colecções disponíveis:
1. Lendas de Sintra 2. Sintra Magia e Misticismo 3. História de Sintra 4. O Mistério da Boca do Inferno 5. Escritores e Sintra
6. Sintra nas Memórias de Charles Merveilleux, Séc. XVIII 7. Contos de Sintra 8. Maçonaria em Sintra 9. Palácio da Pena 10. Subterrâneos de Sintra 11. Sintra, Imagem em Movimento


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

"O Amante Mais Rico" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 27 de Setembro de 2019




O Amante Mais Rico
na edição de 27 de Setembro de 2019
do Jornal de Sintra


    Qual o amante mais rico? Muitos pensarão apenas na riqueza em formato monetário. Mas tratar-se-á disso mesmo? E que outras riquezas - dentro do espectro do amor - poderão aqui por Sintra ter passado? Seria um interminável tema, mas neste artigo é possível tocar em algumas dessas formas de forma a mostrar o bizarro da vida:

    «Agora poderá estar a achar que não deverá ter percebido bem alguma parte. Teresa Guiccioli era casada? Mas como mantinha então uma relação com o poeta que nos legou das mais fogosas palavras sobre Sintra, em inglês escritas? Como atrás o mencionei, o segundo marido de Teresa gabava-se de Byron ter sido cicisbeo de Teresa. E o cicisbeo era um homem ou um rapaz que, com o consentimento do marido de uma senhora, era o amante dessa. É claro que as coisas eram mais complexas e elaboradas do que aquilo que se pode escrever apenas em duas linhas, mas basicamente tinha que ver com uma mudança de mentalidades e com a preocupação com as aparências (claro, sempre e sempre, as aparências...), principalmente no que dizia respeito ao acompanhar as modas.

     E as modas foram mudando assim como as mentalidades. E a meio do século XIX era já (...)
»

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 27 de Setembro de 2019.

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sábado, 7 de setembro de 2019

"Nostradamus Por Sintra Ludibriado" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 30 de Agosto de 2019



Nostradamus Por Sintra Ludibriado
na edição de 30 de Agosto de 2019
do Jornal de Sintra


    Nostradamus? Mas como pode ser? Pode, e através de contornos que, apesar de não explicados por extenso no artigo (encontram-se em outro local), já mostram o que terá acontecido há cinco séculos atrás. E tudo com o ambiente que então em Portugal se vivia:

    «...para uma arena colocada onde temos hoje a Praça do Comércio, a qual era rodeada de ameias. O elefante entrou na arena e somente passados momentos foram levantados uns largos panos que colocaram a descoberto um rinoceronte que na arena já se encontrava escondido. Assim que o rinoceronte viu o elefante "fez um jeito para o índio que o trazia preso por uma cadeia comprida, como em modo de lhe dizer que o deixasse ir para onde o inimigo estava". Baixou o focinho e o corno, "assoprando pelas ventas com tanta força que fazia levantar o pó e palhas do chão, como se fosse um redemoinho de vento." O elefante – que não era ainda totalmente adulto –, apesar de uma tentativa inicial de intimidação com urros, dirigiu-se para uma das janelas gradeadas que estavam numa parte arena, torceu dois dos varões das grades – que eram consideravelmente grossas – saindo por entre essas e começando a correr para o Rossio "onde era sua pousada, não tendo conta com coisa que achasse diante, assim homens de pé como de cavalo, que perante todos passava, fazendo tamanha revolta que, com os brados que davam uns aos outros que se guardassem, parecia que era alguma batalha  (...)»

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terça-feira, 30 de julho de 2019

"Santa Maria da Pena e um Eclipse" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 12 de Julho de 2019

Santa Maria da Pena
e um Eclipse

na edição de 12 de Julho de 2019
do Jornal de Sintra


    Eclipse no sentido literal? Sim, no sentido literal. Se aconteceu? O eclipse? Sim, aconteceu. E poderá ter acontecido de uma forma muito especial e inesperada para quem olhe para o passado. E também para quem no passado o tenha vivido com a hipótese que se coloca.

    «Cerca de três dias depois, o Príncipe João veste uma longa capa dourada que se vai arrastando sobre os degraus que o Príncipe deixa para trás no seu subir até um cadafalso; sobe depois mais outro lanço de degraus que o levam até uma cadeira na qual se senta. Aí segura numa de suas mãos um ceptro. Momentos depois a mão deixa o ceptro para se juntar à sua outra e se apoiarem ambas sobre um missal; assim é prestado o seu juramento; com os nobres diante de si, prestam-lhe estes também um outro juramento; terminados os juramentos há uma bandeira do Reino de Portugal que se solta, assim como uma voz lança no ar: Real, Real, Real, pelo muito alto e muito poderoso El Rei D. João Nosso Senhor! O Príncipe transformado em Rei desce do estrado e monta um cavalo, gritando o dito Real, Real; o agora Rei D. João II começa a afastar-se a cavalo do cadafalso onde foi coroado, percorrendo um terreiro cercado por edificações: o terreiro do antigo Paço Real de Sintra.
    Os anos foram  (...)
»

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quinta-feira, 25 de abril de 2019

Sintra e Gil Vicente - 5 artigos de Miguel Boim no Jornal de Sintra (2018-2019)


O Filósofo e o Parvo:
não só na obra de Gil Vicente, mas também na vida.

    Gil Vicente e Sintra é uma associação de dois ícones portugueses que é comummente feita. E aquilo de que se não foge de encontrar mencionado é o termo Paraíso Terreal, como se pode observar à direita num prospecto turístico de meados do século XX.

O habitual termo Paraíso Terreal
aparecendo sempre na evocação de
Sintra e Gil Vicente.
Mas que mais de Sintra podemos
em Gil Vicente encontrar?
    Mas o que realmente de Sintra encontramos na obra completa de Mestre Gil? É-nos possível perceber, vislumbrar, como Gil Vicente sentiria este lugar de Portugal que para alguns de nós representa um reduto onde a alma se tenta na verde solidão saciar?

    Ao longo de cinco artigos (cinco partes de Gil Vicente e Sintra) escritos para o Jornal de Sintra, analisei algumas das formas como o Mestre aludiu a Sintra, como essas podem ser interpretadas à luz da época, e como as suas palavras podem reflectir o sentimento que esse ser humano do século XVI - que gravou o seu nome na nossa História ao longo de 500 anos - tinha para com a Serra de Sintra.

    500 anos depois, ainda aqui se mantêm os descendentes da fauna que também captou a fantasia de Mestre Gil.

    500 anos depois, ainda que sem a mesma variedade de fauna, somos encantados pela voz da natureza e de passados os quais sentimos que com o nosso presente nos podem reconciliar.

    500 anos depois, podemos sentir Sintra em toda a obra de Mestre Gil, devendo nós hoje perceber que também naqueles tempos existia quem preferisse o sossego da Serra à agitação das festas no Paço Real, quem preferisse estar com verdadeiros lobos ao invés de estar com aqueles que frequentando as ditas festas, vestiam humana pele.



    1.ª Parte de Gil Vicente e Sintra
Terra de Cardos e Pedras

Terra de Cardos e Pedras
na edição de 28 de Setembro de 2018
do Jornal de Sintra

    «...Mas Mestre Gil era muito mais do que alguém com grandes capacidades para executar algumas poucas funções. Gil Vicente era ele próprio um gerador de fantasia. No ano de 1520 esperava-se a entrada em Lisboa do Rei D. Manuel e da Rainha. O Mestre era reconhecido pela sua fantasia a ponto tal que o Rei deu indicações para que se seguissem todas as sugestões do Mestre. Quando se viu chegado o dia da entrada do Rei e da Rainha, havia inclusivamente no Tejo uma caravela mal aparelhada e de velas esfarrapadas e pintadas de más pinturas de que saíam grandes fumaças e fogos artificiais (...) e muitos trovões; e a caravela sem governar ora através ora a popa (...) e os diabos fazendo coisas de muito prazer com que houve a maior festa do recebimento... No dia seguinte, o Rei e a Rainha tinham muitas plataformas ou palcos por entre os quais haviam de passar. Num deles era visível um homem deitado, adormecido, do peito do qual saía uma grande árvore dourada (a Árvore de Jessé, brotando do peito de Adão) tendo essa árvore representações de todos os reis e de todos os profetas, acima desses estando Deus com os seus anjos, estes últimos tocando seus instrumentos musicais. Ao lado desse palco, um outro muito coberto de ramos e arvoredo, com muitas fontes de água, que representava a Ilha da Madeira; e no meio uns ricos aposentos em que viviam quatro fadas e em uma rica câmara estava um berço dourado que embalavam quatro sereias cantando suavemente; e as fadas falaram em lugar da Ilha, oferecendo-se para criarem o filho ou filha primeiro que [a Rainha] parisse, e [que] seria por elas fadado (...)» (CONTINUAR A LER)



    2.ª Parte de Gil Vicente e Sintra
O Cavaleiro Portugal e a Serra de Sintra

O Cavaleiro Portugal e a
Serra de Sintra

na edição de 09 de Novembro de 2018
do Jornal de Sintra


    «...E é assim que começa a Farsa da Lusitânia, dizendo-nos que uma ninfa, há três mil anos atrás, tinha por morada uns rochedos ao pé da Serra de Sintra, serra que então se chamava Solércia (“Solércia” queria dizer tanto agudeza de espírito e esperteza, como algo capaz de desencantar mil ardis ou de muita manha ter). O Sol, que passava sempre na distância e via aquela ninfa de nome Lisibea entre as rochas próximas da Serra de Sintra, e a visse nua sem nenhuma cobertura, tão perfeita em suas corporais proporções, como formosa em todolos lugares de sua gentileza, fez, através do amor entre ambos, que Lisibea desse à luz uma filha de nome Lusitânia.  (...)» (CONTINUAR A LER)



    3.ª Parte de Gil Vicente e Sintra
Coração de Amante e a Entrada no Inverno

Coração de Amante e a Entrada
no Inverno

na edição de 07 de Dezembro de 2018
do Jornal de Sintra


    «...Mas antes de lá se chegar, há que percorrer o caminho que Mestre Gil muitas vezes terá feito e onde muito observaria. Nesse caminho, da Cidade de Lisboa à Serra de Sintra, Gil Vicente via – já naquilo que é hoje considerado como Sintra – traços dos tempos modernos, dias em que a alegria e a tradição, naquele ano de 1529, já há muito se tinham perdido. Batia a saudade dos tempos passados – tal como a nós hoje, dos nossos passados tempos de vida. É aqui sim, que Mestre Gil fala do que Portugal até há pouco (início do século XVI) fora, e da alegria que era então sentida também no concelho de Sintra; assim que entra em palco, assim que começa o Triunfo do Inverno, o Mestre encontra-se só, perante a audiência, e diz: Em Portugal vi eu já / em cada casa um pandeiro, / e gaita em cada palheiro; / e de / vinte anos a cá / não há aí gaita nem gaiteiro. / A cada porta um terreiro, / cada aldeia dez folias, / cada casa atabaqueiro: / e agora Jeremias / é nosso tamborileiro. / Só em Barcarena havia / tambor em cada moinho, / e no mais triste ratinho / s’enxergava uma alegria / que agora não tem caminho. (...)» (CONTINUAR A LER)



    4.ª Parte de Gil Vicente e Sintra
The Green Man, Sintra e o Mestre Gil

The Green Man, Sintra e o Mestre Gil
na edição de 11 de Janeiro de 2019
do Jornal de Sintra


    «...Como tais preocupações apresentavam apenas o brilho que ofusca os escuros recantos onde de forma recôndita a falta de dignidade tem por hábito andar, o Ferreiro e a Forneira decidem ser hora de partir. E é na sequência da sua partida que surge o mais conhecido excerto de Mestre Gil Vicente relativo à Serra de Sintra, e dito pela boca da própria Serra de Sintra: Um filho de um Rei passado / dos gentios Portugueses / tenho eu muito guardado, / há mais de mil anos e três meses / por um mágico encantado. / E este tem um jardim / do paraíso terreal, / que Salomão mandou aqui / a um Rei de Portugal; / e tem-no seu filho ali. / Este será o presente, / e eu irei por ele asinha, / porque é para a Rainha / justo e conveniente. / O qual Príncipe virá / em pessoa aqui com ele, / que sabe as virtudes dele, / e como e quem o trouxe cá, / e quanto se monta nele. / E virá acompanhado / dessas cachopas Sintrans, / e de mancebos do gado, / Louçãos e elas louçãs, / com seu cantar costumado.

    O Verão diz então que o jardim apresentado – para que mais fastio não cause pois ainda nem acabado está – conclui o seu triunfo, aquilo que na realidade foi o triunfo do Verão.

    E chegamos agora ao desvelar de como foi ludibriado quem até aqui chegou. Entram quatro mancebos e quatro moças, todos muito bem ataviados em folia, dizendo esta cantiga: Quem diz que não é este / San João o Verde? Exactamente, São João, o Verde. Aos olhos de hoje não conseguimos compreender muitas das coisas do passado, ou tomamo-las como erradas. Mas se com os devidos e necessários filtros para se olhar para esse mesmo passado, somos capazes de entrar de forma mais profunda nas vidas que os nossos antepassados viveram. Na 3.ª parte destes artigos mencionei que a Rainha dera à luz em Abril de 1529. Em Abril, como é óbvio, não é Verão. E é o próprio Verão, na peça, a dizer que foi no seu tempo que a Rainha foi alumbrada, iluminada, que deu à luz. Além do mais, com o enfraquecimento do Inverno (após os dois triunfos desse), quem apareceu de imediato, trazendo os cânticos da natureza consigo, foi o Verão. E se – por exemplo – olharmos para outra peça do Mestre, aquela que tem o nome de Auto dos Quatro Tempos, vemos que esses “tempos”, as estações do ano, estão divididas entre Verão, Estio e Outono e Inverno. A forma como foi ludibriado foi ao ter interpretado este Verão de quem tenho falado ao longo de todo o artigo, como o nosso Verão; na realidade trata-se daquilo que interpretamos hoje como Primavera, e que então era tida com o termo Verão. No fundo, este Verão de que falei ao longo de todo o artigo representa o renascimento no ciclo da natureza, a sua renovação. (...)» (CONTINUAR A LER)



    5.ª Parte de Gil Vicente e Sintra
O Fim de Mestre Gil e Suas Sintras

O Fim de Mestre Gil e suas Sintras
na edição de 08 de Fevereiro de 2019
do Jornal de Sintra


    «...Estávamos então em 1529. Em 1502 tinha sido a primeira representação de uma obra do Mestre, actuando ele próprio praticamente só perante a Rainha, o Rei, e o então recém-nascido Príncipe. Em 1529 esse recém-nascido já se tinha tornado no Rei D. João III. E o que daqui, de 1529 para a frente surgiu, foi um lento apagar do Mestre, até o seu nome ter silenciosamente desaparecido. O Auto da Lusitânia (do qual falei na 2.ª parte desta sequência de artigos) foi concebido para celebrar o nascimento do Príncipe D. Manuel (a quem foi também posteriormente dedicado o retábulo da Pena (o retábulo ainda poderá ser visto nos dias de hoje no Palácio da Pena)). Contudo existiu uma outra obra de Gil Vicente que foi utilizada nas festas de celebração do nascimento do Príncipe D. Manuel, mas não cá em Portugal e sim em Bruxelas, na embaixada de Portugal em Bruxelas, no final do ano de 1531. À partida não terá sido a primeira vez que foi apresentada, e tinha o título de Jubileu d’Amores. Entre a assistência em Bruxelas encontrava-se um cardeal italiano, de nome Girolamo Aleandro. Depois da apresentação da obra o cardeal enviou uma carta ao secretário do Papa, queixando-se da peça. Entre os múltiplos traços heréticos, referia que (...)» (CONTINUAR A LER)



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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O Amor e a História


o rebrilhar do coração nos caminhos de Sintra


    Nunca me esqueci. Após quase um ano em que o coração se contraía e expandia de forma acelerada de cada vez que o meu olhar se cruzava com o dela, tivemos então o toque um do outro, tivemos então um momento que para mim se tornou nuclear por para sempre me ter moldado.

    Tudo se deu no final desse ano, quando os nossos caminhos se juntaram naturalmente e nos fizeram subir a escadaria lado a lado. A minha mão procurou a dela ao mesmo tempo que a dela procurou a minha. Assim subimos aqueles degraus de mão dada. No fim, entreolhámo-nos e seguimos cada um novamente o seu caminho. Nunca mais a voltei a ver. Tínhamos cerca de onze anos e o consumar de um ano inteiro de uma jovem e ingénua paixão exacerbada pelo olhar, fez com que o tomasse para sempre como a coisa mais inocente e bela que vivi. 

    Pela impossibilidade? Talvez. Certo é que eram aqueles, tempos em que a inocência era mantida e ainda não tivera até então sido substituída pelos prazeres momentâneos, os quais assim que connosco vão chocando ao longo da vida, nos fazem pensar – erradamente – que nos conseguem preencher, substituir o vazio que por qualquer outra coisa – que não a verdade e a fragilidade da inocência do mais puro sentir – não consegue ser substituído.

    O que acabei de escrever é uma memória da minha vida, a qual se prolongou até à idade que presentemente tenho e certamente se prolongará até ao fim, pelo belo de uma pureza que se foi perdendo, pela beleza do puro que até ao fim da vida inevitavelmente se vai perdendo.

    No fundo, faz parte da minha história. E tal como para mim estas partes da minha história são de fulcral importância para compreender quem sou, também a História necessita de ser olhada com os olhos que vasculhem o mais íntimo e marcante dos seres humanos que se encontram por detrás dos nomes naquela gravados. Só assim se conseguirá compreender ainda melhor a História e, até mais do que isso, conseguir com que através do sentir de quem se encontra distante da própria cultura, possa sentir o chamar do passado, num canto que tendo muito de amargo, se torna doce de ouvir e sentir.

    Uma vez, numa visita, ouvi alguém comentar com duas senhoras que de um passeio com a temática de amor na História lhe falavam (O Reino dos Amores de Sintra) que não acreditava nessas coisas e nem sequer suportava a história de “Pedro e Inês” (confesso não saber porque motivo referiu esse assunto). Certamente que não será o único e é certo que na parte da história que mencionou existem inúmeras incertezas, mas pelo menos tem a base que Romeu e Julieta não tem, que é precisamente a realidade. Não acredito que a pessoa em causa não se interessasse ou não acreditasse nestas “coisas”. Terá sido o alabastro do Retábulo da Pena percorrido por um cinzel que marcando-o, a mão que o guiava nada nunca sentiu, como coração que o permitiu fazer fosse um coração de vida vazio? E não sentimos já nós o sal do saudoso mar que por vezes o coração espreme através das gotas que a face percorrem num aprisionador ardor? Quantos sonhos não ajudou essa aprisionadora dor a que no renascer surgissem?


O Beijo - Francesco Hayez, ano de 1859


    Tal como por vezes os nossos sonhos se concretizam – e passam a fazer parte da realidade por nós vivida – há partes da História que se concretizaram de forma tão bem delineada como o vibrar do amor que era sentido pelos seus intervenientes. Um desses casos é o de D. Pedro V e D. Estefânia. Apesar de aquilo que mais é transmitido sobre D. Pedro V ser o facto de ter tido um reinado curto, o amor entre ambos levou a que hoje tivéssemos uma parte de Sintra com o nome Estefânia. Mas também isto é apenas um facto e o que aqui interessa são os contornos do dia 14. E sim, mais uma vez o 14 de Fevereiro, porque já que não se exalta o amor todos os dias, que esse seja exaltado em datas que se possam considerar especiais pelos sentires.

    A base desse – de há poucos séculos para cá – é uma invocação, tal como as igrejas, capelas, ermidas têm a sua, as quais nos fazem perceber que tradições e hábitos eram mantidos nas localidades onde essas existem precisamente pela sua evocação. Compreender os dias de hoje com base nesses poucos séculos (em anos anteriores já escrevi sobre a origem num passado mais distante) será como há menos de um mês atrás termos percebido que com o corpo docemente perfurado por flechas, São Sebastião nos permite conhecer o que durante séculos foi feito na Vila de Sintra até uma das entradas dessa.

    E mesmo o exaltar da data não representa a eternidade. Antes, isso sim, a ausência de linearidade da vida, em que sonhamos consoante aquilo que não temos. E aquilo de que estamos sedentos. Embora acredite que no amor a sede constante pode marcar a perene eternidade a que sujeitos estamos – não a desejada, a que vem dentro de nós, mas aquela que nos gerou.

como um coração que incendeia as nuvens no céu
imagem: https://www.instagram.com/caminheiro.de.sintra/


    O amor e a paixão, os sentires e as emoções, estão na História por valorizar, sem prejuízo de fazer cair opiniões para lados que devem com a neutralidade ser evitados. Mas tal como o intenso desejo físico por alguém que se ame, também assim na forma como a história é transmitida existe essa carência quase física – ou mesmo física, por nos fazer sentir coisas com a nossa mente, com o nosso corpo.

    A História felizmente pode proporcioná-lo. A História de Sintra se calhar até com mais facilidade devido ao encanto que tem e que nos faz sonhar acordados em cada momento da nossa vida, em cada recanto iluminado que capaz é de incendiar ainda mais o nosso coração.

    Depois existem os ultra-sonhadores, marginais do normal sentir. Não encontra nesses a sensibilidade assim, concorrência no desequilibrado sentir do amor, na exagerada falésia onde a dor caindo, nunca fatalmente acaba, nunca fatalmente se despenha, ficando sempre mais por consumir, ficando mais por sonhar. E mesmo assim sendo e assim continuando a ser, nesses as lágrimas parecem por vezes parte de um corpo cuja alma que sente a dor que é anunciada, já daquele não faz parte.




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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

"O Cavaleiro Portugal e a Serra de Sintra (Gil Vicente - 2.ª parte)" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 09 de Novembro de 2018

O Cavaleiro Portugal e a
Serra de Sintra

na edição de 09 de Novembro de 2018
do Jornal de Sintra


    O Cavaleiro Portugal? Sim, o Cavaleiro Portugal. Continuo com a forma como Gil Vicente expressava o seu sentir de Sintra, filtrado esse pela fantasia do Mestra. E chamava-se então, no tempo do Cavaleiro Portugal, a Serra de Sintra dessa maneira?

    «E é assim que começa a Farsa da Lusitânia, dizendo-nos que uma ninfa, há três mil anos atrás, tinha por morada uns rochedos ao pé da Serra de Sintra, serra que então se chamava Solércia (“Solércia” queria dizer tanto agudeza de espírito e esperteza, como algo capaz de desencantar mil ardis ou de muita manha ter). O Sol, que passava sempre na distância e via aquela ninfa de nome Lisibea entre as rochas próximas da Serra de Sintra, "e a visse nua sem nenhuma cobertura, tão perfeita em suas corporais proporções, como formosa em todolos lugares de sua gentileza", fez, através do amor entre ambos, que Lisibea desse à luz uma filha de nome "Lusitânia".  (...)»

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 09 de Novembro de 2018.

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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Miguel Boim como Senhor Sommer - ("A História do Senhor Sommer", de Patrick Süskind) - Literatura Aqui, RTP 2





      Na passada Terça-feira, 06 de Novembro, dei corpo ao Senhor Sommer no programa Literatura Aqui, da RTP 2.

      Aqui ficam alguns excertos de A História do Senhor Sommer, de Patrick Süskind (autor de O Perfume), lidos por Filipa Leal, assim como alguns recantos da Serra de Sintra.




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terça-feira, 16 de outubro de 2018

"Terra de Cardos e de Pedras (Gil Vicente - 1.ª parte)" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 28 de Setembro de 2018

Terra de Cardos e de Pedras
na edição de 28 de Setembro de 2018
do Jornal de Sintra


    A muitos estranho poderá parecer um título que depreciativo parece. Mas, dando o benefício da dúvida aos artistas, logo perceberá do que se fala. E quem fala. E do que se falará nas outras partes desta sequência sobre Sintra e Gil Vicente. Mas o melhor é ficar com um trecho das capacidades do grande astro do teatro português:

    «Mas Mestre Gil era muito mais do que alguém com grandes capacidades para executar algumas poucas funções. Gil Vicente era ele próprio um gerador de fantasia. No ano de 1520 esperava-se a entrada em Lisboa do Rei D. Manuel e da Rainha. O Mestre era reconhecido pela sua fantasia a ponto tal que o Rei deu indicações para que se seguissem todas as sugestões do Mestre. Quando se viu chegado o dia da entrada do Rei e da Rainha, havia inclusivamente no Tejo uma caravela mal aparelhada e de velas esfarrapadas e pintadas de más pinturas de que saíam grandes fumaças e fogos artificiais (...) e muitos trovões; e a caravela sem governar ora através ora a popa (...) e os diabos fazendo coisas de muito prazer com que houve a maior festa do recebimento... No dia seguinte, o Rei e a Rainha tinham muitas plataformas ou palcos por entre os quais haviam de passar. Num deles era visível um homem deitado, adormecido, do peito do qual saía uma grande árvore dourada (a Árvore de Jessé, brotando do peito de Adão) tendo essa árvore representações de todos os reis e de todos os profetas, acima desses estando Deus com os seus anjos, estes últimos tocando seus instrumentos musicais. Ao lado desse palco, um outro muito coberto de ramos e arvoredo, com muitas fontes de água, que representava a Ilha da Madeira; e no meio uns ricos aposentos em que viviam quatro fadas e em uma rica câmara estava um berço dourado que embalavam quatro sereias cantando suavemente; e as fadas falaram em lugar da Ilha, oferecendo-se para criarem o filho ou filha primeiro que [a Rainha] parisse, e [que] seria por elas fadado...»

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 28 de Setembro de 2018.

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    E não se esqueça que também tem disponíveis online os meus anteriores artigos do Jornal de Sintra - para além daqueles de publicação exclusiva no blog.





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