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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Cisterna do Castelo dos Mouros e Sua Descoberta, ou a Segunda Parte dos Tesouros de Sintra - As Memórias de Charles Fréderic de Merveilleux - Parte III


© Pesquisa: O Caminheiro de Sintra
Vídeo: O Caminheiro de Sintra
Imagens: autor Flickr Muchaxo (1ª); Arquivo do Caminheiro de Sintra (restantes)


solo sob o qual se encontra a Cisterna do Castelo dos Mouros, com os seus respiradouros

"Um sábio não pode ter interesses nem tentar instruir-se, a não ser para uso próprio, temendo sempre incorrer na censura do Santo Ofício, a qual, diga-se em abono da verdade, hoje já não é tão rigorosa como foi antes.
A mais bela antiguidade, merecedora de grande admiração, que existe neste recinto é um monumento soberbo, cujas ruínas em qualquer outro país teriam sido já reparadas cuidadosamente. Trata-se de uma nascente ou cisterna, abobadada, contendo mais de dez pés da melhor água do mundo, a qual se mantém sempre ao mesmo nível. Quando ali estive havia duas fendas na abóbada, cujas pedras tinham caído na cisterna que terá uns cinquenta pés de largura. Esse depósito parece ser o que abastece todas as fontes do palácio real de Sintra. Os portugueses, porém, são tão pouco curiosos que ignoram donde vem esse abundante manancial.

A este reservatório de águas prefiro chamar fonte e não cisterna, porque não faz parte de nenhum edifício, porque tem sempre o mesmo nível e profundidade, porque está situada no ponto mais alto da fortaleza e porque a água nunca está mole, o que seria inevitável se fosse água da chuva que se alimentasse o reservatório. Não creio que em todo o resto do mundo exista nada igualmente curioso, visto, como já disse, ser a montanha constiutida por montes de rochas de tamanho enorme, sem nada que as ligue umas às outras. Há ali que baste para confundir os espíritos dos melhores filósofos e toda a sagacidade dos prescrutadores da natureza.

respiradouro da Cisterna do Castelo dos Mouros

O estrangeiro [CdS: não é perceptível ao longo das memórias, a quem Charles Merveilleux se refere quando menciona “o estrangeiro”.] descobriu-a de uma maneira muito singular, tendo subido, com risco de vida, à mais alta das torres em ruínas, da qual a fonte dista mais de seiscentos pés. O contorno da base da torre é composto com pedras quadradas, perfeitamente ajustadas, tendo a porta de acesso quatro pés de altura. A escada que sobre às ameias fora invadida pelas silvas e por espinheiros. Do alto da torre observou, surpreendido, uma claridade que se elevava verticalmente, brilhando diamantinamente e ultrapassando a linha da vegetação.

O sol incidia a sua luz perpendicularmente sobre esse feixe luminoso. O estrangeiro chamou a sua gente e perguntou-lhes se não viam aquilo que ele estava a observar. Como respondessem negativamente, julgou que estava alucinado, pois por mais que raciocinasse não encontrava explicação para tão extraordinário fenómeno. Era com efeito muito de surpreender que um raio luminoso irrompesse de uma brenha de mato e subisse gloriosamente para o sol. Persuadido, não obstante, que não era imaginação sua aquilo que vira, mas pura realidade, ordenou à sua gente que caminhasse como pudesse até ao sítio donde ele via essa luz e parasse quando lhe fizesse sinal. Assim fizeram até serem acenados para pararem. Então, descendo da torre e caminhando por entre silvas que o arranhavam, chegou ao sítio que desejava examinar. Cá em baixo, até uma certa distância da torre notou que a luz feria mais intensamente os olhos. Querendo certificar-se mais rigorosamente, caminhou até um mirto que havia avistado e lhe servia de guia para direcção ao sítio que procurava. Pelo som dos seus passos apercebeu-se que pisava uma superfície oca e passou a caminhar com grandes percauções.

A tempo o fez, porque estava em risco de cair nessa massa de água donde partia a luz que não era mais que um reflexo da luz solar que incidia nas águas através de uma abertura de três pés que existia na abóbada. Por efeito das sombras e dos raios de sol que passavam pelas aberturas da abóbada, o reservatório de água parecia um abismo horrendo. O estrangeiro proibiu a sua gente de avançar e só ele procedeu ao reconhecimento dessa formosa fonte, cuja descoberta lhe deu uma grande alegria. Abriu caminho para ela e tão bem que atinou com a entrada donde lhe foi possível admirar à vontade essa formosa antiguidade, desenhá-la e tomar as suas dimensões tão rigorosamente quanto lho permitiam os meios que para tal dispunha.
respiradouro da Cisterna do Castelo dos Mouros

Satisfeito com o êxito da jornada, desceu ao povoado e comunicou a sua descoberta ao regedor e ao boticário, pessoas mais gradas da terra. Esses dois homens, em vez de se mostrarem satisfeitas, benzeram-se e recuaram horrorizados, como se quem lhes falava fosse um excomungado. Ficou o estrangeiro surpreendido com tal acolhimento e perguntou-lhes o que justificava tal atitude. Responderam-lhe que por uma antiga tradição se sabia existir nessas ruínas uma fonte donde, tanto de dia como de noite, saía uma grande luz, mas donde ninguém se podia aproximar por causa dos demónios que ali guardavam os tesouros de um rei mouro que estava sepultado por debaixo dessa água, num túmulo de cobre. O boticário correu em busca de um velho edital onde se pormenorizavam todas essas fábulas ridículas.

Passaram-se alguns dias sem que nenhum homem do lugar se atrevesse a aproximar-se do sítio da fonte. Tendo o estrangeiro participado a descoberta ao secretário de Estado, este ministro fez-se transportar ao local na companhia de António Rebelo, que tinha então mais de oitenta anos e que embora menos supersticioso que os outros nem por isso deixava de estar influenciado pela fabulosa tradição. Falava com mais precisão que qualquer outro, dizendo que conhecia o sítio da fonte desde o tempo em que estivera de guarda ao rei Afonso, quando este estivera preso em Sintra, mas que nunca encontrara quem estivesse disposto a acompanhá-lo até lá. Contudo houve outras pessoas que garantiam ter visto a fonte brilhar, mas que nunca se haviam atrevido a falar dela, com medo de serem levados à Inquisição, acusados de terem trato com os espíritos malignos.

Nasce nessa fonte e nas suas proximidades um dos mais formosos arbustos do mundo; as suas folhas são do tamanho de uma pata de cavalo e nenhum autor ainda falou dele. O estrangeiro chamou-lhe Capillus reneris maximus lusitanus. Com as folhas que dele colheu fez um agradável e excelente xarope, de balsâmico aroma.
Tendo chegado a Sintra o secretário de Estado e havendo examinado a fonte, concordou, como o estrangeiro propunha, em levantar duas pequenas torres sobre as duas fendas da abóbada para conservar essa antigualha e limpar o fundo dos escombros ali caídos. O famoso marquês de Abrantes, porém, opôs-se a isso por ter tido notícia de haver em certas cidades editais ou crónicas que unanimemente afirmavam haver no fundo da fonte um tesouro escondido, do qual tesouro ele tinha esperança de conseguir apoderar-se. Para isso, passado algum tempo, entendeu por bem fazer vir à sua presença o cavalheiro estrangeiro. Não teve, porém, a satisfação de trazer à luz o documento da mais curiosa e respeitável antiguidade que há em Portugal."


© O Caminheiro de Sintra




Cisterna do Castelo dos Mouros mostrada a partir do minuto 1:30


As outras partes de Sintra nas Memórias de Charles Merveilleux, relato do século XVIII:

I. Castelo de Sintra, Subterrâneos de Sintra, Descrição Física, e a Chegada - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte I
II. Subterrâneos de Sintra e os Seus Tesouros - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte II
IV. O Magnetismo de Sintra - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte IV
V. As Visões de Sintra - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte V
VI. A Senhora Pedagache - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte VI
VII. O Curandeiro de Sintra - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte VII
VIII. O Convento dos Capuchos, e os seus Capuchinhos - As Memórias de Charles Fréderic Merveilleux - Parte VIII


Créditos da Primeira Fotografia: Autor Flickr Muchaxo

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