mais velho e promissor, Teodósio, que Teodósio I em poucos anos se esperaria tornar.
    Mas Teodósio adoeceu e morreu. E na linha da família, era Afonso que se seguiria.

Armadura de arcabuzeiro do Rei D. Pedro II,
contendo monograma PR (Petrus Rex) e a cruz da
Ordem de Cristo, cargo hereditário dos Reis de Portugal.
Provável elaboração pelo londrino Richard Holden.
(transformação e tratamento de imagem do autor
a partir de original do The Metropolitan Museum
of Art (em CCO))

    Afonso era louro e de pele clara; Pedro, de cabelo preto e tez agitanada. Um débil, o outro alto e robusto. Ambos, no século XVII se davam às lutas com marginais e homens do povo, de gravata feita com braço pelos pescoços, de armas afiadas jogos de bandos na entrada do Paço se dando. Alguns ainda hoje dizem que serviam essas lutas e jogos, para saber notícias sobre o que em Lisboa se passava no seu mundo mais inferior, quando os marginais largavam mais palavras por derrota ou por empatia.
    As duas adolescências foram passando, e Pedro, alto, de peruca negra debaixo de um refinado escuro chapéu emplumado de larga aba, longas meias pretas e esvoaçantes capas de brilhante seda preta, se destacava entre a corte. E quando o seu irmão, loiro, débil, foi coroado Rei de Portugal, Pedro, além de senhor da Casa do Infantado, além de possuir o Ducado de Beja, ganhou uma imponência ainda maior ao tornar-se Príncipe.

    Aqui a história comprime-se naquilo que algumas vezes conto de viva voz às pessoas, com os pequenos detalhes que tornam mais humanos estes nomes: o irmão de Pedro, o Rei, casou-se, a Rainha arrependeu-se, o povo foi-se arrepiando com as tomadas de decisões no Reino – às vezes, nas audições, o próprio Rei, por irritação a com quem falava começava às punhaladas –, tudo isso fazendo com que surgisse a conjura dos insatisfeitos com o Rei. Quiseram elevar Pedro, a Rei. A história é de várias maneiras contada, mas sabe-se que o Rei Afonso foi para a Ilha Terceira, como prisioneiro.

Moeda de cinco réis do reinado de D. Pedro II (colecção pessoal do autor)

    Pedro, assumindo a regência, por respeito nunca quis ser coroado nem ocupar – literal e espacialmente – os lugares que deveriam ser ocupados pelo Rei nas cerimónias. Curiosamente, a Rainha deixou o Rei e passou a Princesa, pois casou-se com Pedro.
Retábulo da Capela da Peninha na Serra de Sintra,
elaborado através de desenho de João Antunes
(ou João Nunes Tinoco). Para a construção da
própria Capela, Pedro da Conceição poderá
ter contado com o auxílio do Rei D. Pedro II.
(transformação e tratamento de imagem do autor a
partir de original da década de 1970, da Direcção
Geral do Património Arquitetónico (DGPC) (Sistema
de Informação para o Património
Arquitetónico))
    Tudo isto a muitos pode parecer gracioso por se ver um alguém tão elevado em tamanhas tramas e patranhas, mas quem olhe para a sua própria vida familiar só não estremece com algumas situações pois as mesmas não estão expostas e não ficarão para a história.

    Em 1674, Pedro, de quem se dizia ser tão forte que era capaz de só com suas mãos dominar por completo um touro na luta com um, vê-se obrigado – por uma série de razões políticas que para este dia não interessam –, a ordenar que fossem buscar o irmão, o Rei prisioneiro, à Ilha Terceira, onde se encontrava já há cinco anos. Mandou que o fossem buscar e que o levassem para um dos quartos mais altos do Palácio da Vila de Sintra. Nesse mesmo quarto, o irmão, o Rei, ali ficou ao longo de nove anos.
Armadura do Rei de Inglaterra
James II (1685-1688), feita pelo
londrino Richard Holden, possível
feitor da armadura aqui apresentada
como sendo do Rei D. Pedro II.
(transformação e tratamento de
imagem do autor a partir de
original da Royal Armouries)
    Hoje, de Pedro para Sintra, sobra-nos a “vontade” de ali ter encarcerado o irmão durante nove anos, num quarto que tendo parte do chão desgastado, a voz do povo e dos cicerones do século XIX sempre disseram que era do Rei Afonso andar de um lado para o outro. E assim parece Pedro ficar pelo chão esquecido.

    Mas Pedro, enquanto ser humano, deu-nos muito mais do que essa memória da história que a maior parte leva de forma jocosa. No estudar de sua vida começamos a perceber a dignidade que teve ao só se deixar coroar após o falecimento do irmão, do Rei D. Afonso VI. Para além da dignidade e da difícil gestão familiar e real, teve de lidar com a imagem do Reino para o exterior, em especial com o Rei Sol, Luís XIV de França. Para Sintra, temos de seu tempo o início da utilização – e adquirir – da Quinta de Queluz, que derivaria naquilo que conhecemos hoje como Palácio de Queluz. Temos também em Sintra e de seu tempo, o retábulo da Capela da Peninha, zona hoje “mais virgem” da Serra de Sintra, assim como possivelmente a ajuda para a construção da própria Capela. E temos ainda um frade do Convento dos Capuchos da Serra de Sintra que em desespero por ajudar um clérigo cujo prior da Igreja de Santa Maria impedia de ser ajudado, foi fazer uma espera a Alcântara, conseguindo apanhar Pedro; o Rei Pedro escreveu carta régia ao dito prior da Igreja de Santa Maria, levantando o impedimento, e o Frade garantiu que o clérigo passaria a encomendar Pedro a Deus todos os dias, visto que isso mesmo já o Frade há muito o fazia em suas preces diárias.

Gravura representando o Rei D. Pedro II elaborada por Pieter Schenck.
(transformação e tratamento de imagem do autor a partir de original
guardado pelo Stadtmuseum Düsseldorf)

    O Rei D. Pedro II, através do normal decorrer da vida, tão cheia de asperezas, escolhos e difíceis caminhos, acabou por – em tristeza maior – deixar uma importantíssima marca da monarquia no Palácio da Vila, através do aprisionamento de seu irmão.
    Mas como pudemos ver, Pedro não se fica pelo chão gasto esquecido. E menos ainda no dia de hoje, 26 de Abril, dia do seu aniversário, 369 anos depois de seu nascimento. Ficam os seus conselhos e reconhecimentos de seus erros de juventude, que ajudaram também a que através de seu filho surgisse a grande construção de Mafra, assim como dos momentos mais faustosos em celebrações que pudemos na história de Portugal encontrar, e que nessa primeira metade dos anos de 1700 se deram.









terça-feira, 18 de abril de 2017

"Leys Extravagantes" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 7 de Abril de 2017


Leys Extravagantes
na edição de 7 de Abril de 2017
do Jornal de Sintra

    Poderá a partir de agora aceder online ao meu último artigo no Jornal de Sintra: Leys Extravagantes.

    Será uma voz que vinda do passado, veio também de um dos cumes da Serra para influenciar a mais importante alma do Reino.

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 7 de Abril de 2017.

    Deixo ainda o convite para se associar à página de Facebook do Jornal de Sintra, um periódico histórico acabado de completar neste mês de Janeiro os seus 83 anos!









terça-feira, 11 de abril de 2017

O Bastardo de 11 de Abril de há 660 anos


Túmulo de D. João I no Mosteiro da Batalha
(fotografia de Miguel Boim)
        Às três da tarde de 11 de Abril, há 660 anos, nascia em Lisboa aquele que foi um dos maiores bastardos do Reino, e talvez o maior de Sintra. Filho ilegítimo de um Rei, foi dado ao cuidado de um cidadão de Lisboa, passando assim os seus primeiros dias na Praça dos Canos.

        O tempo faz-nos por vezes saltar as margens do rio da vida que por baixo corre violento, e aos sete anos de idade o bastardo foi armado cavaleiro e Mestre da Ordem de Aviz.

Real Branco do reinado de D. João I,
cunhado na cidade do Porto
(colecção pessoal do autor)

        E a vida tem também sofrimento, lutas, vitórias e aprendizagens com os enganos. A deste bastardo teve traições com hasteares dos estandartes do Reino de Castela no Castelo dos Mouros; teve campos de batalha com milhares de homens sob um tórrido calor, que dando os homens que nele acreditavam seus corpos às lanças e flechas, deram também a independência a um medievo Reino de Portugal; teve um homem de confiança, amizade, íntimo maior, que a Sintra enviou quando o Castelo tinha sido traído, e que ambos até numa noite em que o bastardo decidira conquistar em definitivo o Castelo na Serra altaneiro, começou uma tempestade tão intensa cujas águas das cheias davam pelos peitos dos cavalos e cujos relampejares dos raios no céu iluminavam, faziam coriscar, as pontas das lanças dos homens que o bastardo seguiam. O dilúvio foi tal que até se perderam imensos livros do Mosteiro de São Domingos, ao Rossio, mas a um Rossio em que os caminhos eram lama e aqui e ali brotavam verdes e viçosos arbustos.

Reprodução da efígie presente no túmulo
de D. João I no Mosteiro da Batalha
(fotografia de Miguel Boim)
        Mas este bastardo, não sendo de Sintra, viveu ainda mais do que todas essas desventuras medievais. Iniciou, já enquanto Rei, o costume real dos reis se anicharem nesta Serra de Sintra, e provavelmente ajudando o Palácio da Vila a assemelhar-se ao que hoje parte da sua estrutura é.

         As vozes de um passado perdido da história dizem que contribuiu também para que surgisse o Mosteiro de Penha Longa na parte Sul da Serra, e fez com que do Convento da Santíssima Trindade no colo do vale que do Monte da Pena vem, saíssem vários confessores para a família real, de entre eles, um sobrinho de Inês de Castro.

        E mais que tudo. Soube escolher - se assim se pode dizer - a mulher que o acompanharia até ao fim, e além desse indo ao ficarem em seus túmulos juntos. Dessa união entre Portugal e Inglaterra, entre D. João I e Filipa de Lancaster, nasceu a geração de nobres portugueses que, num difícil e conturbado período da história da Europa, contribuíram e serviram de exemplo para a formação e o bom senso, para a coragem e a polidez, para a educação e o amor. Apesar de brutal, é esse décimo quarto, dos séculos mais ricos que a nossa história tem devido também a essa geração, chamada por Camões como ínclita, e advinda de um bastardo.

Túmulos de D. João I e de D. Filipa de Lancaster
no Mosteiro da Batalha
(fotografia de Miguel Boim)

        Se Lisboa tem a sua estátua do bastardo, a sua estátua de D. João I, Sintra tem o seu espírito. E que esse espírito insufle o peito de muitos através da inspiração da vida do Rei de boa memória, quer nos seus 660 anos que hoje se celebram, quer na sua eternidade.