colecções disponíveis:
1. Lendas de Sintra 2. Sintra Magia e Misticismo 3. História de Sintra 4. O Mistério da Boca do Inferno 5. Escritores e Sintra
6. Sintra nas Memórias de Charles Merveilleux, Séc. XVIII 7. Contos de Sintra 8. Maçonaria em Sintra 9. Palácio da Pena 10. Subterrâneos de Sintra 11. Sintra, Imagem em Movimento


terça-feira, 23 de maio de 2017

"Lendas de Sintra - Histórias e Lendas do Monte da Lua" - palestra na Feira do Livro de Lisboa (2017) por Miguel Boim

 
O livro Sintra Lendária - Histórias e Lendas do Monte da Lua
estará à venda nos stands C22 e C24 da editora Zéfiro na
Feira do Livro de Lisboa 2017, no Parque Eduardo VII
(fotografia de capa do fotógrafo Taylor Moore)

    No dia 18 de Junho (um Domingo) às 19 horas darei uma palestra na Feira do Livro de Lisboa 2017, intitulada "Lendas de Sintra - Histórias e Lendas do Monte da Lua". Será no último dia da Feira do Livro, o que fará que mesmo quem costuma deixar tudo para último - como a ida à FLL - ainda a poderá aproveitar! E quem vá à Feira do Livro logo nos seus primeiros dias, ficará com uma desculpa para lá voltar no último dia.

    A palestra tomará lugar no auditório da Praça Laranja, enquanto que o livro Sintra Lendária - Histórias e Lendas do Monte da Lua estará à venda nos stands C22 e C24 da editora Zéfiro na Feira do Livro.

   "Os contornos da Serra são quase como dentes de uma chave que destranca a fechadura da realidade que nos encerra. Usando-a, descerramos a realidade e entramos então num Mundo de fantasia que da superfície dos nossos sonhos lentamente como um véu se eleva, que sendo enfunado ganha formas, ganha corpos, ganha rostos. Serra e Vila são então o espaço e o tempo em que as lendas se cruzam com a realidade aumentando a nossa curiosidade pelos mistérios da vida." in Sintra Lendária - Histórias e Lendas do Monte da Lua, de Miguel Boim (Editora Zéfiro, stands C22 e C24 da Feira do Livro de Lisboa)

    E afinal, como é que foram moldados estes véus de sonhos na história de Sintra? Onde se encontra a lenda e o mito, e onde se encontra a realidade anotada pelos seres humanos do passado? As respostas encontram-se na história, e é nessa que nos deparamos com as realidades menos esperadas que nos despertam para o cariz lendário das histórias vividas em Serra e Vila.

Miguel Boim, O Caminheiro de Sintra
Créditos fotográficos: C.N.E.
Núcleo Serra da Lua

☙☘❧ INFORMAÇÕES GERAIS


► Palestra por Miguel Boim (O Caminheiro de Sintra) na Feira do Livro de Lisboa
autor do livro Sintra Lendária - Histórias e Lendas do Monte da Lua, editora Zéfiro (stands C22 e C24 da Feira do Livro de Lisboa)

► Domingo, 18 de Junho de 2017
às 19h00

► Local da palestra: auditório da Praça Laranja
da Feira do Livro de Lisboa

► Acesso livre a todas as pessoas que se encontrem na Feira do Livro de Lisboa (Parque Eduardo VII)

◎ Página de Facebook O Caminheiro de Sintra (Miguel Boim): https://www.facebook.com/Caminheiro.de.Sintra/

◎ Blog O Caminheiro de Sintra (Miguel Boim): http://palacio-de-sintra.blogspot.pt/









"A Pedra Amarela e Uma Raposa de Fernão Lopes" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 19 de Maio de 2017

A Pedra Amarela e Uma Raposa de Fernão Lopes
na edição de 19 de Maio de 2017
do Jornal de Sintra


    Já poderá ler online o meu último artigo no Jornal de Sintra, que através das mutações das lendas e da impossibilidade das fábulas, nos leva do século XIX até à Antiguidade Clássica. Trata de uma memória minha de há mais de vinte anos atrás, incidindo sobre um dos pontos mais conhecidos da Serra de Sintra: A Pedra Amarela e Uma Raposa de Fernão Lopes.

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 19 de Maio de 2017.

    Deixo ainda o convite para se associar à página de Facebook do Jornal de Sintra, um periódico histórico acabado de completar neste mês de Janeiro os seus 83 anos!

    E não se esqueça que também tem disponíveis online os meus anteriores artigos do Jornal de Sintra - para além daqueles de publicação exclusiva no blog.










quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sintra e a Invenção da Cruz: 457 anos sobre a fundação do Convento dos Capuchos, 562 anos sobre o nascimento do Príncipe Perfeito



    Este é um dia especial para Sintra, e especialíssimo para alguns espaços específicos de Serra e Vila.

    E porquê Invenção da Cruz? Porque hoje é dia 3 de Maio, e em Portugal, durante a maior parte do correr do tempo no reino, a Invenção da Cruz foi celebrada a 3 de Maio. Existiram outros dias do ano para o celebrar (cá, tendo também sido a 14 de Setembro) mas para o que hoje interessa e tenho para – de especial – lhe contar, foi no 3 de Maio. A origem do termo – Invenção da Cruz – poderá conhecê-la no artigo que publiquei no ano de 2016, também a 3 de Maio (disponível aqui).

O Convento dos Capuchos da Serra de Sintra, por William Burnett,
década de 1830 (transformação e tratamento de imagem por parte do autor
a partir de original da Biblioteca Nacional de Portugal)

    Temos um Rei, por exemplo, que em termos de impacto pela vivência, pela sua vivência aqui em momentos críticos, pode dizer-se que tem uma ligação especial com Sintra. Não nasceu aqui, mas nasceu num dia da Invenção da Cruz, num 3 de Maio dos anos de 1400. O povo, de saia e barrete, e os eruditos de chapeirão e sapato em ponta, sempre tentaram inventar lendas que o ligassem a Sintra, mas curiosamente essas lendas parece que ganharam vida e no seu recontar colocaram outras personagens da história na vez do nome de D. João II, ou o inverso.

Iluminura do Livro dos Copos, mandado elaborar por D. João II,
podendo ler-se neste fragmento
Saibam todos que na era de mil quatrocentos e trinta e dois anos...
(transformação e tratamento de imagem por parte do autor
a partir de original da Torre do Tombo)


    Mas isso também não é para hoje e poderá muito bem ser para breve. Mas mais do que nas lendas por humanas mentes produzidas, nós temos a realidade lendária que foi vivida, e lendária por tão intensa ter sido em seu viver e sentir. Sabemo-lo mesmo que não saibamos exactamente do que se fale: a morte, o ódio, o amor, o perigo, tudo é lendário quando a extremos levado. O início do reinado de D. João II passa por um tropeção quando é coroado em Santarém, mas o pai, D. Afonso V decide voltar e o novo Rei passa a velho Príncipe.


Iluminura do Livro dos Copos, mandado elaborar por D. João II,
podendo ler-se neste fragmento
O nome Deos Seja Sempre Louvado

(transformação e tratamento de imagem por parte do autor
a partir de original da Torre do Tombo)

    Da segunda e definitiva vez que D. João, Príncipe de Portugal, é coroado Rei, inicia de imediato uma série de medidas que passam por adagas, e cepo e sator (carrasco). Tudo, em nome da justiça e do povo. Aliás, a alma da divisa que a Guarda Nacional Republicana (G.N.R.) utiliza é a mesma que o Rei teve para si: Pela Lei e Pela Grei. Essa reviravolta na forma como a justiça é aplicada, acaba por estar relacionada com Sintra, pois foi em Sintra, no Paço Real (vulgo, Palácio da Vila), numa parte específica que mesmo nos dias de hoje feia sendo, é para mim das mais belas, pela coroação do Príncipe Perfeito nesse lugar. Sim, o ser humano que nasceu no dia da Invenção da Cruz do ano de 1455 e que ficou marcadamente conhecido na nossa história, foi coroado Rei em Sintra. O Rei que se preocupava com o que os filhos dos pais diziam, como no caso de João Álvares, conhecido como o Gato. De pobre ascendência conseguiu destacar-se no paço; mas certa vez seu pai passou por si, fez-lhe a devida vénia, e Gato desprezou-o; D. João II ao tomar conhecimento da situação disse para o Gato não lhe voltar a aparecer, pois o homem que desprezava seu pay e lhe nam fazia bem, podendoo fazer, nam era pera se fiarem delle. Entre milhares de coisas mundanas – mas intensas para quem as vivia como cada um de nós hoje vive sua vida – foi também o Rei que fez cumprir justiça quando os camponeses se queixaram do roubo impune que os homens dos grandes senhores faziam nas suas amoreiras: roubando-lhes os bichos-da-seda, e assim quebrando o negócio da extracção do fio que fazia a nobreza sentir o suave deslizar do tecido em seu corpo. E, voltando a Sintra, o Rei que se relaciona também com o cume onde hoje em dia se situa o Palácio da Pena, mesmo antes de ser o Mosteiro de Nossa Senhora da Pena que ali antes ocupava aquele cume da Serra.

O altar da Igreja (gruta) do Convento dos
Capuchos da Serra de Sintra


    Mas agora, pela Invenção da Cruz, há também que falar de uma edificação religiosa. Ou melhor talvez seja a ela aludir como construção religiosa. Saindo da coroação de D. João II e das cerimónias fúnebres com essa relacionada – iniciadas de noite com centenas de homens carregando archotes pelos caminhos de Sintra saindo –, temos necessariamente de entrar num dos lugares mais especiais da Serra, e que séculos atrás era conhecido também como "Convento da Santa Cruz." Refiro-me ao Convento dos Capuchos da Serra de Sintra, e a mais um feliz aniversário da sua fundação. "Feliz", pois todos nós podemos senti-lo, é quase como uma dádiva divina para na terra sentirmos através da estranheza da sua configuração (a felicidade da curiosidade e vida com que nos preenche, mesmo que a morte ou a mortificação tenha estado sempre bem presente nos corações daqueles que ali viveram). Celebram-se hoje 457 anos desde a sua fundação no dia da Invenção da Cruz, 3 de Maio, do ano de 1560. Já dele várias vezes aqui falei, e mesmo de forma um pouco mais extensa no ano passado, quando igualmente relembrei o seu aniversário. Mas falar no Convento dos Capuchos da Serra de Sintra significa não poder deixar de falar em D. João de Castro, um dos grandes heróis, valido da honra e da curiosidade que faz com que o mundo se desenvolva, da história de Portugal. E só doze anos depois da vida ter abandonado o seu corpo é que viu, através de seu filho, o desejo de ver levantado o austero Convento no meio da Serra de Sintra. Para além do encanto que o interior do Convento transmite a quem o visite e a quem do conhecimento da religião se encontre distante, conhecer os hábitos, os seres humanos – e seus nomes – que ali viveram, e alguns dos quais ali, ao longo daqueles espaços, no interior daquele monte de rochas, também foram sepultados. O Convento dos Capuchos mantém de forma rígida, um outro tempo, um outro ambiente, para que nós ainda nos dias de hoje consigamos senti-los levemente, já num ritmo de vida completamente diferente, já num sentir completamente diferente.

O Pórtico das Fragas, de entrada para o Convento
a aguardar por si, 457 anos depois

    Hoje é um dia especial para Sintra. Celebram-se dois aniversários muito importantes. Não posso deixar de lembrar que os espaços com esses aniversários relacionados estão ao seu alcance, para que a história possa sentir.









quarta-feira, 26 de abril de 2017

Pedro Pelo Chão Esquecido


    Pedro, Senhor da Casa do Infantado que logo após ter sido criada recebeu – por ora, então – a Quinta de Queluz, encontra-se hoje pelo chão esquecido.

    Um chão gasto, visto e comentado, milhares de vezes por semana.
    Pedro era o último de vários irmãos, sendo o mais velho e promissor, Teodósio, que Teodósio I em poucos anos se esperaria tornar.
    Mas Teodósio adoeceu e morreu. E na linha da família, era Afonso que se seguiria.

Armadura de arcabuzeiro do Rei D. Pedro II,
contendo monograma PR (Petrus Rex) e a cruz da
Ordem de Cristo, cargo hereditário dos Reis de Portugal.
Provável elaboração pelo londrino Richard Holden.
(transformação e tratamento de imagem do autor
a partir de original do The Metropolitan Museum
of Art (em CCO))

    Afonso era louro e de pele clara; Pedro, de cabelo preto e tez agitanada. Um débil, o outro alto e robusto. Ambos, no século XVII se davam às lutas com marginais e homens do povo, de gravata feita com braço pelos pescoços, de armas afiadas jogos de bandos na entrada do Paço se dando. Alguns ainda hoje dizem que serviam essas lutas e jogos, para saber notícias sobre o que em Lisboa se passava no seu mundo mais inferior, quando os marginais largavam mais palavras por derrota ou por empatia.
    As duas adolescências foram passando, e Pedro, alto, de peruca negra debaixo de um refinado escuro chapéu emplumado de larga aba, longas meias pretas e esvoaçantes capas de brilhante seda preta, se destacava entre a corte. E quando o seu irmão, loiro, débil, foi coroado Rei de Portugal, Pedro, além de senhor da Casa do Infantado, além de possuir o Ducado de Beja, ganhou uma imponência ainda maior ao tornar-se Príncipe.

    Aqui a história comprime-se naquilo que algumas vezes conto de viva voz às pessoas, com os pequenos detalhes que tornam mais humanos estes nomes: o irmão de Pedro, o Rei, casou-se, a Rainha arrependeu-se, o povo foi-se arrepiando com as tomadas de decisões no Reino – às vezes, nas audições, o próprio Rei, por irritação a com quem falava começava às punhaladas –, tudo isso fazendo com que surgisse a conjura dos insatisfeitos com o Rei. Quiseram elevar Pedro, a Rei. A história é de várias maneiras contada, mas sabe-se que o Rei Afonso foi para a Ilha Terceira, como prisioneiro.

Moeda de cinco réis do reinado de D. Pedro II (colecção pessoal do autor)

    Pedro, assumindo a regência, por respeito nunca quis ser coroado nem ocupar – literal e espacialmente – os lugares que deveriam ser ocupados pelo Rei nas cerimónias. Curiosamente, a Rainha deixou o Rei e passou a Princesa, pois casou-se com Pedro.
Retábulo da Capela da Peninha na Serra de Sintra,
elaborado através de desenho de João Antunes
(ou João Nunes Tinoco). Para a construção da
própria Capela, Pedro da Conceição poderá
ter contado com o auxílio do Rei D. Pedro II.
(transformação e tratamento de imagem do autor a
partir de original da década de 1970, da Direcção
Geral do Património Arquitetónico (DGPC) (Sistema
de Informação para o Património
Arquitetónico))
    Tudo isto a muitos pode parecer gracioso por se ver um alguém tão elevado em tamanhas tramas e patranhas, mas quem olhe para a sua própria vida familiar só não estremece com algumas situações pois as mesmas não estão expostas e não ficarão para a história.

    Em 1674, Pedro, de quem se dizia ser tão forte que era capaz de só com suas mãos dominar por completo um touro na luta com um, vê-se obrigado – por uma série de razões políticas que para este dia não interessam –, a ordenar que fossem buscar o irmão, o Rei prisioneiro, à Ilha Terceira, onde se encontrava já há cinco anos. Mandou que o fossem buscar e que o levassem para um dos quartos mais altos do Palácio da Vila de Sintra. Nesse mesmo quarto, o irmão, o Rei, ali ficou ao longo de nove anos.
Armadura do Rei de Inglaterra
James II (1685-1688), feita pelo
londrino Richard Holden, possível
feitor da armadura aqui apresentada
como sendo do Rei D. Pedro II.
(transformação e tratamento de
imagem do autor a partir de
original da Royal Armouries)
    Hoje, de Pedro para Sintra, sobra-nos a “vontade” de ali ter encarcerado o irmão durante nove anos, num quarto que tendo parte do chão desgastado, a voz do povo e dos cicerones do século XIX sempre disseram que era do Rei Afonso andar de um lado para o outro. E assim parece Pedro ficar pelo chão esquecido.

    Mas Pedro, enquanto ser humano, deu-nos muito mais do que essa memória da história que a maior parte leva de forma jocosa. No estudar de sua vida começamos a perceber a dignidade que teve ao só se deixar coroar após o falecimento do irmão, do Rei D. Afonso VI. Para além da dignidade e da difícil gestão familiar e real, teve de lidar com a imagem do Reino para o exterior, em especial com o Rei Sol, Luís XIV de França. Para Sintra, temos de seu tempo o início da utilização – e adquirir – da Quinta de Queluz, que derivaria naquilo que conhecemos hoje como Palácio de Queluz. Temos também em Sintra e de seu tempo, o retábulo da Capela da Peninha, zona hoje “mais virgem” da Serra de Sintra, assim como possivelmente a ajuda para a construção da própria Capela. E temos ainda um frade do Convento dos Capuchos da Serra de Sintra que em desespero por ajudar um clérigo cujo prior da Igreja de Santa Maria impedia de ser ajudado, foi fazer uma espera a Alcântara, conseguindo apanhar Pedro; o Rei Pedro escreveu carta régia ao dito prior da Igreja de Santa Maria, levantando o impedimento, e o Frade garantiu que o clérigo passaria a encomendar Pedro a Deus todos os dias, visto que isso mesmo já o Frade há muito o fazia em suas preces diárias.

Gravura representando o Rei D. Pedro II elaborada por Pieter Schenck.
(transformação e tratamento de imagem do autor a partir de original
guardado pelo Stadtmuseum Düsseldorf)

    O Rei D. Pedro II, através do normal decorrer da vida, tão cheia de asperezas, escolhos e difíceis caminhos, acabou por – em tristeza maior – deixar uma importantíssima marca da monarquia no Palácio da Vila, através do aprisionamento de seu irmão.
    Mas como pudemos ver, Pedro não se fica pelo chão gasto esquecido. E menos ainda no dia de hoje, 26 de Abril, dia do seu aniversário, 369 anos depois de seu nascimento. Ficam os seus conselhos e reconhecimentos de seus erros de juventude, que ajudaram também a que através de seu filho surgisse a grande construção de Mafra, assim como dos momentos mais faustosos em celebrações que pudemos na história de Portugal encontrar, e que nessa primeira metade dos anos de 1700 se deram.









terça-feira, 18 de abril de 2017

"Leys Extravagantes" - Miguel Boim, Jornal de Sintra, 7 de Abril de 2017


Leys Extravagantes
na edição de 7 de Abril de 2017
do Jornal de Sintra

    Poderá a partir de agora aceder online ao meu último artigo no Jornal de Sintra: Leys Extravagantes.

    Será uma voz que vinda do passado, veio também de um dos cumes da Serra para influenciar a mais importante alma do Reino.

    Abrindo a imagem (ou realizando download da mesma para o seu computador ou dispositivo móvel, e depois ampliando-a), poderá ler este artigo da edição do Jornal de Sintra de 7 de Abril de 2017.

    Deixo ainda o convite para se associar à página de Facebook do Jornal de Sintra, um periódico histórico acabado de completar neste mês de Janeiro os seus 83 anos!









terça-feira, 11 de abril de 2017

O Bastardo de 11 de Abril de há 660 anos


Túmulo de D. João I no Mosteiro da Batalha
(fotografia de Miguel Boim)
        Às três da tarde de 11 de Abril, há 660 anos, nascia em Lisboa aquele que foi um dos maiores bastardos do Reino, e talvez o maior de Sintra. Filho ilegítimo de um Rei, foi dado ao cuidado de um cidadão de Lisboa, passando assim os seus primeiros dias na Praça dos Canos.

        O tempo faz-nos por vezes saltar as margens do rio da vida que por baixo corre violento, e aos sete anos de idade o bastardo foi armado cavaleiro e Mestre da Ordem de Aviz.

Real Branco do reinado de D. João I,
cunhado na cidade do Porto
(colecção pessoal do autor)

        E a vida tem também sofrimento, lutas, vitórias e aprendizagens com os enganos. A deste bastardo teve traições com hasteares dos estandartes do Reino de Castela no Castelo dos Mouros; teve campos de batalha com milhares de homens sob um tórrido calor, que dando os homens que nele acreditavam seus corpos às lanças e flechas, deram também a independência a um medievo Reino de Portugal; teve um homem de confiança, amizade, íntimo maior, que a Sintra enviou quando o Castelo tinha sido traído, e que ambos até numa noite em que o bastardo decidira conquistar em definitivo o Castelo na Serra altaneiro, começou uma tempestade tão intensa cujas águas das cheias davam pelos peitos dos cavalos e cujos relampejares dos raios no céu iluminavam, faziam coriscar, as pontas das lanças dos homens que o bastardo seguiam. O dilúvio foi tal que até se perderam imensos livros do Mosteiro de São Domingos, ao Rossio, mas a um Rossio em que os caminhos eram lama e aqui e ali brotavam verdes e viçosos arbustos.

Reprodução da efígie presente no túmulo
de D. João I no Mosteiro da Batalha
(fotografia de Miguel Boim)
        Mas este bastardo, não sendo de Sintra, viveu ainda mais do que todas essas desventuras medievais. Iniciou, já enquanto Rei, o costume real dos reis se anicharem nesta Serra de Sintra, e provavelmente ajudando o Palácio da Vila a assemelhar-se ao que hoje parte da sua estrutura é.

         As vozes de um passado perdido da história dizem que contribuiu também para que surgisse o Mosteiro de Penha Longa na parte Sul da Serra, e fez com que do Convento da Santíssima Trindade no colo do vale que do Monte da Pena vem, saíssem vários confessores para a família real, de entre eles, um sobrinho de Inês de Castro.

        E mais que tudo. Soube escolher - se assim se pode dizer - a mulher que o acompanharia até ao fim, e além desse indo ao ficarem em seus túmulos juntos. Dessa união entre Portugal e Inglaterra, entre D. João I e Filipa de Lancaster, nasceu a geração de nobres portugueses que, num difícil e conturbado período da história da Europa, contribuíram e serviram de exemplo para a formação e o bom senso, para a coragem e a polidez, para a educação e o amor. Apesar de brutal, é esse décimo quarto, dos séculos mais ricos que a nossa história tem devido também a essa geração, chamada por Camões como ínclita, e advinda de um bastardo.

Túmulos de D. João I e de D. Filipa de Lancaster
no Mosteiro da Batalha
(fotografia de Miguel Boim)

        Se Lisboa tem a sua estátua do bastardo, a sua estátua de D. João I, Sintra tem o seu espírito. E que esse espírito insufle o peito de muitos através da inspiração da vida do Rei de boa memória, quer nos seus 660 anos que hoje se celebram, quer na sua eternidade.









quinta-feira, 16 de março de 2017

João de Sá, o Panasco - Um Cavaleiro Negro no Século XVI (segunda parte)

a segunda parte do artigo
João de Sá, o Panasco
na edição de 10 de Março de 2017
do Jornal de Sintra

    Já se encontra disponível online a segunda parte do meu último artigo no Jornal de Sintra: João de Sá, o Panasco.

    Para ler o artigo (esta é a segunda parte do mesmo) bastará abrir a imagem (ou realizar download da mesma).

    A primeira parte encontra-se também disponível para consulta online aqui.

    A estranheza do nome desvanecer-se-á quando olhar para trás no tempo e se aperceber que a projecção de esterótipos no passado raramente funciona. Afinal, a vida é toda um improviso e pouco linear, não tendo o passado sido excepção.

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sexta-feira, 10 de março de 2017

João de Sá, o Panasco (em duas partes)

João de Sá, o Panasco
edição de 10 de Fevereiro de 2017
do Jornal de Sintra (primeira parte)


    Encontra-se agora disponível online a primeira parte de João de Sá, o Panasco, artigo publicado na edição de 10 de Fevereiro de 2017 no Jornal de Sintra.
   
    Se acha o nome - quer da pessoa, quer do artigo - estranho, mais estranha lhe parecerá a história. Especialmente pela razão de que quando olhamos para trás na história, acharmos tão estranhas certas vivências de nomes que representaram seres tão vivos e humanos como nós hoje em dia o somos.
 
    A segunda parte do artigo encontrar-se-á disponível em formato de papel nestes próximos sete dias (edição de 10 de Março de 2017 do Jornal de Sintra).


João de Sá, o Panasco
edição de 10 de Março de 2017, ainda em formato de papel
do Jornal de Sintra (segunda parte)


    Para ler o artigo (a sua primeira parte) bastará abrir a imagem (ou realizar download da mesma).

[Actualização de 16 de Março de 2017: a segunda parte do artigo já pode ser consultada online aqui.]

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Amor.



     Mas o amor – ou o desejo de amor, de amar e de ser amado – me ter gerado a mim e a si, é muito mais do que tudo isto. O amor é mais do que a história, é mais do que as histórias. O amor é, acima de tudo, a verdade. O amor é a verdade, e não realidades por nós aos outros impostas. O amor é o desejo de quem muito se gosta, quem muito bem se quer, se encontre com quem melhor a faça sentir. O amor é sentir e aceitar a perda: a perda de alguém, a perda da palavra, a perda do terreno, a perda da glória.

     Amor é compreender que tudo se deu, e que tudo – o bem e o mal – foi dado em tudo aquilo que se pôde, em todos os momentos vividos com quem a nossa intimidade partilhámos. O amor, apesar de ter o ego como rastilho, é uma estrela que emana o calor da verdade que pode aquecer todos em nosso redor nos seus momentos de maior frio nos Invernos da vida.

anjo cupidíneo em chumbo,
época Romana, Norte da Europa
colecção pessoal
     E não é o mundo de hoje apenas que vive com as contradições e antagonismos que como lâminas de afiados gumes ferem fundo os corações. Rómulo e Remo – descendentes de Eneias, herói de Tróia e pai de uma nova Tróia (Roma) – foram amamentados, cuidados pela loba Lupa na Lupercal, caverna do Monte Palatino (de onde temos hoje a palavra palácio). Nessa caverna iniciavam-se as celebrações da Lupercália que incidia não só sobre a celebração da vida com o aproximar da Primavera, mas também da fertilidade das mulheres e dos campos. Ao mesmo tempo que se celebrava a Lupercália (incidindo nesses dias também sobre a Juno e a fertilidade da mulher, e o Fauno e a fertilidade dos campos) celebrava-se também a Parentália. Se os sacerdotes se encontravam na caverna Lupercal a 15 de Fevereiro, a Parentália iniciava-se a 13 de Fevereiro e ia até aos vintes; o contraste das duas celebrações não as crispa, mas mostra a crispação que temos entre todos nós na nossa natureza mais animal.

     Enquanto a Parentália decorria entre as famílias, no interior dos lares e em redor dos túmulos além centros cívicos celebrando os defuntos, e devido a esse peso da morte e do fim do Inverno cessando inclusivamente as uniões matrimoniais, a Lupercália decorria no exterior, com jovens e magistrados correndo nus pelas ruas batendo com tiras de couro ensanguentadas para que a fertilidade abonasse até algumas das mulheres de linhagem que se expunham, tal como nos conta Plutarco. Este antagonismo que ainda hoje encontramos em celebrações é notório em algumas oposições, como por exemplo – e apenas maioritariamente, visto que não existe uma uniformização total das datas – o Enterro do Bacalhau no Sábado de Aleluia por oposição ao jejum do dia anterior, Sexta-feira Santa. Ou na Serração da Velha, em que é anunciada uma revolta subversiva por a Quaresma com seus rigores já ir longa e a aproximar-se do fim.



Inácio de Andrade escreve à sua esposa em 1815: Assomava ao longe a escarpada serra de Cintra, cantada pelo insigne Camões, onde se acham variados primores da natureza enriquecida pela arte. Valles cultivados, e cortados de regatos, fontes, cascatas, e palacios magnificos. Imagina a sensação dolorosa, que soffri com a triste lembrança do mar dilatado, que tenho de sulcar, antes de tornar a beber comtigo a purissima agua da fonte dos amores.


     Mas temos mais um exemplo que continua a relacionar-se com este mês de Fevereiro. E curiosamente uma versão desse exemplo saiu também na Crónica de Nuremberga (ano de 1493) cujo autor de certa forma se encontra relacionado com Sintra pela ligação de seus pares com Valentim de Morávia. No século III d.C e na sequência da guerra, o Imperador Claudius II (também conhecido por Claudius Gothicus) proibiu os casamentos entre os mais jovens para que esses assim pudessem dedicar o corpo e alma às batalhas do Império. Mas um sacerdote cristão continuou a celebrar os casamentos – na forma cristã – até que foi apanhado e brutalmente morto. Entre outros feitos – de forma lendária – que são contados sobre este sacerdote, os seus actos levaram a que séculos mais tarde fosse santificado. Foi assim que no ano de 469 d.C. o Papa decidiu que a celebração deste santo mártir seria a 14 de Fevereiro. O seu nome era Valentim, e sempre foi associado ao amor, aos jovens, à felicidade no casamento. Hoje em dia é quase apagado pela expressão Dia dos Namorados e o seu nome – São Valentim – é mais conhecido como um ícone de um dia do ano do que um ser humano que lá longe no tempo viveu, e que no correr desse foi sempre associado ao amor.

     É no meio destes antagonismos, destas oposições e crispações que ainda temos de viver com a nossa luz sem a perder, tendo Deus, o Universo, a esperança que a consigamos fazer chegar aos outros. E se Deus, o Universo, assim o deseja, e se o amor é por todos desejado – disso tendo ou não consciência – é também por muitos, pela maior parte, desprezado. Mesmo quando todos nele falam. Algo tão simples como paixão e amor, é de difícil verbalização nas suas diferenças. A maior parte das pessoas não possui alfabeto emocional nem vocabulário sentimental para conseguirem compor essas diferenças em razões que o próprio entendimento claramente percepcione.

Combat d'Amour en Songe
filme de Raoul Ruiz quase todo ele
rodado na Quinta da Regaleira
e cujo título expressa bem o seu conteúdo
     Depois, e ainda em relação ao desprezo que o amor recebe quando o interesse pessoal ultrapassa limites, encontramos de tudo: a pressa, a obsessão, a materialização em objecto para ser usado, a “amizade” (que – ironicamente falando – é tanto amizade como o interesse único na consumação do interesse pessoal), a sede e fome dos estímulos e dos sentidos, e por aí fora, tendo como fim unicamente o prazer unilateral. É nestas travessias da vida que em anos são cruzadas que encontramos algumas destas travessuras. Umas promovidas pelas próprias pessoas com o auxílio das coincidências do destino, outras apenas como más interpretações dos nossos actos e gestos mais humildes. Mas todos estes obstáculos – mesmo aqueles mais fisicamente ardentes – têm o amor, quer por sua ausência quer por sua necessidade, como fundo.

     E por vezes surgem estas travessuras do destino em momentos de transformação nas nossas vidas, ou ao mesmo tempo que os nossos relacionamentos se transformam em novos tipos. Não posso deixar de expressar a minha mais profunda e intensa admiração por aqueles que por necessidade de afeição ao outro e para o bem de ambas as partes, decidem mutuamente que o seu relacionamento amoroso se tem de transformar num relacionamento de amizade, por mais anos que ambos tenham em intimidade passado, por mais intensos que tenham sido os momentos vividos. Aqueles que o conseguem fazer colocando à frente de tudo o bem-estar do “novo amigo” e do “velho namorado”, são pessoas que brilham devido a todo o amor que têm dentro de si e que empregam na dificilíssima transformação que é passar um relacionamento amoroso para um de amizade. Pelo pior do momento, da fase de transformação, cresce ainda mais esse amor quando a própria relação amorosa já não assim o é aos olhos da sociedade. Um paradoxo do mais complexo de nós e das nossas relações.

     O que acabei de escrever demonstra que o amor e a paixão são muito mais do que o corpo amado, do que o coração ardente e sedento de estímulos para os sentidos e para o corpo. E se a aparência e o corpo do nosso objecto de amor ou paixão é importante para nós, é-o porque primeiramente reflecte no falar, no olhar, no estar, e depois no agir, no cuidar e no tocar, tudo aquilo que preenche aquele ser humano que ocupa o nosso peito e a nossa mente.

Caminho dos Amores em Sintra
por Isaías Newton, ano de 1877
     Amar é muito mais do que sentir. E só amando se consegue ter a verdadeira liberdade dos dois corpos. Não só pela liberdade do toque – no sentido mais amplo do que a expressão escrita possa parecer – mas também pela liberdade do sentir. E tal como a verdade desse toque, só se consegue a combustão de dois corações quando os sabores, os olhares, o quente e o frio, o húmido e o seco, os sentires do toque, conseguem estar em consonância a sentir tudo isso numa verdade pelos dois permitida viver em amor, mas escalada pela paixão.

     Tal como nas transformações que por vezes em nossas vidas são necessárias, a liberdade provida pela verdade também tem de o estar nos interstícios desses sentires. Forçar o amor, as vidas, as vontades e os quereres, leva à infelicidade da distância do eu para com o próprio coração.

     E sim, bem sei – e sei-o bem – que existem aqueles que em silêncio, calando-o, sentem um amor em excesso que continuamente contra seu peito bate como a forte rebentação do Oceano contra as gigantes rochas das falésias da Roca. Quando se dirige esse amor – que em silêncio é sempre arduamente mantido discreto – para o alvo do nosso querer, tudo é estrondosamente belo e o que se dá é uma inundação de felicidade na vida da outra pessoa; mas quando esse amor é contido dentro do peito parece querer rebentá-lo como fortes águas para fraca represa. E é assim que discretamente se vive com esses ardentes e tempestuosos tumultos dentro de nós.

    Mas esse amor, dentro do peito mantido, pode até ser exacerbado pela nossa vida. No meu caso o que me levou para a Serra de Sintra na adolescência foi precisamente a mutilação do amor, o vício do amor de sangue que para sempre se tinha perdido não se perdendo contudo a imensa chama da paixão que dentro de mim ficaria descontroladamente a arder. A Serra permitiu que para além do seu aconchego, compreendesse a dócil calma com que a paixão dá lugar ao amor.

O Mistério da Estrada de Sintra
adaptado ao cinema, baseado na obra homónima de
Eça de Queirós e com um complexo enredo amoroso
    É muito bom poder também olhar para trás na história da Vila e Serra e ver os infindáveis casos de amor, desde os mais intensamente suaves do século XVI até aos mais acintosos e intriguistas do século XIX. Se pensarmos que existiram mundos com concepções próprias de amor dentro de cada coração dessas histórias, percebemos que estamos perante não só a história, mas perante uma riqueza interminável de amor, dor, paixão e fantasia, mas aquela fantasia que nos traz a esperança, tão importante para nosso peito respirar – no sentido que vai além daquele que sustenta com oxigénio o nosso corpo.

     Nessas histórias da história encontramos amores, desamores, encontros e desencontros, mas também os mais belos sonhos quebrados e as paixões mais ardentes, como a suposta daquele japonês no início do século XX com a mais encantadora das Vénus pecadoras que tinha encontrado nos seus caminhos pelo mundo. Já o Dia dos Namorados, este dia de amor, permitiu que também eu lhe desse um pouco desse através da realidade de fantasia que aqui nesta Serra sempre se viveu, que aqui nesta Serra ainda se vive.











domingo, 29 de janeiro de 2017

"As Colinas dos Reencontros" - Jornal de Sintra, 13 de Janeiro de 2017

As Colinas dos Reencontros
edição de 13 de Janeiro de 2017
do Jornal de Sintra

    Já se encontra disponível online o meu último artigo do Jornal de Sintra!
   
    Este trar-lhe-á mais um exemplo de como tantas vezes, no inesperado, a Serra de Sintra faz com que as pessoas que há muito se conhecem se reencontrem. Mas isto, em lampejos de um recontar do século XVI: As Colinas dos Reencontros.

    Para ler o artigo bastará abrir a imagem (ou realizar download da mesma).

    Deixo ainda o convite para se associar à página de Facebook do Jornal de Sintra, um periódico histórico acabado de completar neste mês de Janeiro os seus 83 anos!