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domingo, 26 de dezembro de 2010

Mestre Maçon, Guilda Maçónica - Símbolos Maçónicos de Sintra - Parte III


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Vídeo: O Caminheiro de Sintra
Imagens: Arquivo do Caminheiro de Sintra




  Ao longo do território de Portugal continental, encontram-se em muitos edifícios com séculos de existência como por exemplo castelos, mosteiros, ou igrejas, rústicos símbolos na pedra gravados, que aparentam não ter qualquer significado, ou passíveis de serem identificados com algum significado simbólico mais comum.
Assinatura de Canteiro na Sé de Lisboa

  Crê-se que esses símbolos (conforme estudos arqueológicos que já se encontram a serem realizados) tinham que ver com a Maçonaria, mais especificamente, com a Maçonaria Operativa - a suposta “original”, dos homens que trabalhavam a pedra na construção de edifícios que serviriam um propósito comum.
Assinatura de Canteiro no Palácio da Vila em Sintra

  A teoria mais afamada para a explicação desses símbolos da Maçonaria, diz que eram assinaturas de canteiro, ou seja, assinaturas que os pedreiros faziam, quando davam por terminado o seu trabalho, para por esse serem pagos consoante o remate de toda a secção trabalhada que a assinatura representaria.

  Pela Europa fora podem encontrar-se outras teorias para a explicação desses símbolos, teorias essas mais ligadas à religião ou ao secretismo, e que afirmavam ou serem símbolos para manterem os demónios afastados dos monumentos ou das entradas dos próprios monumentos ou de secções desses, ou que eram um meio de uma misteriosa comunicação entre os pedreiros, isto é, entre os maçons.
Mestre Maçon ou Guilda Maçónica? Assinatura de Canteiro no Palácio Nacional de Sintra

  Em qualquer das teorias, ou qualquer perspectiva através da qual para esta situação se possa olhar, as marcas são da responsabilidade de um homem apenas, à qual corresponderia o símbolo específico em uso.

  Como já referido em outro post, isso gera inúmeras questões relacionadas com a responsabilidade dos homens que trabalhavam a pedra (mão-de-obra), e assim sendo, com a inutilidade que teriam os supostos grandes responsáveis ou idealizadores dos monumentos - os arquitectos. Chegados a este ponto, poderemos colocar inúmeras questões: seriam os arquitectos também maçons? Se não trabalhavam a pedra, e não tendo todo o conhecimento de artesão como o era (e é) necessário a um pedreiro, como o poderiam sê-lo? Se sim, como seriam aceites na fraternidade da Maçonaria, existindo sempre como existiu os grandes fossos entre as classes de trabalho, tendo aqui especial contraste entre os homens do povo e os homens que lidavam com a corte, esquematizando aquilo que os senhores dos reinos desejavam?

  Isso são no entanto questões que já fogem ao assunto que aqui se quer abordar.
Símbolo Maçónico no Paço Real de Sintra

  Em Sintra, em dois monumentos que são muito próximos (o Paço Real de Sintra e a igreja de São Martinho), encontra-se por quatro vezes o mesmo suposto símbolo maçónico, ou suposta assinatura de canteiro, como tantas outras nesses monumentos - e em outros de Sintra - existem.

  O que torna este símbolo, esta marca, como algo que sobressai entre os demais, é o facto de ser bastante composto em sua forma - comparativamente com o comum encontrado nestas marcas.
Igreja de São Martinho em Sintra, Traços da Maçonaria Operativa

  Com duas “pernadas” que se bifurcam de um cúrveo pé que termina naquilo que se assemelha à representação de uma flor-de-lis, rectamente essas se vão alargando como cones até terminarem em dois extremos de forma anzolada ou lupina, lado a lado, com cada ponta lateral para o mesmo lado voltada em ambos os extremos. Não só a composição é aqui importante na distinção que logo é evidente das demais marcas, mas também o cuidado que seria necessário para este símbolo na pedra gravar, cuidado também distinto da maioria das marcas da mesma espécie que se podem por norma encontrar. Dos quatro símbolos, três aparecem com um círculo próximo, suscitando todo o tipo de interpretações, conforme for a orientação que as fotografias tenham, quando se olha para a marca e seu círculo.

  Se é a sua composição que faz com que esse sobressaia entre os demais, foi um outro facto que fez com que para além de no Paço Real de Sintra e igreja de São Martinho se encontrar, passasse também a figurar no Secreto Palácio de Sintra: a exactidão na orientação da suposta flor-de-lis e nos extremos anzolados ou lupinos, não é a mesma nos quatro, e a forma como as duas pernadas se cruzam na figuração com a pernada da flor-de-lis, é igualmente diferente nos quatro.
Mosteiro da Pena, Palácio da Pena, Mestre Maçon ou Guilda Maçónica?

  Qual a importância do mencionado com o Mestre Maçon e a Guilda Maçónica?

  Para tão composta marca, é de supor que quem fosse o criador, autor e executor da mesma, a tivesse claramente visível na sua mente, e que a executasse sempre da mesma maneira, até porque em qualquer técnica de execução, a acomodação a um método faz com que se insista na repetição dos mesmos gestos, em especial - e de forma redundante - se o propósito é mesmo repetir a mesma execução.

  Na orientação da suposta flor-de-lis e dos extremos anzolados ou lupinos, em três das marcas poder-se-ia evocar o uso de um negativo para marcar a forma na pedra antes de a gravar, usando ora uma face do negativo. Numa outra, o sentido cúrveo da flor-de-lis é diferente.

  Assim, nos casos do último parágrafo, colocam-se as seguintes questões: sendo uma assinatura, a marca de um autor, ou o uso repetido do mesmo símbolo composto pelo mesmo artesão, seria de esperar que o mesmo falhasse na execução da réplica exacta desse? E quanto à marca cujo sentido cúrveo é diferente, para além desse aspecto, porque razão apresenta um entalhe errado no seguimento de um dos extremos anzolados ou lupinos - parecendo que existiu um início errado de entalhamento -, não possui a mesma harmonia na sua curva como os outros, e sendo um dos três que junto tem um círculo, porque é que esse círculo se apresenta em dois sobrepostos, e não se encontra quase acomodado entre os extremos anzolados ou lupinos como os círculos nas duas outras marcas?

 Para além das questões já colocadas, surge ainda uma outra: as marcas do suposto mesmo símbolo, aparecem em diferentes trabalhos de pedra, nomeadamente: um pórtico (como simples pedra de suporte), uma ombreira de talha diagonal, uma moldura de janela de talha diagonal, e…uma pedra artisticamente trabalhada com motivos do estilo manuelino. Seria de supor, que um artesão ou um mestre capaz de fazer sobressair de uma simples pedra os mais belos motivos manuelinos, pudesse estar envolvido no simples assentamento de pedra de um pórtico ou de uma janela?
Palácio da Pena e a Maçonaria

  As questões colocadas com as diferenças que estas quatro marcas apresentam, sugerem que essas foram executadas por mãos diferentes, existindo a possibilidade de quem quer que as tenha executado, não estivesse familiarizado com as mesmas, representativas de um só símbolo. Daí…

  Seriam realmente estas marcas assinaturas de canteiro de um único indivíduo?

  Estariam estas marcas exclusivamente relacionadas com os pedreiros?

 Estariam arquitectos ou responsáveis abaixo desses que não trabalhavam directamente a pedra, relacionados com essas marcas?

  Representariam estas marcas um responsável que não trabalhasse directamente a pedra, ou representariam uma espécie de guilda, de pedreiros que se ajudariam entre si, e que acabando o trabalho, deixavam a marca da sua guilda maçónica?

  Questões válidas, mas sem a possibilidade de para já se obterem respostas concretas. No entanto, Sintra já permitiu vislumbrar mais um pouco de um enigma maior, ao sempre estar de mão dada com a história e com quem sempre se tenta transportar até ao seu passado.


© O Caminheiro de Sintra


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José Alfredo da Costa Azevedo e a Loja Luz do Sol, ou a Maçonaria em Sintra - Parte V
Companheiro Maçon, Loja Luz do Sol ou a Maçonaria em Sintra - Parte VI
Aprendiz Maçon, Loja Luz do Sol ou a Maçonaria em Sintra - Parte VII
Simbologia da Maçonaria, José Alfredo da Costa Azevedo e a Loja Luz do Sol ou a Maçonaria em Sintra - Parte VIII


P.S.: Quanto à localização dos sítios mencionados neste blog, tive durante muito tempo a dúvida se a mesma haveria de ser aqui disposta ou não. Pela resolução positiva, peço que faça o melhor uso possível desta informação, o qual principalmente tem a ver com a preservação do património e a não poluição dos locais sob que forma for. Tendo boa fé em si, deixo-lhe aqui no mapa (seta verde - poderá ampliar o mapa para ver melhor), a Igreja de São Martinho em Sintra, Portugal:


Ver mapa maior

Trabalho Maçónico - Símbolos da Maçonaria Operativa em Sintra - Parte I


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Vídeo: O Caminheiro de Sintra
Imagem: autor Flickr NiaD (1ª imagem); Arquivo do Caminheiro de Sintra (restantes)



  Dos traços da Maçonaria em Sintra, já em 1903 o Conde de Sabugosa, António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, sobre eles escrevia em seu belo livro “O Paço Real de Sintra”, como se pode abaixo ler:

Siglas

Sigla significa em portuguez: lettra inicial que indica abreviatura no escripto.
E em architectura é o sinal gravado em cada pedra pela mão do canteiro, com um fim ou maçonico, que servia para os adeptos se corresponderem mysteriosamente, ou com um fim apenas industrial e economico para cada um marcar o seu trabalho, e ser pago por elle.
O emprego d’estes signaes convencionaes foi effectivamente, no começo, exclusivo dos livre maçons, corporações de constructores e operarios que na idade media trabalhavam na construcção das grandes cathedraes e dos edificios de caracter civil.
Para se entenderem entre si tinham signaes, que eram apenas conhecidos de um pequeno numero de iniciados, e serviam só aos grandes dignatarios.


  O Conde de Sabugosa pretendia mostrar assim, as várias interpretações que quem estava de fora poderia fazer, acerca dos ditos sinais gravados em pedra, que se podem encontrar em vários monumentos ao longo de todo o território português. Desde a comunicação à prova de trabalho concluido, o Conde de Sabugosa atribuia no entanto, o seu uso apenas à mão-de-obra dos pedreiros, o que não se pode dizer que seja algo explícito ou absolutamente concreto na análise que se possa fazer deste caso. Se atentarmos à ideia que a maior parte das pessoas tem acerca da Maçonaria no geral, perceberemos que alude sempre a um pedreiro (mão-de-obra) com profundo conhecimento do seu trabalho - para além dos outros conhecimentos implícitos na Maçonaria e que a ver têm com muito do que incorre dentro do Universo.

  Essa imagem implicaria no entanto, a inexistência de uma hierarquia não só na Maçonaria, mas na própria sociedade, e para tal, basta simplesmente tentar compreender o processo de construção de uma estrutura imóvel, desde a sua idealização e concepção, à sua execução e remates finais: todo um processo que passa - e sempre passou - por várias classes dentro de hierarquias, que atribuem responsabilidade a quem executa os trabalhos, assim como a quem os concebe. De outro modo os pedreiros teriam sido capazes de ter tido a capacidade para lidar por exemplo com o rei, estabelecerem projectos, trabalharem a pedra, assentarem-na, no espaço a que os dias se cingem, e igualmente no curto espaço a que a vida se cinge.

Maçonaria Operativa em Sintra - Palácio da Vila

  Existe assim uma idealização não plausível, daquilo que seriam os maçons da Maçonaria Operativa (a que era colocada em prática também através da profissão), de onde surgiu o denominação de “pedreiro-livre” não por ter toda a liberdade como a falaciosa idealização poderá induzir, mas por a mão-de-obra ser paga consoante o trabalho feito em uma empreitada.

  Relativamente a este último facto que tem que ver com o termo “pedreiro-livre” e que envolvia trabalhos a prazo, é perfeitamente plausível a ideia de sindicância que possa surgir. A sindicância poderia ajudar na protecção dos conhecimentos, da continuidade do ganha-pão, e de os melhores executantes se manterem sempre próximos dos trabalhos mais importantes - o que na altura, seriam concerteza por toda a Europa, as empresas mais importantes pois o tempo e os gastos levariam a que se construissem grandes obras de arte arquitectónicas, libertando gastos e encurtando o tempo que com erros, poderia ser extremamente longo.

  Podendo ter sido um dos primeiros grupos com as noções actuais de “sindicato”, e assim sendo um corpo estranho ao clero que tudo dominava - ainda para mais trabalhando nas obras de Deus, como catedrais ou igrejas, ou outras obras para o rei, que era encarado como de descendência divina - seria natural que tivessem que se proteger entre si como fraternidade, usando para isso o sigilo e o segredo.

Igreja de São Martinho em Sintra - Maçonaria Operativa

  Voltando à conjunção inicial, dos traços da Maçonaria em Sintra, encontramos outro autor que fala das “siglas”, símbolos ou assinaturas maçónicas, que é Félix Alves, em três artigos de 1935 publicados no Diário de Notícias, focando-se todos eles na igreja de São Martinho de Sintra e evocando o arquitecto e arqueólogo Possidónio da Silva (Mémoire de l’archéologie sur la véritable signification des signes qu’on voit gravés sur les anciens monuments du Portugál (Lisboa, 1872) par le Chevalier J.P.N. da Silva (Lisbonne)), J.A. Brutails, autor da obra L’Archéologie du Moyen Age (J.A. Brutails - L’Archéologie du Moyen Age, et ses Methodes, pág. 205, Paris, 1900), e Rackzynski - Les Arts en Portugal, pág. 333, Paris, 1846.

Assinatura de Canteiro - Igreja de São Martinho em Sintra

”Para activar as construções e para pagar a cada canteiro o trabalho executado, este marcava os seus silhares ou outras cantarias com o seu sinal próprio, a maior parte das vezes analfabético, marca mais ou menos rude, mais ou menos ingénua e infantil, umas vezes constituida por linhas rectas, mais raras vezes por curvas, de variedade infinita, mas quase sempre muito simples, principalmente se se tratava de pedras resistentes, como o granito.”

  Félix Alves faz a sua própria interpretação em muito influenciada por Possidónio da Silva, não sendo contudo completamente satisfatória a sua explicação. As assinaturas ou os símbolos maçónicos utilizados - como se poderá ver em outro post - não dão a certeza de que eram utilizados apenas por um pedreiro, ou - menos ainda - que representassem apenas um único pedreiro. A descrição que faz das ditas assinaturas ou símbolos maçónicos é também muito simplista, visto que utiliza termos como “rude”, “ingénuo”, “infantil”, “analfabético”, para descrever os mesmos, quando alguns deles conseguem ser encontrados em vários alfabetos e quando para se ser pedreiro, ou pelo menos para executar certos trabalhos em pedra, seria necessário conhecer pelo menos os caracteres e algarismos correntes que constassem dos planos de execução - e faria todo o sentido, usarem-se algarismos ao invés de “rudes” ou “infantis” rabiscos.

Assinatura de Canteiro - Palácio Nacional de Sintra ou Palácio da Vila

”Nos monumentos não aparecem marcados todos os silhares; atribui-se esta circunstância ao facto de uma pedra marcada por um artífice poder indicar uma fiada consecutiva, até à primeira pedra marcada por outro canteiro.”

 Também este argumento aos olhos do Caminheiro de Sintra parece falacioso, pois nesse caso, teriam de existir muitos mais símbolos visíveis do que o número que na realidade existe. Isso acarretaria ainda outro problema: faces interiores de construções ou fiadas, dificilmente poderiam ser observadas no momento, para além de que seria sempre necessário aguardar por conclusões ou avanços de outros pedreiros, antes que esses assinassem o seu trabalho e o mesmo fosse comprovado. Ter-se-ia encontrado também caso assim fosse, pedras com símbolos em faces interiores, que se tornariam visíveis aquando de reconstruções ou desmoronamentos, do que, não existe qualquer tipo de relato conhecido. (continua na parte II)


© O Caminheiro de Sintra


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