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domingo, 26 de dezembro de 2010

Mestre Maçon, Guilda Maçónica - Símbolos Maçónicos de Sintra - Parte III


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Vídeo: O Caminheiro de Sintra
Imagens: Arquivo do Caminheiro de Sintra




  Ao longo do território de Portugal continental, encontram-se em muitos edifícios com séculos de existência como por exemplo castelos, mosteiros, ou igrejas, rústicos símbolos na pedra gravados, que aparentam não ter qualquer significado, ou passíveis de serem identificados com algum significado simbólico mais comum.
Assinatura de Canteiro na Sé de Lisboa

  Crê-se que esses símbolos (conforme estudos arqueológicos que já se encontram a serem realizados) tinham que ver com a Maçonaria, mais especificamente, com a Maçonaria Operativa - a suposta “original”, dos homens que trabalhavam a pedra na construção de edifícios que serviriam um propósito comum.
Assinatura de Canteiro no Palácio da Vila em Sintra

  A teoria mais afamada para a explicação desses símbolos da Maçonaria, diz que eram assinaturas de canteiro, ou seja, assinaturas que os pedreiros faziam, quando davam por terminado o seu trabalho, para por esse serem pagos consoante o remate de toda a secção trabalhada que a assinatura representaria.

  Pela Europa fora podem encontrar-se outras teorias para a explicação desses símbolos, teorias essas mais ligadas à religião ou ao secretismo, e que afirmavam ou serem símbolos para manterem os demónios afastados dos monumentos ou das entradas dos próprios monumentos ou de secções desses, ou que eram um meio de uma misteriosa comunicação entre os pedreiros, isto é, entre os maçons.
Mestre Maçon ou Guilda Maçónica? Assinatura de Canteiro no Palácio Nacional de Sintra

  Em qualquer das teorias, ou qualquer perspectiva através da qual para esta situação se possa olhar, as marcas são da responsabilidade de um homem apenas, à qual corresponderia o símbolo específico em uso.

  Como já referido em outro post, isso gera inúmeras questões relacionadas com a responsabilidade dos homens que trabalhavam a pedra (mão-de-obra), e assim sendo, com a inutilidade que teriam os supostos grandes responsáveis ou idealizadores dos monumentos - os arquitectos. Chegados a este ponto, poderemos colocar inúmeras questões: seriam os arquitectos também maçons? Se não trabalhavam a pedra, e não tendo todo o conhecimento de artesão como o era (e é) necessário a um pedreiro, como o poderiam sê-lo? Se sim, como seriam aceites na fraternidade da Maçonaria, existindo sempre como existiu os grandes fossos entre as classes de trabalho, tendo aqui especial contraste entre os homens do povo e os homens que lidavam com a corte, esquematizando aquilo que os senhores dos reinos desejavam?

  Isso são no entanto questões que já fogem ao assunto que aqui se quer abordar.
Símbolo Maçónico no Paço Real de Sintra

  Em Sintra, em dois monumentos que são muito próximos (o Paço Real de Sintra e a igreja de São Martinho), encontra-se por quatro vezes o mesmo suposto símbolo maçónico, ou suposta assinatura de canteiro, como tantas outras nesses monumentos - e em outros de Sintra - existem.

  O que torna este símbolo, esta marca, como algo que sobressai entre os demais, é o facto de ser bastante composto em sua forma - comparativamente com o comum encontrado nestas marcas.
Igreja de São Martinho em Sintra, Traços da Maçonaria Operativa

  Com duas “pernadas” que se bifurcam de um cúrveo pé que termina naquilo que se assemelha à representação de uma flor-de-lis, rectamente essas se vão alargando como cones até terminarem em dois extremos de forma anzolada ou lupina, lado a lado, com cada ponta lateral para o mesmo lado voltada em ambos os extremos. Não só a composição é aqui importante na distinção que logo é evidente das demais marcas, mas também o cuidado que seria necessário para este símbolo na pedra gravar, cuidado também distinto da maioria das marcas da mesma espécie que se podem por norma encontrar. Dos quatro símbolos, três aparecem com um círculo próximo, suscitando todo o tipo de interpretações, conforme for a orientação que as fotografias tenham, quando se olha para a marca e seu círculo.

  Se é a sua composição que faz com que esse sobressaia entre os demais, foi um outro facto que fez com que para além de no Paço Real de Sintra e igreja de São Martinho se encontrar, passasse também a figurar no Secreto Palácio de Sintra: a exactidão na orientação da suposta flor-de-lis e nos extremos anzolados ou lupinos, não é a mesma nos quatro, e a forma como as duas pernadas se cruzam na figuração com a pernada da flor-de-lis, é igualmente diferente nos quatro.
Mosteiro da Pena, Palácio da Pena, Mestre Maçon ou Guilda Maçónica?

  Qual a importância do mencionado com o Mestre Maçon e a Guilda Maçónica?

  Para tão composta marca, é de supor que quem fosse o criador, autor e executor da mesma, a tivesse claramente visível na sua mente, e que a executasse sempre da mesma maneira, até porque em qualquer técnica de execução, a acomodação a um método faz com que se insista na repetição dos mesmos gestos, em especial - e de forma redundante - se o propósito é mesmo repetir a mesma execução.

  Na orientação da suposta flor-de-lis e dos extremos anzolados ou lupinos, em três das marcas poder-se-ia evocar o uso de um negativo para marcar a forma na pedra antes de a gravar, usando ora uma face do negativo. Numa outra, o sentido cúrveo da flor-de-lis é diferente.

  Assim, nos casos do último parágrafo, colocam-se as seguintes questões: sendo uma assinatura, a marca de um autor, ou o uso repetido do mesmo símbolo composto pelo mesmo artesão, seria de esperar que o mesmo falhasse na execução da réplica exacta desse? E quanto à marca cujo sentido cúrveo é diferente, para além desse aspecto, porque razão apresenta um entalhe errado no seguimento de um dos extremos anzolados ou lupinos - parecendo que existiu um início errado de entalhamento -, não possui a mesma harmonia na sua curva como os outros, e sendo um dos três que junto tem um círculo, porque é que esse círculo se apresenta em dois sobrepostos, e não se encontra quase acomodado entre os extremos anzolados ou lupinos como os círculos nas duas outras marcas?

 Para além das questões já colocadas, surge ainda uma outra: as marcas do suposto mesmo símbolo, aparecem em diferentes trabalhos de pedra, nomeadamente: um pórtico (como simples pedra de suporte), uma ombreira de talha diagonal, uma moldura de janela de talha diagonal, e…uma pedra artisticamente trabalhada com motivos do estilo manuelino. Seria de supor, que um artesão ou um mestre capaz de fazer sobressair de uma simples pedra os mais belos motivos manuelinos, pudesse estar envolvido no simples assentamento de pedra de um pórtico ou de uma janela?
Palácio da Pena e a Maçonaria

  As questões colocadas com as diferenças que estas quatro marcas apresentam, sugerem que essas foram executadas por mãos diferentes, existindo a possibilidade de quem quer que as tenha executado, não estivesse familiarizado com as mesmas, representativas de um só símbolo. Daí…

  Seriam realmente estas marcas assinaturas de canteiro de um único indivíduo?

  Estariam estas marcas exclusivamente relacionadas com os pedreiros?

 Estariam arquitectos ou responsáveis abaixo desses que não trabalhavam directamente a pedra, relacionados com essas marcas?

  Representariam estas marcas um responsável que não trabalhasse directamente a pedra, ou representariam uma espécie de guilda, de pedreiros que se ajudariam entre si, e que acabando o trabalho, deixavam a marca da sua guilda maçónica?

  Questões válidas, mas sem a possibilidade de para já se obterem respostas concretas. No entanto, Sintra já permitiu vislumbrar mais um pouco de um enigma maior, ao sempre estar de mão dada com a história e com quem sempre se tenta transportar até ao seu passado.


© O Caminheiro de Sintra


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José Alfredo da Costa Azevedo e a Loja Luz do Sol, ou a Maçonaria em Sintra - Parte V
Companheiro Maçon, Loja Luz do Sol ou a Maçonaria em Sintra - Parte VI
Aprendiz Maçon, Loja Luz do Sol ou a Maçonaria em Sintra - Parte VII
Simbologia da Maçonaria, José Alfredo da Costa Azevedo e a Loja Luz do Sol ou a Maçonaria em Sintra - Parte VIII


P.S.: Quanto à localização dos sítios mencionados neste blog, tive durante muito tempo a dúvida se a mesma haveria de ser aqui disposta ou não. Pela resolução positiva, peço que faça o melhor uso possível desta informação, o qual principalmente tem a ver com a preservação do património e a não poluição dos locais sob que forma for. Tendo boa fé em si, deixo-lhe aqui no mapa (seta verde - poderá ampliar o mapa para ver melhor), a Igreja de São Martinho em Sintra, Portugal:


Ver mapa maior

Assinaturas de Canteiro, Aprendiz Maçon - Símbolos da Maçonaria Operativa em Sintra - Parte II

© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Vídeos: O Caminheiro de Sintra
Imagens: Arquivo do Caminheiro de Sintra (duas primeiras); Moira Greig e Aberdeenshire Archeology Service (duas últimas)




(continuação da parte I)

Sucedia em grande parte dos casos, ainda mesmo que se tratasse de verdadeiras siglas, isto é, de marcas alfabéticas, ficarem invertidas as pedras justamente na construção, porque o assentador as colocava conforme lhe convinha, contanto que ficasse visível a face marcada; de outro modo, tornava-se inútil o sinal gravado.

  Félix Alves, para além do supracitado, dá ainda um exemplo de uma pedra na igreja de São Martinho que aparece invertida devido ao posicionamento da sua “letra”. Em outros exemplos - e como por exemplo é mostrado em outro post - os símbolos maçónicos utilizados como assinaturas, não eram feitos do mesmo modo, e não aparenta que fossem talhados pelas mesmas mãos. Ainda sobre a última citação de Félix Alves: caso um assentador colocasse as pedras como mais lhe conviesse, seria por essas ainda terem de ser trabalhadas; caso assim fosse, o símbolo supostamente já existente teria uma grande probabilidade de desaparecer com o trabalhar da pedra.

Igreja de São Martinho em Sintra, Aprendiz Maçon

…em primeiro lugar, conhece-se que a pedra está invertida, porque a marca é uma sigla, isto é, letra; em segundo lugar, trata-se de deslocações de silhares, visto que a igreja é, na sua maior extensão, reconstruída com materiais que o sismo de 1755 desmoronou.

  A propósito da última citação, não existe modo de comprovar que as marcas são anteriores ao terramoto de 1755, ou se resultam das suas obras de recuperação. Certo é que as figuras utilizadas nas assinaturas ou símbolos maçónicos, reflectem que a mesma entidade (grupo de indivíduos ou indivíduo) deixou a mesma marca na igreja de São Martinho e na ala Manuelina do Paço Real de Sintra (Palácio da Vila ou Palácio Nacional de Sintra). Isso mesmo poderá significar com alguma preponderância, de que na mesma época foram realizados trabalhos de construção nos dois monumentos; assim sendo, o início do século XVI com os trabalhos de D. Manuel I e o pós-terramoto de 1755 em que os dois monumentos foram abalados, são duas fortes hipóteses.

  Como adenda à primeira hipótese, um importante facto há a apresentar: no Palácio da Pena encontram-se também algumas assinaturas ou símbolos da mesma espécie, e o peso maior que isso tem, é que esses encontram-se na parte do Palácio da Pena que advém do século XVI, também mandada construir por D. Manuel I, que era o Mosteiro dos Jerónimos, ou o Mosteiro da Pena à volta do qual surgiu o Palácio que hoje em dia se vê, e que de certa forma engoliu o velho Mosteiro da Pena. Sobre estes últimos, é de grande dificuldade a obtenção de imagens, visto que actualmente a empresa Parques de Sintra Monte da Lua não permite a obtenção de qualquer fotografia nessa zona do Palácio da Pena em determinadas alturas do ano.



  A favor da hipótese pós 1755 - e embora ainda mais inconsistente do que qualquer outra - existe o facto da certeza da presença do Marquês de Pombal por terras da Serra de Sintra, nomeadamente na possessão de propriedades. Essas propriedades estão hoje bem divididas e com as suas delimitações sendo diferentes das delimitações do século XVIII (visto que antes e durante mais do que uma possessão, foram pertença de um só proprietário sem necessidade de marcos que definissem divisórias) mas apresentam marcas do passado, que se podem ter relacionado directamente com o Marquês de Pombal e o seu suposto maçonismo não-operativo (mas que podia os maçons-operativos suportar, ou até ter a ver com esses só em denominação - aqui tudo é possível), ou que podem ter aparecido posteriormente, por essas mesmas terras terem desse sido pertença. Sobre este tema do Marquês de Pombal em Sintra e a presença de símbolos maçónicos nas suas propriedades, existe um post disponível.

  De qualquer dos modos, não existem ligações concretas, específicas, ou inegáveis, que possam fazer com que esses símbolos supostamente maçónicos possam ser compreendidos, para além das inferências que da história que os rodeia - evolução de monumentos, acontecimentos, datas - se possam tirar.

Assinatura de Canteiro na Igreja de São Martinho em Sintra

  Estas marcas ou supostos símbolos maçónicos - ou apenas das pessoas, dos indivíduos que trabalharam os monumentos há vários séculos - são assim um testemunho de mais uma enriquecedora presença na história de Sintra, e porque não, enriquecedor também para a história da Maçonaria, o ter Sintra a si associada.

   As Assinaturas de Canteiro começam por fim a ser estudadas quer por investigadores privados, quer por arqueólogos. Os mais inesperados factos aparecem, como as Assinaturas de Canteiro na Roménia, República Checa, Alemanha e Itália, registadas pelo esloveno Gorazd Žagar no seu site medieval, na parte das Assinaturas de Canteiro no estrangeiro.

Assinatura de Canteiro no Castelo de Glamis, Escócia - Cortesia da Aqueóloga Moira Greig

  Também na Escócia, e numa via mais académica, investigações encontram-se a ser realizadas pelo Aberdeenshire Archaeology Service, como se pode verificar no artigo do site Culture 24, através da secção arqueológica no artigo Scottish Masons' Mysterious Signatures In Stone To Be Recorded. Desse departamento escocês, Moira Greig e o Caminheiro de Sintra trocaram impressões que podem ser apreciadas em marcas semelhantes entre as encontradas em Sintra, e aquelas encontradas no Glamis Castle, em Angus, como se pode ver pelas fotos gentilmente cedidas pela arqueóloga Moira Greig.

Glamis Castle, Escócia - Assinatura de Canteiro - Cortesia da Arqueóloga Moira Greig

  Muito há para se investigar no que toca às Assinaturas de Canteiro e aos Símbolos Maçónicos, mas o mais importante do caminho, os passos, encontram-se a serem dados.


© O Caminheiro de Sintra




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Trabalho Maçónico - Símbolos da Maçonaria Operativa em Sintra - Parte I


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Vídeo: O Caminheiro de Sintra
Imagem: autor Flickr NiaD (1ª imagem); Arquivo do Caminheiro de Sintra (restantes)



  Dos traços da Maçonaria em Sintra, já em 1903 o Conde de Sabugosa, António Maria Vasco de Melo Silva César e Meneses, sobre eles escrevia em seu belo livro “O Paço Real de Sintra”, como se pode abaixo ler:

Siglas

Sigla significa em portuguez: lettra inicial que indica abreviatura no escripto.
E em architectura é o sinal gravado em cada pedra pela mão do canteiro, com um fim ou maçonico, que servia para os adeptos se corresponderem mysteriosamente, ou com um fim apenas industrial e economico para cada um marcar o seu trabalho, e ser pago por elle.
O emprego d’estes signaes convencionaes foi effectivamente, no começo, exclusivo dos livre maçons, corporações de constructores e operarios que na idade media trabalhavam na construcção das grandes cathedraes e dos edificios de caracter civil.
Para se entenderem entre si tinham signaes, que eram apenas conhecidos de um pequeno numero de iniciados, e serviam só aos grandes dignatarios.


  O Conde de Sabugosa pretendia mostrar assim, as várias interpretações que quem estava de fora poderia fazer, acerca dos ditos sinais gravados em pedra, que se podem encontrar em vários monumentos ao longo de todo o território português. Desde a comunicação à prova de trabalho concluido, o Conde de Sabugosa atribuia no entanto, o seu uso apenas à mão-de-obra dos pedreiros, o que não se pode dizer que seja algo explícito ou absolutamente concreto na análise que se possa fazer deste caso. Se atentarmos à ideia que a maior parte das pessoas tem acerca da Maçonaria no geral, perceberemos que alude sempre a um pedreiro (mão-de-obra) com profundo conhecimento do seu trabalho - para além dos outros conhecimentos implícitos na Maçonaria e que a ver têm com muito do que incorre dentro do Universo.

  Essa imagem implicaria no entanto, a inexistência de uma hierarquia não só na Maçonaria, mas na própria sociedade, e para tal, basta simplesmente tentar compreender o processo de construção de uma estrutura imóvel, desde a sua idealização e concepção, à sua execução e remates finais: todo um processo que passa - e sempre passou - por várias classes dentro de hierarquias, que atribuem responsabilidade a quem executa os trabalhos, assim como a quem os concebe. De outro modo os pedreiros teriam sido capazes de ter tido a capacidade para lidar por exemplo com o rei, estabelecerem projectos, trabalharem a pedra, assentarem-na, no espaço a que os dias se cingem, e igualmente no curto espaço a que a vida se cinge.

Maçonaria Operativa em Sintra - Palácio da Vila

  Existe assim uma idealização não plausível, daquilo que seriam os maçons da Maçonaria Operativa (a que era colocada em prática também através da profissão), de onde surgiu o denominação de “pedreiro-livre” não por ter toda a liberdade como a falaciosa idealização poderá induzir, mas por a mão-de-obra ser paga consoante o trabalho feito em uma empreitada.

  Relativamente a este último facto que tem que ver com o termo “pedreiro-livre” e que envolvia trabalhos a prazo, é perfeitamente plausível a ideia de sindicância que possa surgir. A sindicância poderia ajudar na protecção dos conhecimentos, da continuidade do ganha-pão, e de os melhores executantes se manterem sempre próximos dos trabalhos mais importantes - o que na altura, seriam concerteza por toda a Europa, as empresas mais importantes pois o tempo e os gastos levariam a que se construissem grandes obras de arte arquitectónicas, libertando gastos e encurtando o tempo que com erros, poderia ser extremamente longo.

  Podendo ter sido um dos primeiros grupos com as noções actuais de “sindicato”, e assim sendo um corpo estranho ao clero que tudo dominava - ainda para mais trabalhando nas obras de Deus, como catedrais ou igrejas, ou outras obras para o rei, que era encarado como de descendência divina - seria natural que tivessem que se proteger entre si como fraternidade, usando para isso o sigilo e o segredo.

Igreja de São Martinho em Sintra - Maçonaria Operativa

  Voltando à conjunção inicial, dos traços da Maçonaria em Sintra, encontramos outro autor que fala das “siglas”, símbolos ou assinaturas maçónicas, que é Félix Alves, em três artigos de 1935 publicados no Diário de Notícias, focando-se todos eles na igreja de São Martinho de Sintra e evocando o arquitecto e arqueólogo Possidónio da Silva (Mémoire de l’archéologie sur la véritable signification des signes qu’on voit gravés sur les anciens monuments du Portugál (Lisboa, 1872) par le Chevalier J.P.N. da Silva (Lisbonne)), J.A. Brutails, autor da obra L’Archéologie du Moyen Age (J.A. Brutails - L’Archéologie du Moyen Age, et ses Methodes, pág. 205, Paris, 1900), e Rackzynski - Les Arts en Portugal, pág. 333, Paris, 1846.

Assinatura de Canteiro - Igreja de São Martinho em Sintra

”Para activar as construções e para pagar a cada canteiro o trabalho executado, este marcava os seus silhares ou outras cantarias com o seu sinal próprio, a maior parte das vezes analfabético, marca mais ou menos rude, mais ou menos ingénua e infantil, umas vezes constituida por linhas rectas, mais raras vezes por curvas, de variedade infinita, mas quase sempre muito simples, principalmente se se tratava de pedras resistentes, como o granito.”

  Félix Alves faz a sua própria interpretação em muito influenciada por Possidónio da Silva, não sendo contudo completamente satisfatória a sua explicação. As assinaturas ou os símbolos maçónicos utilizados - como se poderá ver em outro post - não dão a certeza de que eram utilizados apenas por um pedreiro, ou - menos ainda - que representassem apenas um único pedreiro. A descrição que faz das ditas assinaturas ou símbolos maçónicos é também muito simplista, visto que utiliza termos como “rude”, “ingénuo”, “infantil”, “analfabético”, para descrever os mesmos, quando alguns deles conseguem ser encontrados em vários alfabetos e quando para se ser pedreiro, ou pelo menos para executar certos trabalhos em pedra, seria necessário conhecer pelo menos os caracteres e algarismos correntes que constassem dos planos de execução - e faria todo o sentido, usarem-se algarismos ao invés de “rudes” ou “infantis” rabiscos.

Assinatura de Canteiro - Palácio Nacional de Sintra ou Palácio da Vila

”Nos monumentos não aparecem marcados todos os silhares; atribui-se esta circunstância ao facto de uma pedra marcada por um artífice poder indicar uma fiada consecutiva, até à primeira pedra marcada por outro canteiro.”

 Também este argumento aos olhos do Caminheiro de Sintra parece falacioso, pois nesse caso, teriam de existir muitos mais símbolos visíveis do que o número que na realidade existe. Isso acarretaria ainda outro problema: faces interiores de construções ou fiadas, dificilmente poderiam ser observadas no momento, para além de que seria sempre necessário aguardar por conclusões ou avanços de outros pedreiros, antes que esses assinassem o seu trabalho e o mesmo fosse comprovado. Ter-se-ia encontrado também caso assim fosse, pedras com símbolos em faces interiores, que se tornariam visíveis aquando de reconstruções ou desmoronamentos, do que, não existe qualquer tipo de relato conhecido. (continua na parte II)


© O Caminheiro de Sintra


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Sinais da Maçonaria - O Marquês de Pombal em Sintra ou a Maçonaria em Sintra - Parte IV


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Vídeo: O Caminheiro de Sintra
Imagens: Arquivo do Caminheiro de Sintra




  Humildemente escondida à vista de todos que a ignoram como apenas mais um portão, encontra-se na estrada que leva os seus viandantes da Vila de Sintra até Monserrate, uma entrada que se supõe que tenha tido a ver com a Maçonaria, e em especial, com Sebastião Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal.

  Para os mais fantasiosos sendo vista como uma entrada iniciática - devido a todo o desconhecido que a Maçonaria envolve ou o que com essa se relacione para os leigos - esta entrada sita após a Quinta da Bella Vista, é hoje parte da propriedade dessa - e em 1953 o era, no registo topográfico - existindo indícios especulativos, de que no passado tenha dado acesso a terrenos mais baixios sitos a Norte onde se encontravam outras quintas.

Sinais da Maçonaria em Sintra

  Essa especulação tem como base o facto de que mais abaixo nessa colina, se encontra um lugar conhecido como São Bento e se encontrava a Quinta de São Bento, também conhecida como Quinta do Bosque, de origens que remontam ao século XVII. A razão da especulação chega mais tardiamente, quando em 1780 a quinta é cedida ao Marquês de Pombal como forma de salda de dívidas, depois de esse já ter adquirido propriedades no lugar da Boiça e também de São Bento, e depois do rei D. José ter doado a Sebastião Carvalho e Melo, dois bosques “para aformosear a Quinta do Bosque” - citação que pressupõe que o Marquês de Pombal já usufruia da quinta, antes de 1780.

  Assim, e de acordo com o mito que o Marquês de Pombal era maçon, se faz a ligação especulativa, da entrada que se encontra na estrada que liga a Vila de Sintra a Monserrate correspondia aos terrenos que esse possuia naquela zona da Serra de Sintra, e nos quais se incluia a Quinta de Pombal - denominação que suplantou os termos Quinta de São Bento e Quinta do Bosque, por ter sido posse dos Marqueses de Pombal até 1867.

Antiga Quinta do Marquês de Pombal em Sintra

  Este conjunto de ligações poderá no entanto ser falacioso, uma vez que não existe modo de comprovar em absoluto, o raciocínio apresentado; contudo, a especulação feita, tem bases mais do que plausíveis para o mesmo raciocínio se dar. No entanto, e caso existisse maneira de tornar essa inferência inválida, existiria sempre a associação da Quinta do Pombal, símbolo do Marquês de Pombal em Sintra - carregando em seu nome o espectro da Maçonaria - à referida entrada na estrada de Monserrate.

  Poder-se-ia justificar o erro do raciocínio ao dizer que a data de construção da mesma é incerta, e que poderá muito bem ser recente. Sem dúvida que o que se questionaria era mais do que válido, mas, o traçado da construção fala por si, referindo que é anterior ao início do século XX - algumas décadas antes de os Marqueses de Pombal terem vendido as propriedades que ali possuiam - nomeadamente a argola para amarro do cavalo, à esquerda da entrada, assim como as semi-esferas embutidas no chão junto à entrada, possivelmente as colunas originais que ficariam sitas em frente à entrada do portão.

Mina de Água da Quinta de Pombal (Marquês de Pombal) em Sintra

  Daquilo que supostamente associa esta construção ao tema da Maçonaria, são os símbolos nela presente em seus dois pilares. Em um encontramos a Roseta no topo superior da coluna, e o Pentagrama na parte inferior; em outra encontramos o Coração (presente também como símbolo maçónico ou “assinatura de canteiro” em outras construções em Sintra) no topo superior da coluna, e a Chave na parte inferior. Estes são símbolos utilizados pelas várias Lojas Maçónicas, bem como são associados à Maçonaria - como aliás é bem patente na referida “assinatura de canteiro” - o que coloca longe de ser falacioso, o raciocínio aqui apresentado, entre Sebastião Carvalho e Melo, Marquês de Pombal, e a referida entrada na estrada que parte de Sintra e leva a Monserrate.


© O Caminheiro de Sintra


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