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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Palácio da Pena e Lisboa: "Presença de Lisboa na Arquitectura do Castelo da Pena"



© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Imagens: Arquivo do Caminheiro de Sintra


Retrato de D. Fernando II
  Da revista municipal Lisboa de há quase vinte cinco anos atrás - mais precisamente do ano de 1986 - consta um excelente artigo intitulado Presença de Lisboa na Arquitectura do Castelo da Pena.

  Para além de inúmeras referências ao Palácio da Pena dignas de registo para quem por ele se interessar, o referido artigo tem um efeito curioso que é o de organizar dentro da mente de quem o leia, aquilo que muitos já se terão apercebido, mas que possivelmente nunca o estruturaram mentalmente ou analisaram com a clareza que nele é notória:

"O Castelo da Pena, essa estranha e tão sedutora criação de D. Fernando II e do arquitecto Barão de Eschwege, é, no seu aspecto arquitectónico, uma obra híbrida, na qual avulta a sua feição de revivalismo. Tem pormenores inspirados em variados estilos (1). Aí encontramos também a presença do manuelino, aspecto que Raul Lino valorizou pelo seu carácter prioritário, mas sem pormenorizar infelizmente: «é digno de nota o terem-se aproveitado aqui (na Pena) pela primeira vez elementos de arquitectura nacional, nomeadamente manuelinos». (2)


Decorridas cerca de três décadas, Diogo de Macedo, simultaneamente um escultor e um estudioso, um historiador e um crítico de arte que nos legou páginas com reais méritos, assim apreciou a mesma faceta desse monumento: «no culto de um nacionalismo delirantemente concebido, só a preocupação imitativa de velhos estilos, em total fantasia cenográfica se tornaria notória pelo barroquismo pitoresco e compósito que o rei D. Fernando fora o primeiro a adoptar nas obras do palácio da Pena, em Sintra. Romantismo evocativo que, sobretudo viria a perturbar pelos pastiches imprevistos».(3)


Tal como Raul Lino, Diogo de Macedo mantém os seus comentários num plano de generalidade.


Quanto ao Prof. José-Augusto França, nas suas magistrais e penetrantes páginas dedicadas ao Castelo da Pena, aponta no mesmo sentido dois aspectos particulares: o «Pórtico de Tritão, imitação da Porta da Justiça de Alhambra, de Granada, cujas plantas e levantamentos foram riscados por encomenda de D. Fernando», assim como «a imitação da famosa janela da Sala do Capítulo do Convento de Cristo em Tomar», apreciando-a, com o seguinte comentário: «A cópia infiel da Janela do Capítulo denuncia a involuntária caricatura romântica - que, neste caso, agindo sobre um elemento decorativo de um estilo ornamental lhe faz a crítica... Decoração em segundo grau, decoração de decoração, o desenho romântico desfaz-se, desfazendo também o original manuelino, a sua insuficiência arquitectural de aplique.
Janela do Capítulo, no Convento de Cristo em Tomar (imagem não presente no artigo original)
Formalmente, D. Fernando tornou pesada a esbelteza do desenho de Castilho e invertendo de propósito a posição da janela e da rosácea (que perdeu densidade realista), tudo reduziu a uma ilustração. O gigante ou Tritão que ele desenhou para a fachada oposta é uma ampliação brutal da estatueta que termina inferiormente a janela de Tomar — e aí algo de fantástico passou à pedra, com raríssima manifestação de sobrenatural do romantismo entre nós». (4)
Ser semelhante ao Tritão do Palácio da Pena, na base da Janela do Capítulo no Convento de Cristo em Tomar (imagem não presente no artigo original)
Parece-nos haver interesse assinalar, em especial numa revista olisiponense como esta, encontrarem-se, entre as imitações existentes no Castelo da Pena, diversas originais da cidade de Lisboa.
Porta antecedendo a Ponte Levadiça tem nas ombreiras e na parte superior uma decoração cuja semelhança com a do Cunhal das Bolas no Bairro Alto, em Lisboa, é evidente
Aspecto do Cunhal das Bolas
Com efeito, antes da ponte levadiça ergue-se uma ampla porta, cujas ombreiras reproduzem o tão lisboeta Cunhal das Bolas do Bairro Alto [nota SPS: ver aqui o Cunhal das Bolas no Bairro Alto]. E a superfície na qual se abre essa porta, coberta de pirâmides de base quadrangular, é reprodução - e fiel - da fachada da Casa dos Bicos.
A parede onde se abre a porta que antecede a pequena Ponte Levadiça, tem uma decoração inteiramente semelhante à da fachada da Casa dos Bicos, em Lisboa
A fachada da Casa dos Bicos, com a sua característica decoração. Aspecto anterior às obras de restauro. Assim seria, ou com pequenas alterações, na época de D. Fernando II
Superiormente e nos dois flancos destacam-se do conjunto duas guaritas, cobertas por cúpulas de gomos, como as que cobrem as guaritas da Torre de Belém (6), e tendo na base figuras animais, algo fantasiadas, como se encontram nas bases das guaritas daquele monumento.
Uma das guaritas de entrada no Palácio da Pena. Está encimada com uma cúpula de gomos e tem inferiormente a cabeça de uma animal fantástico. Ambos os aspectos se encontram nas guaritas da Torre de Belém, assim como as cordas circundantes. As ameias, embora com menor semelhança, também se podem considerar inspiradas nas da Torre de Belém
Uma das guaritas da Torre de Belém encimada pela cúpula de gomos, segundo um desenho de Haupt. Lateralmente vêem-se algumas ameias
Parte de uma das guaritas da Torre de Belém, decorada com a cabeça de um animal fantástico
A Torre de Belém está igualmente bem presente na torre do relógio do Castelo da Pena. Em ambas, dois corpos quadrangulares sobrepostos. O corpo superior apresenta uma base de superfície inferior à do corpo onde assenta. Em ambas, o corpo superior é coroado por guaritas nos quatro ângulos. Em ambas, o corpo inferior encontra-se encimado por uma varanda, ocupando inteiramente as suas quatro faces, as quais se apresentam inteiramente ameadas, tendo essas ameias como motivo decorativo a Cruz de Cristo, nos dois monumentos.


Na Torre de Belém, o corpo inferior, com dois pisos, apresenta no andar de cima janelas geminadas e, no de baixo, varandas. Na torre do relógio, do Castelo da Pena, o corpo inferior só tem um piso, no qual as janelas geminadas abrem sobre as varandas, morfologicamente idênticas às da Torre de Belém
A torre do relógio no Castelo da Pena. Na sua morfologia, nas guaritas, nas ameias decoradas com a mesma cruz e nas varandas é notória a semelhança com a Torre de Belém
Aspecto da Torre de Belém. No primeiro plano a torre, cujas semelhanças com a torre do relógio da Pena são notórias
As semelhanças são tão flagrantes como as imagens o mostram de forma bem incisiva. Por isso parece-nos não haver lugar para dúvidas de reunir o Castelo da Pena, na sua decoração e na sua arquitectura, uma relativamente ampla presença de motivos provenientes de três construções lisboetas: a Torre de Belém, o Cunhal das Bolas e a Casa dos Bicos.


Notas:


(1) Afirma-se no Guia de Portugal, edição da Biblioteca Nacional de Lisboa: «os viajantes de gosto mais educado e exigente (Beauregard e Fouchier, Inchbold, Martin Hume, Bertaux) vêem nele um pretensioso mistifório de todos os estilos (minaretes árabes, torres góticas, janelas manuelinas, cúpulas da Renascença), vaste pastiche oú le baroque le plus truculent renchérit sur le manuélin (par ex. das l’étonnante fenètre du géant), como escreve Bertaux» (vol. I, pág. 500). De recordar ainda a afirmação de Raszynski: «em 2245 os arqueólogos moeriam o juízo quando quisessem fixar a época de diferentes construções da Pena».
(2) Guia de Portugal, ed. da Biblioteca Nacional de Lisboa, Lisboa, 1924, vol. I, pág. 500.
(3) História da Arte em Portugal, Porto, 1953, vol. III, págs. 508-509. O trecho transcrito encontra-se no capítulo VII, sobre o século XIX, o único da autoria de Diogo de Macedo (cf. pág. 457). Todos os restantes pertencem a Reynaldo dos Santos, única autoria indicada no rosto do volume.
(4) A Arte em Portugal no Século XIX, Lisboa, 1966, vol. I, pág. 302.
Palácio da Bacalhoa em Azeitão, com torre com cúpula em gomos (imagem não presente no artigo original)
(5) Também se encontram cúpulas de gomos no Palácio da Bacalhoa, em Azeitão. Mas, como pelos motivos expostos se comprova a presença sugestionadora da Torre de Belém no Castelo da Pena, parece-nos que também daquele monumento provirá a inspiração para este pormenor do Castelo da Pena."


© O Caminheiro de Sintra


Outros Artigos Sobre o Documentário da Arquitectura do Palácio da Pena;
Palácio da Pena, a Arquitectura; José Martins Carneiro, os Depoimentos - Parte I
José Martins Carneiro e o Palácio da Pena - Parte II
Palácio Nacional da Pena - Parte III

1 comentário:

  1. Como Arquitecto, fiquei maravilhado com a forma suscinta e elucidativa de como foi descrito o Palácio da Pena.
    Obrigado.

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Caríssimo(a),

por favor sinta-se à vontade para aqui escrever aquilo que agora pensa ou sente.

Ver-nos-emos em breve, sem disso sabermos.

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