Para o interior do Chalet Biester, o escolhido foi Luigi Manini, arquitecto e pintor, que à altura vivia em Lisboa, sendo encenador no Teatro São Carlos. Recorde-se que Luigi Manini foi o responsável pelas belíssimas obras do Palácio Hotel do Buçaco, e pela Quinta da Regaleira em Sintra, esta última, a pedido de Augusto Carvalho Monteiro, e em detrimento de Henri Lusseau, responsável pelo primeiro projecto do Parque da Liberdade em Lisboa, posteriormente Parque Eduardo VII.
Luigi Manini utiliza assim no interior frescos medievais, combinando-os com o gótico flamejante, e o estilo próprio da época, mescla da qual saem os vitrais multicolores encomendados em França, que dão um colorido clássico ao interior, iluminando também os móveis criados por Leandro Braga, o artista entalhador que criou igualmente peças para o Palácio da Ajuda, e para o Palácio de Belém (residência oficial do Presidente da República Portuguesa).
Quanto ao proprietário, "Biester" de nome de família, surgem duas versões em vários textos aludindo a duas diferentes pessoas: Ernesto Biester, grande comerciante de cortiça, de origem alemã, à época há muitos anos em Portugal; Ernesto Biester, criador de inúmeros textos, dramaturgo, jornalista, e empresário do Teatro D. Maria II, que nasceu e faleceu em Lisboa.
Quanto a estas duas versões, a elucidação chega de uma forma bastante simples: Ernesto Biester, o português, faleceu em Lisboa em 1880, e como o Chalet Biester data de 1890, só poderá ter saído da vontade de Ernesto Biester, o comerciante de cortiça alemão. [nota de Fevereiro de 2012: não é tão simples quanto isso, e longe de ser simplista como a forma como o expus; no entanto, decorre a investigação relacionada com o tema deste parágrafo]
É possível também encontrar no número 4 da revista A Architectura Portugueza, de 1908:
[nota: com ortografia da época] Em detalhe, toda a construcção é um mimo. Exteriormente, o arco abatido que emmoldura a porta dupla de entrada, arco em que se ergue um balcão coberto, constitue, no seu conjuncto, um motivo delicioso em que [José Luís] Monteiro affirma, simultaneamente, o seu valor de constructor e de artista. D’uma grande simplicidade, casando-se admiravelmente com a restante fachada de que esse motivo é a parte central e principal, as columnas que, n’elle, entram, sem deixarem de representar a sua funcção structural, de supporte, são d’uma graça e leveza incomparáveis, e a maneira como Monteiro deu a máxima cor, sem volumes excessivos, a esse detalhe da fachada, é tambem uma affirmação, e boa, da sua valia.
Internamente, se Monteiro teve a collaboração de Manini e Leandro Braga que, sobretudo na sala de jantar, mostrou quão grande era o seu valor de technico e artista, a sua direcção adivinha-se em toda a parte, ainda mesmo n’um ou n’outro ponto em que a phantasia de Leandro Braga, sentindo-se mais à vontade, se expandiu por isso tambem mais livre e acentuadamente. Desenhador d’um valor que, ainda hoje, é lembrado como tal pelos seus companheiros do atelier Pascal, Monteiro, sem prejudicar a visão de Leandro Braga que era o primeiro a respeitar, detalhou até à ultima, sempre que o julgou necessario, qualquer pormenor em que Braga interveio e que Monteiro entendia estar dentro da sua alçada. No resto, Braga, subordinando-se ao plano geral, fez só o que a sua consciencia de artista lhe ditou. E assim, a obra dos dois, se por vezes se funde, funde-se sempre em virtude do esforço consciente de ambos, não trazendo por isso prejuizo a um ou a outro, mas antes dando-lhes mais lustre e gloria.
O parque que, como já dissemos, é obra de Nogré, é uma maravilha. Como Polixénes do “Conto d’Inverno” de Shakespeare, que dizia que “a arte que ajuda a natureza é a arte superior porque é, por assim dizer, ainda a natureza”, o sr. Nogré fez o seu jardim Biester no estylo da paysagem, limitando-se sempre que lhe foi possivel, acabar a obra principiada pela natureza, e isso sem esquecer a casa que o jardim tinha de enquadrar. N’esta orientação, traçou-lhe todas as ruas e alamedas de forma a fazer valer, de todos os lados e o melhor possivel, a silhueta geral do edificio. Ora avultando em pittorescos maçissos, ora ondulando, naturalmente, sem outra cobertura além da que lhe dá a herva cuidadosamente aparada, o parque valorisa-se assim com o mesmo principio de sobriedade que caracterisa, na alternação dos espaços nus e decorados, o estylo romanico. E, correndo em todos os sentidos, ao longo das três faces posteriores da casa, que umas vezes quasi desapparece sob a massa dos seus tufos, outras surge desafogada, e ainda outras apparece enquadrada e recortada da folhagem, esta oferece-se, por esta fórma, continuamente, a quem a olha de fóra, como um elemento sempre original e novo.Notas: Na casa Biester, collaboraram as seguintes pessoas: mestre Costa, tendo por encarregado de carpinteiros seu sobrinho Carlos da Costa Soares, ambos de Cintra. Este ultimo, quando aquelle se impossibilitou por doença, substituiu-o como mestre da obra até final, mostrando a sua muita competência. Os estuques são de Domingos Antonio da Silva Meira; a esculptura em madeira de Leandro Braga e a pintura decorativa de Luigi Manini, excepto o arauto que se vê na entrada que é de Baeta, tambem distincto pintor. A guarnição de ferro forjado da grande chaminé da sala de jantar é de José da Quinta, artista serralheiro de grande valor.
O Chalet Biester foi também palco de uma parte do filme The Ninth Gate (A Nona Porta) de Roman Polanski, em que o protagonista principal foi o actor Johnny Depp (mais abaixo podem-se ver dois vídeos com a parte do filme rodada no Chalet Biester). Johnny Depp que assume o nome de Dean Corso, que é um especialista - um pouco ganancioso - de livros raros, e que a mando de um milionário (Boris Balkan) é mandatado para encontrar três cópias de Os Nove Portais para o Reino das Sombras, de 1666 e supostamente escrito pelo próprio Satanás e por um autor veneziano de nome Aristide Torchia - possívelmente inspirado na vida de Giordano Bruno. Em Sintra, Dean Corso vai a casa de Victor Fargas, detentor de uma cópia de Os Nove Portais para o Reino das Sombras, e que vive com um estilo de aristocrata em decadência que já sem mobiliário no Chalet Biester, vende o que resta da sua extensa colecção de livros para poder comprar comida e pagar os impostos. O filme é uma adaptação do livro The Club Dumas (1993) de Arturo Pérez-Reverte.Abaixo, dois trechos do filme A Nona Porta, onde aparece o Chalet Biester (a partir do minuto 7:07 do primeiro vídeo):
Raskolnikov
(sinta-se à vontade para mais abaixo se expressar)
P.S.: Quanto à localização dos sítios mencionados neste blog, tive durante muito tempo a dúvida se a mesma haveria de ser aqui disposta ou não. Pela resolução positiva, peço que faça o melhor uso possível desta informação, o qual principalmente tem a ver com a preservação do património e a não poluição dos locais sob que forma for. Tendo boa fé em si, deixo-lhe aqui no mapa (seta verde - poderá ampliar o mapa para ver melhor), o Chalet Biester - que é propriedade privada - na Estrada da Pena, Sintra, Portugal:
Ver mapa maior







Realmente é uma obra arquitectónica de beleza inquestionável. Por essa razão gostaria de ver esclarecidas duas questões: a quem pertence e em que quantia estará avaliado o Chalet neste momento. Possivelmente não estará à venda mas o sonho de o adquirir um dia ainda faz parte do meu ideal.
ResponderEliminarObrigada pela atenção.
Os meus cumprimentos
Liliana Marques
Cara Liliana,
ResponderEliminarantes de mais, agradeço ter colocado o seu comentário com as perguntas.
Creio que o melhor para saber a quem pertence, será ir à Divisão de Urbanismo da Câmara Municipal de Sintra (ao pé da estação de comboios da Portela de Sintra), e relativamente ao valor em que está avaliada, deverá andar entre dois a cinco milhões de euros.
Com os melhores cumprimentos
Raskolnikov
Não sei em que nome está registada a casa, mas sei, por testemunhos directos, que os alunos dos colégios da Opus Dei passam lá temporadas, tipo colónia de férias. Provavelmente é de alguém da Opus ou simpatizante da mesma.
ResponderEliminarO seu texto está muito interessante, e agrada-me esse seu interesse por Sintra.
ResponderEliminarMas dado que é Propriedade Privada, penso que não deveria dizer a um desconhecido para onde se deve dirigir (neste caso à Divisão de Urbanismo da Câmara Municipal de Sintra) para saber quem são os proprietários, quanto mais adivinhar uma quantia.
Respeitando o Anónimo,juntado a outras, achei a história da Opus Dei muito engraçada!
Cumprimentos
Caro anónimo de 23 de Setembro de 2010 da 1:06,
ResponderEliminarembora não compreendendo a sua preocupação com o adivinhar de uma quantia (e diferença existe entre "adivinhar" e "analisar", pelo menos na cultura onde o Caminheiro de Sintra se insere), digo-lhe que compreendo a sua preocupação relativamente ao conhecimento dos proprietários.
No entanto - e caso queira nisso notar, somente se caso a isso quiser atentar - dizer que se "crê ser o melhor", não é dizer que fazer uma determinada coisa terá um fim certo ("crê" de crença - atitude de espírito que admite, em grau variável uma verdade); ademais: para efeitos semelhantes em qualquer Divisão de Urbanismo de qualquer Município, é necessário realizar um requerimento, que envolve várias coisas, entre as quais informações pessoais e fiscais, para além de que ter-se-á de dar também parte do intuito, e dar provas desse mesmo intuito. Como pode verificar, não se trata de ir a um balcão da Câmara, fazer uma pergunta, e responderem-nos. Isto é claro, pelo menos na cultura e tempo onde o Caminheiro de Sintra se insere, não sabendo quais os seus, e respeitando-os se nesses assim não se passar.
Devo também acrescentar, que saber o nome de qualquer proprietário é tarefa fácil. Basta ter-se desenvolvido capacidades comunicativas, e na verdade dos sentimentos e intuitos, apresentar-se com nome às claras, e justificar com respeito, questões e - especialmente - afirmações que se façam.
Qualquer dúvida que lhe possa ter surgido do que acima disse, não hesite em colocar um novo comentário.
Com os melhores cumprimentos
O Caminheiro de Sintra
O Chalet Biestre é propriedade de particulares que nada têm com Opus DEi.
ResponderEliminarO Chalet Biester pertece a uma família japonesa que apenas reside na casa em determinados períodos do ano.
ResponderEliminarO Chalet Biester também não pertence a japoneses...
ResponderEliminarNão faço ideia quem seja o proprietário do Chalet. Apenas sei que sofreu obras de restauro há poucos anos atrás (talvez uns 4/5 anos). Ficou magnifico! Sei que pouco tempo depois do seu restauro, visitei o Castelo dos Mouros. Ao observar a paisagem de Sintra a partir do castelo, identificando os vários locais de interesse, observei o Chalet Biester com a sua "nova" cobertura azul/cinza escura a brilhar no meio do verde da Serra.
ResponderEliminarToda a subida da Pena tem Chalet's muito bonitos, mas este é lidíssimo.
Essas obras que ocorreram à 4/5 anos atras apenas foi o restauro do telhado.
ResponderEliminarO Chalet sofreu obras de restauro muito grandes à cerca de 10 anos.
Mas de quem será este magnifico Chalet ??? O(s) proprietario(s) devem ser milionário(s), pois acredito que seja uma verdadeira loucura o preço desta propriedade. Um verdadeiro palacio, será que nos sentiremos principes, princesas, reis ou rainhas dentro dele ? :)
Como alguem já referiu neste "espaço" ..... um dia ainda vou ter dinheiro para o comprar..... se me sair o euromilhoes :):):) ...... por enquanto vou sonhando !!!
O chalet não pertence a nenhum japonês nem ninguém relacionado com a opus dei. Pertence sim a pessoas bem simpáticas que lá deixam fazer umas belas festas de halloween. A questão do restauro é evidente porque como aparece no filme e como está agora não tem nada a ver, mas gostei bastante tanto do resultado do interior como exterior.
ResponderEliminarA casa de inicio assusta quando se está lá dentro, muito pelos motivos e esculturas, mas depois está-se bastante confortável.
Olá !
ResponderEliminarEste palácio pertence a uma familia muito simples e simpáticas !
é dos monumentos mais bonitos que já vi na vida.
Olá!
ResponderEliminarTambém conheço os donos. Como foi dito são pessoas muito simples e que têm um carinho muito grande pelo Chalet.Gostei muito de visitar a casa que apesar de grande é muito acolhedora.