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segunda-feira, 6 de junho de 2016

6 de Junho, Amor a D. João de Castro

um anjo em gravura de 1671 carregando as armas dos Castro da Penha Verde

     Se o sentimento de saudade e nostalgia que se encontram nos genes do povo português é muitas vezes associado ao mar e ao desejo inicial de expansão do Reino - da qual surgiu o Império -, é inegável que além daqueles que partiam por bem ou por necessidade, partiam outros que sem dúvida também contribuiram para que esses sentimentos de tristeza, nostalgia e saudade, nos ficassem impregnados nos genes.

     Estes últimos eram conhecidos como os degredados. Tinham de ir para o degredo. Ir para o degredo era simplesmente cumprir uma pena que podia ter o peso de anos em celas e calabouços, mas na qual as pessoas, os sentenciados, tinham de se ir embora de Portugal: ou para África, ou para o Brasil, ou para a Índia. Podiam ficar no degredo 10 anos como podiam ficar no degredo para o resto de suas vidas.

     Camões, por exemplo, foi degredado por um período de tempo que hoje não conseguimos com certeza determinar.

     Mas existiam ainda outros que tinham um diferente "degredo", aqui atribuindo esse termo entre aspas devido ao facto da esperança de voltarem ao Reino, de voltarem a Portugal (e alguns a Sintra) era nula. Ao cargo de Vice-Rei da Índia estava associada essa nula esperança. E por outro lado, no Vice-Rei estavam depositadas muitas esperanças. Esperanças de conseguir governar a província do Império de forma imaculada.

     D. João de Castro foi um desses governadores, um dos Vice-Reis da Índia.

     Poderia contar inúmeros episódios de sua vida, mas existem alguns poucos que pelo menos para mim têm um enorme impacto, existindo um em especial que merece ser destacado - embora nos correntes dias lhe encontrem mais traços de curiosidade e graça do que o compreender da magnitude dos princípios e honra que lhe está por detrás.


gravura rasurada de D. João de Castro, de um livro da biblioteca de
António Carvalho Monteiro, antigo proprietário da Quinta da Regaleira

     Como Vice-Rei da Índia viu-se na década de 1540 obrigado a resistir a todas as investidas que os sultões filhos do Crescente lhe enviavam; numa delas, num desses ataques, o seu próprio filho de 19 anos, D. Fernando, que se encontrava num extremo da fortaleza resistindo a um cerco que havia meses se tinha levantado, acabou por morrer na explosão de uma armadilha que os homens do Sultão tinham montado.

     Em alguns relatos da história ficou-nos que, esperando-se o silêncio e o luto nos dias seguintes a saber a notícia, quando D. João de Castro saiu às ruas fê-lo vestindo-se galhardamente, montado a cavalo e mandando repicar os sinos de todas as igrejas; dizia que seu filho não morrera mas que ganhara a palma [glória; triunfo] de cavaleiro acabando valentemente.

     Terminado o cerco a Diu, D. João de Castro viu-se na necessidade de reconstruir a fortaleza para conseguir resistir aos ataques do Sultão de Cambaia que recomeçariam com o regresso do Verão. Mesmo sendo governador da Índia não tinha dinheiro para tal. Resolveu então escrever uma carta aos senhores de Goa, dizendo-lhes que necessitava desse empréstimo. Dizia também que não o fazia sem lhes dar provas de sua honra; desenterrara os ossos de seu filho para os dar como penhor, para lhes garantir que iria pagar aquele empréstimo. Dizia-lhes ainda que infelizmente por ter morrido há pouco tempo, os ossos de seu filho ainda não se encontravam nas condições para que pudessem servir de penhor. Daria assim e enviava-lhes, as suas próprias barbas, parte de seu corpo para garantir que esse empréstimo seria pago.

     Na resposta os senhores de Goa deram-lhe o montante necessário para a reconstrução da fortaleza de Diu e devolveram-lhe as suas barbas. Disseram que tão honrosos penhores não eram necessários pelo amor que lhe tinham, e ele a eles.


D. João de Castro numa gravura do século XIX

     As suas barbas foram mantidas num relicário de prata e cristal ao longo de séculos, tendo sido avistadas pela última vez no início do século XIX na sua antiga propriedade, para a qual queria sempre voltar, e onde desejava ser sepultado. Propriedade que estimara e aumentara com dedicado amor.

     D. João de Castro morreu na Índia, nos braços do conhecido missionário Francisco Xavier, na maior das misérias.

     O que nos deixou através de sua história é algo demasiadamente valioso. É das maiores riquezas que podem existir nesta terra que se chama Portugal.

     Deixou-nos essa imensa riqueza, e não só. Pediu a seu filho que fosse erguido um convento dedicado aos Capuchos, na Serra de Sintra.
     Hoje temo-lo.
     Encantando quem o visita, e quem o visitando se deixe encantar pela vida de D. João de Castro.


o brasão dos Castro no Convento dos Capuchos da Serra de Sintra




     Deixou-nos também a Quinta da Penha Verde, contendo em si, em seus inúmeros recantos e maravilhas do sentir da história, muito do que aquele ser humano era. A Quinta da Penha Verde, que tanta dedicação lhe dedicara, para onde desejara sempre voltar, nem que apenas para ser sepultado.


     E tenho uma esperança, uma esperança que com o passar dos anos não morre, de que o relicário que guardou tão honroso penhor, ainda hoje exista. Este que é para mim um Graal da honra na história de Portugal, é também um Graal de Sintra, por o seu antigo lugar de guarda ter sido a Quinta da Penha Verde.

     6 de Junho de 1548, dia em que seu coração parou, mas que fez com que os nossos batessem com mais força. Amor a D. João de Castro.












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O Caminheiro de Sintra