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terça-feira, 6 de julho de 2010

Palácio de Monserrate em Sintra (depois da Lenda de Monserrate)



© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Imagens: Arquivo do Caminheiro de Sintra



   Depois da Lenda de Monserrate, em que um cavaleiro cristão foi morto pelo alcaide mouro de Sintra num duelo, o qual se tornou em objecto de veneração por parte das gentes daquela região, e quando D. Afonso Henriques por fim conquistou Sintra, foi erigido um pequeno santuário onde era sito o túmulo do bravo cavaleiro.

   Em 1540, por ordem do padre Gaspar Preto, o santuário que se havia transformado em capela, e a capela que se havia degradado até ao estado de ruína, essa foi mandada reconstruir em honra de Nossa Senhora de Monserrate, uma provável homenagem à santa da Catalunha, onde o padre Gaspar Preto terá passado no regresso de uma viagem a Roma.

   Em 1718, esta quinta que se havia sob domínio dos Castro, através do seu proprietário Caetano de Melo e Castro, passa de Quinta da Bela Vista, a Quinta de Monserrate, antes da sua morte.

   Em 1790, a neta de Caetano de Melo Castro, Francisca Almeida Pimentel, à altura proprietária da Quinta de Monserrate, aluga-a ao inglês Gerard De Visme, um abastado importador de madeira do Brasil, que já tinha mandado construir em 1770 um majestoso palácio em Benfica, Lisboa.
Fonte do Palácio de Monserrate, ano de 1902

   Tendo-se apaixonado por Sintra, decide construir na Quinta de Monserrate, um palácio em estilo romântico, que trouxesse aos olhos de quem para ele olhasse, a imagem de um castelo medieval - isto, ainda que a Quinta de Monserrate não fosse propriedade sua, e apenas lhe fosse alugada - e pede para isso autorização a Francisca Almeida Pimentel, para o fazer no cume do monte onde estava a casa dos Castro, bem como também para trabalhar a capela que havia sido reconstruida a mando do padre de Gaspar Preto, mas que depois do terramoto de 1755, se encontrava em ruínas.

   Dessa altura, só existem as duas gravuras abaixo presentes (cada uma com correspondente ampliação), cuja descrição refere que a construção estava flanqueada por duas torres, com torre de menagem, e com merlões e ameias em toda a volta.


Noel, publicada em 1795

Noel, publicada em 1795 - ampliada

Baker, publicada em 1793


 Baker, publicada em 1793 - ampliada

   Porém, em 1794 De Visme vê-se obrigado a partir para Inglaterra, subalugando a Quinta de Monserrate a William Beckford.

   William Beckford modifica então as torres do Palácio de Monserrate, bem como os seus jardins, onde acaba por mandar construir uma cascata de aspecto natural, a partir de um ribeiro que encontra a sua nascente mais a sul na Serra de Sintra, perto do Monte Rodel.

  Depois de William Beckford deixa o Palácio de Monserrate bem como Portugal, os Castro desinteressam-se pelo Palácio de Monserrate bem como pela sua quinta, deixando-os ao abandono e num estado de quase degradação, como constata Lord Byron em 1809, no seu Childe Harold's Pilgrimage.

   É contudo somente em 1841 que um milionário comerciante de têxteis de nome Francis Cook, após casar e passar por Lisboa, trava conhecimento com o Palácio de Monserrate, e que também se apaixona pela propriedade.

   Depois de algumas temporadas passadas em Portugal, na Quinta de São Bento - agora Quinta do Pombal devido ao seu antigo proprietário ter sido Sebastião Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal - os Castro por fim acedem em vender-lhe a Quinta de Monserrate, o que vem a acontecer em 1846.
Palácio de Monserrate em 1881,
em litografia de João Ribeiro Cristino
  Sir Francis Cook, decide então reconstruir o Palácio de Monserrate, bem como realizar a renovação de todo o parque envolvente, formando para a reformulação do Parque de Monserrate, uma equipa que era constituida por um botânico de nome William Nevill, um experiente jardineiro chamado de Francis Burt, e um paisagista romântico, William Stockdale. Com esta equipa, Sir Francis Cook consegue reformular todo o jardim do Parque de Monserrate criando para tal vários recantos de diferentes espécies adstritas a regiões específicas do planeta como o México ou o Japão, utilizando no seu todo, mais de mil espécies de plantas.

   O Palácio de Monserrate só iria conhecer avanços em meados de 1858, através do arquitecto James Knowles Jr., que retomando o estilo do palácio neogótico, tenta dar-lhe um ar indo-persa, conseguindo-o definitivamente no seu resultado final, fazendo até lembrar os contos do Califa Vathek, como assim era conhecido William Beckford devido aos seus contos - tendo este último inclusive criado junto à cascata, o Arco de Vathek, sendo que Vathek era o personagem principal de um de seus contos com o mesmo nome que o referido personagem que acabou por ficar imortalizado em seu arco, no Parque de Monserrate.

  Por fim, Sir Francis Cook tendo em vista uma reconstituição romântica, utiliza a Capela de Nossa Senhora de Monserrate que tinha chegado ao estado de ruína, para através da vegetação e do estado daquela, recriar um cenário de fantasia, com as árvores da borracha e as trepadeiras, a enlearem-se pelas ruínas como se serpentes fossem, e onde Francis Cook mandou também colocar num recanto aberto na terra através de um amplo buraco na Capela de Nossa Senhora de Monserrate, um sarcófago etrusco, que formava um trio com outros dois que se encontravam pelo Parque de Monserrate.

   Por todas as remodelações feitas dentro e fora do Parque de Monserrate (incluindo a reconstrução da Fonte de Mata-Alva), e por ser um estrangeiro bem querido pelo povo, Francis Cook é feito Visconde de Monserrate pelo Rei Dom Luís, em 1870.

   Após falecer em 1901, Monserrate passa para o filho, para o neto, e por fim para o bisneto (também ele) Sir Francis, que acaba por vender o Parque de Monserrate e seu palácio, juntamente com o Convento dos Capuchos e seu parque, a um especulador por oitenta e cinco mil libras, em 1947.

   Anos mais tarde, o Estado português acaba por os reaver, e torna o Palácio de Monserrate bem como o seu parque, um monumento de interesse público, em 1978.


© O Caminheiro de Sintra


P.S.: Em breve serão publicados posts sobre o Cromeleque, a Capela de Monserrate, o Arco de Vathek, e a Cascata de Beckford.

P.S.2: Quanto à localização dos sítios mencionados neste blog, tive durante muito tempo a dúvida se a mesma haveria de ser aqui disposta ou não. Pela resolução positiva, peço que faça o melhor uso possível desta informação, o qual principalmente tem a ver com a preservação do património e a não poluição dos locais sob que forma for. Tendo boa fé em si, deixo-lhe aqui no mapa (seta verde - poderá ampliar o mapa para ver melhor), o Parque e Palácio de Monserrate em Sintra, Portugal:


Ver mapa maior

Versão Comum da Lenda do Palácio Nacional de Sintra



© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Imagens: autores Flickr (respectivamente) dB e n c h e c i; dot Whisker


O Palácio Nacional de Sintra, também conhecido
como Palácio da Vila

  Após duas versões menos correntes já colocadas aqui n'O Secreto Palácio de Sintra da Lenda do Palácio Nacional de Sintra, bem como da versão de Almeida Garrett chegou a vez de expor a versão mais comum desta lenda, e que se encontra com imensa facilidade na internet.

  Apenas difere das outras por ter mais detalhe - embora não muito - e por ao contrário das duas outras versões, se focar na não inocência do beijo de D. João I, ao mesmo tempo que transmite um sentimento de frieza no relacionamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre.

  Fala também de uma lenda de um dos jardins do Palácio Nacional de Sintra, também essa de contornos amorosos.

  Acaba por ser um texto mais do que nos relacionamentos Humanos, extremamente focado no Eros, e revelando falta de acuidade, notório no "Pour Bien" ao invés do "Por Bem", inscrito na mensagem das Pegas:

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Lenda do Palácio Nacional de Sintra ou Lenda do Palácio da Vila


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Imagens: (respectivamente) autor Flickr soyignatius; autor Flickr Whisker



O Palácio Nacional de Sintra, comummente
conhecido como Palácio da Vila

  A Lenda do Palácio Nacional de Sintra - ou como é mais comummente conhecido, "Palácio da Vila” - é uma lenda que se foca na Sala das Pegas, sala de jantar existente no dito palácio, tendo há vários séculos atrás, sido uma sala de audiências.

  Talvez por que a sala de jantar fosse um local pelo qual muitas pessoas passassem e pudessem com tempo a sala observar e sobre o que observavam reflectir, foram aí pintadas uma série de Pegas, contendo no bico uma faixa onde se lia “Por Bem”.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Lenda de Seteais ou Palácio de Seteais V - Versão de João Diogo Correia (1958)


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Fonte: Revista Portugal, v.23, 1958
Imagem: Arquivo do Caminheiro de Sintra


O Campo e o Arco de Seteais
com o Palácio da Pena
na distância
  Após as várias versões da Lenda de Seteais publicadas n'O Secreto Palácio de Sintra, bem como a história de Seteais e de seu palácio, eis aqui um artigo de João Diogo Correira, saído na "Revista Portugal" de 1958, volume 23, na secção "Notas Toponímicas", em que o autor questiona a etimologia de "Seteais", abordando notas históricas do Município de Sintra, onde se incluí a Lenda de Seteais.

"Seteais

Sítio da Freguesia de S. Martinho. Tem um palácio mandado construir nos fins do século XVIII pelo negociante holandês Gildmaester e depois vendido ao Marquês de Marialva, que o restaurou.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Palácio de Seteais - do séc. XVIII ao séc. XXI - Parte IV


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Vídeo: Câmara Municipal de Sintra
Imagens: autor Flickr Ivo Gomes




  O Palácio de Seteais foi construído entre 1783 e 1787 para o cônsul holandês Daniel Gildemeester, em terras concedidas – não se sabe por que razão - por Sebastião Carvalho e Melo (o Marquês de Pombal) ao primeiro, no lugar que à altura tinha por nome Campo do Alardo.

  Daniel Gildemeester escolheu a beira de uma elevação para construir o dito palácio, local de onde a vasta paisagem ao redor da Serra de Sintra podia ser admirada. O palácio foi então construido, sendo rodeado por um amplo jardim com árvores de fruto.

  Em 1797, alguns anos após a morte do cônsul, a viúva Gildemeester vendeu o Palácio de Seteais a Diogo José Vito de Menezes Noronha Coutinho, V Marquês de Marialva.

  A estrutura foi então ampliada entre 1801 e 1802, provavelmente pelo arquitecto neoclássico José da Costa e Silva, autor do Teatro de São Carlos, em Lisboa. O Palácio de Seteais foi transformado num edifício simétrico em forma de “u”, com a casa do cônsul a tornar-se após a remodelação, numa das asas do “u”.  Serviu a dita ampliação para que o V Marquês de Marialva tivesse os aposentos para a sua família.

O Palácio de Seteais com o seu
antigo fronteiro campo Centeais

  A cornija dos edifícios que compõem a fachada principal do Palácio de Seteais foi então decorada com motivos típicos do neoclassicismo, como vasos, bustos e relevos de guirlandas. Os jardins do Palácio de Seteais foram também remodelados, esses porém seguindo as tendências românticas.

  A nova e a antiga asas foram ligadas em 1802 por um arco de estilo neoclássico, construído em homenagem ao Príncipe Regente D. João VI e à Princesa Carlota Joaquina, que haviam visitado o Palácio de Seteais naquele ano de 1802. O arco triunfal foi decorado com as efígies de bronze do par real e uma comemorativa inscrição em latim, sendo toda esta obra do arco do triunfo do Palácio de Seteais, atribuída ao arquitecto Francisco Leal Garcia.

  As paredes de várias salas interiores do Palácio de Seteais foram decoradas com frescos atribuídos ao pintor francês Jean Pillement e a seus discípulos. Os motivos aí presentes incluem vegetação exótica e criaturas mitológicas, produto típico do neoclassicismo.

  Na parte detrás do Palácio de Seteais, socalcos formavam um jardim de buxo, indo a paisagem deste desde o Oceano Atlântico até se perder nas terras saloias a norte de Sintra.

As sebes de buxo no jardim do Palácio de Seteais

  Do casamento de Dom Diogo José Vito com Dona Margarida Caetano de Lorena, filha do IV Duque do Cadaval, nasceram quatro filhos, a mais nova dos quais - Joaquina de Menezes - sucedeu ao V Marquês de Marialva na posse do Palácio de Seteais.

  Dona Joaquina de Menezes, mais tarde Marquesa do Louriçal, morreu viúva em 1846, não deixando ascendência ou descendência, pelo que toda a sua propriedade passou para seu sobrinho, Dom Nuno José de Moura Barreto, I Duque de Loulé e à altura futuro Grão-Mestre da Maçonaria Portuguesa.

  Depois de ter mudado de donos várias vezes, o palácio foi por fim adquirido pelo Governo Português em 1946.

  Actualmente, o Palácio de Seteais tem sido usado como um hotel de luxo da cadeia Tivoli, desde 1954, tendo felizmente as suas características originais sido preservadas.


© O Caminheiro de Sintra

Desconstrução da Lenda de Seteais - Palácio de Seteais - Parte III



© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Imagem: autor Flickr simbiotica ponto org


O Palácio da Pena por entre
o Arco Triunfal de Seteais

  Analisando ou desconstruindo a Lenda de Seteais de forma mais profunda, acaba por não se chegar a nenhuma conclusão quanto ao local, e aqui a confusão bifurca-se em dois caminhos relativos à palavra “Seteais”.

  Há quem diga que a mesma se deve a uma lenda, a qual daqui não consta por não ter sido encontrada – muito provavelmente encontra-se somente em tradição oral -, que diz que naquele local ao dizer-se “ai”, a interjeição ecoava por sete vezes.

  O outro caminho da bifurcação da confusão quanto à origem do nome “Seteais”, é alusivo ao facto de que o referido local onde Seteais é sito, anteriormente ter sido denominado de Centeais. Este aspecto baseia-se na documentação que se encontra no Arquivo Histórico de Sintra, onde se descobre que realmente Centeais (terra de centeio) era mesmo o nome daquele lugar. Porém, aqui surge mais um conflito na lógica: para além do terreno para o cultivo de centeio ter de ser extremamente extenso em planura, o centeio (secale cereale) é uma gramínea que não se dá com o frio nem com a humidade. Mesmo tendo em conta que Sintra nem sempre foi arborizada como o é agora, recorde-se que fica junto ao litoral, e que tem um microclima muito próprio, o que leva à quase invalidação desta segundo possível origem para o nome “Seteais”.

Palácio de Seteais - Lenda de Seteais (breve análise comparativa) - Parte II



© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Imagem: autor Flickr Pedro Prats


O Palácio de Seteais por entre
a vegetação que lhe é fronteira

  Esta lenda, tanto quanto se sabe, possui duas versões, muito semelhantes entre si. Ambas se situam no tempo, algures depois de 1147, aquando da reconquista de Lisboa e Sintra, sem uso da força, antes tendo os mouros se rendido sem oferecer qualquer resistência.

  Em ambas as versões da lenda, a acção desenrola-se na fuga dos mouros do Castelo de Sintra, e em ambas, um nobre português de nome Dom Mendo Paiva perto do castelo ou já colado às suas muralhas, surpreende uma jovem moura que entre a turba fugia com a sua aia.

  Numa lenda, a jovem moura possui o nome de Anasir e sua aia Zuleima, e a outra lenda, não faz qualquer menção aos seus nomes, mas refere o detalhe de que ambas fugiam por uma porta secreta.

Palácio de Seteais - Lenda de Seteais (duas versões) - Parte I


© Pesquisa: O Caminheiro de Sintra
Fonte: Biblioteca Municipal de Sintra
Imagens: autores Flickr (respectivamente) anabananasplit; simbiotica ponto org


O Arco Triufal de Seteais na noite

Lenda de Seteais (versão primeira)


"Segundo a lenda, na conquista de Lisboa por Dom Afonso Henriques em que Sintra se rende sem resistência em 1147, um dos primeiros cavaleiros cristãos a subir a serra de Xentra (Sintra) foi D. Mendo de Paiva que encontrou uma porta secreta por onde fugiam vários mouros. Entre eles encontrava-se uma moura muito bonita com a sua velha aia.

Quando viu o cavaleiro, a jovem, por se sentir descoberta, suspirou.

A aia, aflita, pediu-lhe que não suspirasse mais. D. Mendo decidiu fazer a jovem sua prisioneira. Quando o disse à aia a jovem voltou a suspirar.