colecções disponíveis:
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6. Sintra nas Memórias de Charles Merveilleux, Séc. XVIII 7. Contos de Sintra 8. Maçonaria em Sintra 9. Palácio da Pena 10. Subterrâneos de Sintra 11. Sintra, Imagem em Movimento


terça-feira, 6 de julho de 2010

A Lenda de Agharta e os Subterrâneos de Sintra (Agharti, Agartta, ou Agartha)


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Vídeo: O Caminheiro de Sintra
Imagem: Arquivo do Caminheiro de Sintra




  Repleta de subterrâneos, a Serra de Sintra toma sempre proeminência no fantástico presente na mente das pessoas. Alguns autores referem que o "Mundo de Agharta" encontra uma das suas entradas na Serra de Sintra. Mas o que é o "Mundo de Agharta"? E porquê em Sintra?

  Para responder a essas duas questões, é necessário ter em conta que o racionalismo se deve sempre manter claro, límpido e lúcido, de forma a que as emoções não se sobreponham, fazendo esquecer o verdadeiro propósito do pensamento, que é a elucidação e a compreensão de um quadro completo, baseando-se em factos concretos.

  Agharta - também conhecida como Agharti, Agartta, ou Agartha - de acordo com alguns textos da religião do Budismo, é um Mundo que se encontra abaixo da superfície do planeta Terra, e Mundo no qual, se encontra a sua principal cidade, Shambhala - também conhecida por Shambala e Shambala.

  Porém, antes de se continuar e de se esquecer o propósito da referência a Shambhala [nota: link de site em inglês, devido à qualidade dúbia da versão portuguesa], e ficar apenas com a impressão do fantástico nas emoções, é necessário compreender o que é Shambhala, e qual a sua relação com Agharta e com Sintra.

  De acordo com o Budismo e sendo mencionada no Kalachakra Tantra (ancestral escrito do Budismo), Shambhala é a principal cidade do Mundo subterrâneo de Agharta, onde nessa se encontra o mítico reino da Terra Pura [nota: link de site em inglês, devido à qualidade dúbia da versão portuguesa], para onde o espiritual e o físico se conseguem passar, através da forma mais pura de Budismo, alcançável pela meditação. Ficamos assim então, com o Mundo de Agharta, e a sua principal cidade, Shambhala. E Sintra? Virá a seu tempo.

  No ocidente, e embora não ter sido o primeiro a falar de Agharta, foi Saint-Yves d'Alveydre o maior impulsionador do Mundo de Agharta, no Séc. XIX. Saint-Yves dizia que visitava frequentemente Agharta através da meditação, e que inclusive sabia a sua localização no mundo físico (ou em termos geográficos), mas por razões de segurança dos seus leitores, não revelava a sua localização. Dizia ainda que "...o território sagrado de Agharta é independente, sinarquicamente organizado e composto por uma população que se eleva a um número perto de vinte milhões de almas", e que "...reina nela uma tal justiça que o filho do último dos párias pode ser admitido na Universidade sagrada; os delitos são reparados sem prisão nem polícia. Fala-se nela, a língua universal, o vattan. A organização de Agharta é circular; os bairros estão dispostos em círculos concêntricos".

  E na descrição de Agharta segundo Saint-Yves d'Alveydre, descobre-se que esta terra pura, na descrição do autor, se começa a cruzar com a descrição da Atlântida, segundo Platão nas suas obras "Timeu ou a Natureza", e "Crítias ou a Atlântida". O cruzamento é facilmente perceptível, se tivermos em conta: primeiro, a influência dos escritos gregos clássicos; segundo, a semelhança de disposição geográfica da ilha da Atlântida e do Mundo de Agharta e as descrições de ambos; terceiro, a pureza e o estado avançado das raças, tanto do Mundo de Agharta como dos Atlantes; e por fim, quarto, e de forma concludente, a lenda da Atlântida diz que a mesma se abateu, ficando no fundo do mar, ou no fundo do planeta Terra, segundo umas ou outras crenças, sendo assim a sua localização, em muito semelhante a Agharta, no fundo do planeta Terra.

Os Subterrâneos de Sintra e o Mito de Agharta


  E assim, no Séc. XIX, Agharta começou a ganhar as influências do ocidente, na transmissão do seu mito, na teosofia e na mitologia. E Sintra? Onde aparece Sintra, relacionada com Agharta?

  A Serra de Sintra aparece por fim relacionada com Agharta, muito provavelmente no fantástico de muitos autores, devido aos seus inegáveis subterrâneos, grutas, minas de água, e também em parte relacionado com a fusão na mente dos ocidentes ou na percepção desses, do Hinduísmo e do Budismo, da Ásia, e do Sânscrito, através das inscrições indianas da Quinta da Penha Verde [nota: post com as inscrições, a ser publicado].

  É desse modo também, que Sintra pelo sentimento que imprime em quem a visite ou quem com ela convive, seja encarada como a entrada de um Mundo melhor, de um Mundo de pureza, tal como o mito relata que o Mundo de Agharta assim é.

  Assim, a Lenda de Agharta na Serra de Sintra, é apenas um ideal que resulta da fusão da percepção das pessoas, e que reflecte aquilo que o ser Humano procura, que é um Mundo melhor, mas um Mundo que só será conseguido com os pés assentes no chão, e a mente lúcida.

  Curioso é também o facto de que Saint-Yves d'Alveydre dizia que "...Agharta em sânscrito significa o impossível de encontrar".


© O Caminheiro de Sintra

domingo, 27 de junho de 2010

Chalet Biester em Sintra - do Comerciante, do Dramaturgo, e ainda do filme "The Ninth Gate" ("A Nona Porta", com Johnny Depp)



© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Imagens: Arquivo do Caminheiro de Sintra


O Chalet Biester, também palco
do filme A Nona Porta
  O Chalet Biester, sito na Estrada da Pena, à vista de todos que pela Vila de Sintra e que pelo alto do Castelo dos Mouros passam, mas escondido desses sendo o seu nome, data de 1890, e a sua construção foi plano do arquitecto José Luís Monteiro - responsável entre outras obras pela nave da Estação do Rossio e pelo aumento do Parque Eduardo VII (esta última, a par do engenheiro Frederico Ressano Garcia) - ao qual foi requisitado que utilizasse um estilo denominado Queen Anne (ou Barroco Inglês), mistura de neogótico e neo-românico.

Planta do Chalet Biester
  Para o interior do Chalet Biester, o escolhido foi Luigi Manini, arquitecto e pintor, que à altura vivia em Lisboa, sendo encenador no Teatro São Carlos. Recorde-se que Luigi Manini foi o responsável pelas belíssimas obras do Palácio Hotel do Buçaco, e pela Quinta da Regaleira em Sintra, esta última, a pedido de Augusto Carvalho Monteiro, e em detrimento de Henri Lusseau, responsável pelo primeiro projecto do Parque da Liberdade em Lisboa, posteriormente Parque Eduardo VII.

  Luigi Manini utiliza assim no interior frescos medievais, combinando-os com o gótico flamejante, e o estilo próprio da época, mescla da qual saem os vitrais multicolores encomendados em França, que dão um colorido clássico ao interior, iluminando também os móveis criados por Leandro Braga, o artista entalhador que criou igualmente peças para o Palácio da Ajuda, e para o Palácio de Belém (residência oficial do Presidente da República Portuguesa).
Interiores

  Quanto ao proprietário, "Biester" de nome de família, surgem duas versões em vários textos aludindo a duas diferentes pessoas: Ernesto Biester, grande comerciante de cortiça, de origem alemã, à época há muitos anos em Portugal; Ernesto Biester, criador de inúmeros textos, dramaturgo, jornalista, e empresário do Teatro D. Maria II, que nasceu e faleceu em Lisboa.
Oratório do Chalet Biester

  Quanto a estas duas versões, a elucidação chega de uma forma bastante simples: Ernesto Biester, o português, faleceu em Lisboa em 1880, e como o Chalet Biester data de 1890, só poderá ter saído da vontade de Ernesto Biester, o comerciante de cortiça alemão. [nota de Fevereiro de 2012: não é tão simples quanto isso, e longe de ser simplista como a forma como o expus; no entanto, decorre a investigação relacionada com o tema deste parágrafo]

  É possível também encontrar no número 4 da revista A Architectura Portugueza, de 1908:

[nota: com ortografia da época] Em detalhe, toda a construcção é um mimo. Exteriormente, o arco abatido que emmoldura a porta dupla de entrada, arco em que se ergue um balcão coberto, constitue, no seu conjuncto, um motivo delicioso em que [José Luís] Monteiro affirma, simultaneamente, o seu valor de constructor e de artista. D’uma grande simplicidade, casando-se admiravelmente com a restante fachada de que esse motivo é a parte central e principal, as columnas que, n’elle, entram, sem deixarem de representar a sua funcção structural, de supporte, são d’uma graça e leveza incomparáveis, e a maneira como Monteiro deu a máxima cor, sem volumes excessivos, a esse detalhe da fachada, é tambem uma affirmação, e boa, da sua valia.
Internamente, se Monteiro teve a collaboração de Manini e Leandro Braga que, sobretudo na sala de jantar, mostrou quão grande era o seu valor de technico e artista, a sua direcção adivinha-se em toda a parte, ainda mesmo n’um ou n’outro ponto em que a phantasia de Leandro Braga, sentindo-se mais à vontade, se expandiu por isso tambem mais livre e acentuadamente. Desenhador d’um valor que, ainda hoje, é lembrado como tal pelos seus companheiros do atelier Pascal, Monteiro, sem prejudicar a visão de Leandro Braga que era o primeiro a respeitar, detalhou até à ultima, sempre que o julgou necessario, qualquer pormenor em que Braga interveio e que Monteiro entendia estar dentro da sua alçada. No resto, Braga, subordinando-se ao plano geral, fez só o que a sua consciencia de artista lhe ditou. E assim, a obra dos dois, se por vezes se funde, funde-se sempre em virtude do esforço consciente de ambos, não trazendo por isso prejuizo a um ou a outro, mas antes dando-lhes mais lustre e gloria.
Interiores
O parque que, como já dissemos, é obra de Nogré, é uma maravilha. Como Polixénes do “Conto d’Inverno” de Shakespeare, que dizia que “a arte que ajuda a natureza é a arte superior porque é, por assim dizer, ainda a natureza”, o sr. Nogré fez o seu jardim Biester no estylo da paysagem, limitando-se sempre que lhe foi possivel, acabar a obra principiada pela natureza, e isso sem esquecer a casa que o jardim tinha de enquadrar. N’esta orientação, traçou-lhe todas as ruas e alamedas de forma a fazer valer, de todos os lados e o melhor possivel, a silhueta geral do edificio. Ora avultando em pittorescos maçissos, ora ondulando, naturalmente, sem outra cobertura além da que lhe dá a herva cuidadosamente aparada, o parque valorisa-se assim com o mesmo principio de sobriedade que caracterisa, na alternação dos espaços nus e decorados, o estylo romanico. E, correndo em todos os sentidos, ao longo das três faces posteriores da casa, que umas vezes quasi desapparece sob a massa dos seus tufos, outras surge desafogada, e ainda outras apparece enquadrada e recortada da folhagem, esta oferece-se, por esta fórma, continuamente, a quem a olha de fóra, como um elemento sempre original e novo.
Notas: Na casa Biester, collaboraram as seguintes pessoas: mestre Costa, tendo por encarregado de carpinteiros seu sobrinho Carlos da Costa Soares, ambos de Cintra. Este ultimo, quando aquelle se impossibilitou por doença, substituiu-o como mestre da obra até final, mostrando a sua muita competência. Os estuques são de Domingos Antonio da Silva Meira; a esculptura em madeira de Leandro Braga e a pintura decorativa de Luigi Manini, excepto o arauto que se vê na entrada que é de Baeta, tambem distincto pintor. A guarnição de ferro forjado da grande chaminé da sala de jantar é de José da Quinta, artista serralheiro de grande valor.


Johnny Depp no Filme A Nona Porta,
ao portão do Chalet Biester
  O Chalet Biester foi também palco de uma parte do filme The Ninth Gate (A Nona Porta) de Roman Polanski, em que o protagonista principal foi o actor Johnny Depp (mais abaixo podem-se ver dois vídeos com a parte do filme rodada no Chalet Biester). Johnny Depp que assume o nome de Dean Corso, que é um especialista - um pouco ganancioso - de livros raros, e que a mando de um milionário (Boris Balkan) é mandatado para encontrar três cópias de Os Nove Portais para o Reino das Sombras, de 1666 e supostamente escrito pelo próprio Satanás e por um autor veneziano de nome Aristide Torchia - possívelmente inspirado na vida de Giordano Bruno. Em Sintra, Dean Corso vai a casa de Victor Fargas, detentor de uma cópia de Os Nove Portais para o Reino das Sombras, e que vive com um estilo de aristocrata em decadência que já sem mobiliário no Chalet Biester, vende o que resta da sua extensa colecção de livros para poder comprar comida e pagar os impostos. O filme é uma adaptação do livro The Club Dumas (1993) de Arturo Pérez-Reverte.

  Abaixo, dois trechos do filme A Nona Porta, onde aparece o Chalet Biester (a partir do minuto 7:07 do primeiro vídeo):






© O Caminheiro de Sintra


P.S.: Quanto à localização dos sítios mencionados neste blog, tive durante muito tempo a dúvida se a mesma haveria de ser aqui disposta ou não. Pela resolução positiva, peço que faça o melhor uso possível desta informação, o qual principalmente tem a ver com a preservação do património e a não poluição dos locais sob que forma for. Tendo boa fé em si, deixo-lhe aqui no mapa (seta verde - poderá ampliar o mapa para ver melhor), o Chalet Biester - que é propriedade privada - na Estrada da Pena, Sintra, Portugal:


Ver mapa maior

domingo, 20 de junho de 2010

Almeida Garrett e Sintra: a Sala das Pegas do Palácio Nacional de Sintra ou Palácio da Vila


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Excerto transcrito: O Romanceiro, de Almeida Garrett
Imagens: Arquivo do Caminheiro de Sintra; autor Flickr dot Whisker


Almeida Garret, um dos autores que falou
sobre a Sala das Pegas no Palácio Nacional de Sintra

Almeida Garrett, no seu primeiro volume do Romanceiro, de 1843, na última parte do mesmo, apresenta sob forma de nota o seguinte texto para o seu redactor, em alusão à Lenda do Palácio da Vila, de Sintra:


AS PEGAS DE SINTRA

Dou aqui lugar a esta composição que, moderna como é, e minha, toda é feita de coisa populares e antigas. A anedota devera ter sido celebrada pelos menestréis do tempo: não o foi, e eu procurei suprir o seu descuido. Não aparece pois em meu nome, senão no deles, embora de longe os rastreie. Quando a primeira vez saiu de minha carteira a presente balada foi para se imprimir na Ilustração31 , jornal que se publicava em Lisboa em 1845-46. Reimprimir com ela aqui também a carta que então escrevi ao redactor daquele jornal, porque deveras contém a história de sua composição. Eis aqui a carta:

A Lenda de Xentra, Cynthia, Suntria, ou da Etimologia de Sintra



© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Vídeo: membro Youtube drplim




  Embora seja fácil encontrar várias hipóteses para a etimologia de "Sintra", é difícil, senão quase impossível, traçar a sua origem até ao início do povoado.

 As contribuições para essa dificuldade são imensas, desde o facto de vários povos terem passado pela Serra de Sintra, bem como o quão fácil é, ter a lucidez toldada pela emotiva fantasia que a Serra aviva na mente de quem a conhece.

 Desde os primórdios da Humanidade, em especial desde o Neolítico há dez mil anos atrás (8000 a.C.), passando pela Idade do Bronze (3000 a.C.), Idade do Cobre (2500 a.C.), permeadas estas duas últimas pela era Megalítica e com seus traços na Serra de Sintra (Anta de Adrenunes, Tholos do Monge, por exemplo), Idade do Ferro (1200 a.C.), passando muito provavelmente e entre outros, pelos Celtas, Lusitanos, Romanos, Visigodos, Mouros, e por fim e até hoje, os Portugueses.

 Pelo meio de todos esses povos, passaram várias denominações, decerto cada uma tentando adaptar a denominação do povo anterior, à cultura do que então dominava a Serra de Sintra.

 "Ofiússa", um dos nomes que corre por algumas conversas, era não da região de Sintra, mas da parte costeira da Península Ibérica. De étimo grego e significando "terra de serpentes", encontra-se a sua utilização na Ora Maritima de Rufus Avienus Festus: "Ophiussam ad usque. rursum ab huius litore, internum ad aequor, qua mare insinuare se..." (nota: étimos gregos e étimos latinos, eram facilmente adaptados por uma língua na outra).

 Sem fontes convincentes, diz-se que os Celtas davam o nome de "Cynthia" à Serra de Sintra, em devoção à lua. Ainda assim, pode-se confirmar apenas o intento da devoção à lua, visto que os romanos denominavam a Serra de Sintra de "Mons Lunae", "Monte da Lua".

 De acordo com alguns autores, também vários escritores clássicos, gregos e latinos mencionavam a Serra de Sintra como "Mons Sacer", ou "Monte Sagrado", chegando a dizer (Sílvio Itálico) no texto "Púnicas", que o vento de Sintra era tão fértil que emprenhava as éguas, que desse modo davam à luz pequenos e velozes cavalos.

 Dos Celtas e dos Lusitanos, "Cynthia" perdurou, mesmo passando pelo "Mons Lunae" do domínio romano que acabou por entrar em declínio, tendo passado - supostamente - "Cynthia" por esses, e chegado até aos Mouros, que segundo alguns, a chamaram de Zintira, Chinra, Xintra, até chegar a Xentra. Embora isso, e apenas segundo alguns autores, um geógrafo árabe de nome Edrisi, referia "Sintra" nos seus escritos como "Xentra", ou "Sentra" - porém, isso já foi no Séc. XII, o qual teve mais de metade desse com a ocupação de Sintra por parte dos Portugueses, o que equivale a dizer que estes poderiam ter ignorado perfeitamente a denominação que os Mouros usavam.

 Existe ainda quem refira - tal como se encontra na Wikipédia - que a "mais antiga forma medieval conhecida "Suntria" apontará para o Indo-Europeu “astro luminoso” ou “sol”". A questão ganha estranhos contornos, visto que a origem dos étimos de "sol" nos ramos Indo-Europeus, quer bretões, eslavos, romances, afastam de "Suntria" qualquer aproximação a "sol", a não ser o Gótico "Sunno", já depois de várias alterações nos ramos ascendentes.

 Ainda assim, existem provas de cultos mantidos ao longo dos séculos em honra ao sol, como é notório no Da Fábrica que falece ha Cidade de Lysboa de Francisco de Holanda, de 1571, que numa gravura sua mostra um templo de pedras erguidas formando um círculo, com a seguinte descrição:

SOLI.AETERNO / CHRISTO.IESV. / ET. / GLORIASE. VIR/GINI.
MARIAE. / VLISIPPO. / DEDICATIVT.

 Note-se que o que na inscrição se enfatiza, é Jesus Cristo e a Virgem Maria (em glória eterna como o sol), e sendo homenageados por Lisboa (nota: a pedra contendo esta inscrição, encontra-se hoje em dia no Museu de Odrinhas). Para além disso, o misto de Paganismo com Cristianismo não é heterogéneo, por isso deverá mesmo ser visto como um monumento de homenagem.

 Depois da duvidosa Xentra, existe ainda quem diga que "Sintra" advirá de "sin" que para os babilónios significaria montanha ou monte, e "tra" teria sido juntado ao "sin" pelos Lusitanos, representando três faces de Deusa: lua no céu, Diana na terra, e Hécate no inferno - não se percebendo contudo, como é que o "tra", conteria em si, essas três faces de Deusa.

 Voltando a "Suntria" - e já muito perto do fim da etimologia de "Sintra" - a mesma poderá ter sido corrompida, visto que na História de Portugal volume 1, de Alexandre Herculano, se pode encontrar a seguinte nota, tirada da Crónica dos Godos:

 "Mense Julio capta fuit Sintria a comite D. Henrico. Audientes enim sarracem mortem regis D.
Alfonsi coeperunt rebellare», «Chronica Gothorum», era 1147."

 E eis aqui, que é utilizada "Sintria", em 1147, aquando da reconquista de Sintra aos Mouros.

 Certo é que a referida crónica foi escrita em Latim, mas do "Sintria" a "Sintra", foi um pequeno passo, passando ainda pela corrupção de "Cintra", pelas mudanças de ortografia - e com as suas tentativas de adequação às épocas em que a mesma sofria alterações - ao longo dos séculos.

 Xentra, Cynthia, Suntria, Sintria, Sintra...independentemente da nominação, sempre carregando o mesmo sentimento ao longo dos séculos, para os olhos e o coração de quem a vê, em casa se sentir.


© O Caminheiro de Sintra

Camilo Castelo Branco e Sintra: a dissertação sobre a Lenda de Seteais para Lady Jackson


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Fonte: Biblioteca Municipal de Sintra
Imagem: Imageshack



Sobre a Lenda de Seteais de Sintra, já aqui esplanada n'O Secreto Palácio de Sintra, Camilo Castelo Branco faz uma pequena dissertação para Lady Jackson (Catherine Hannah Charlotte Elliott Jackson) para a elaboração do livro dessa, Fair Lusitania, onde é notória a aspereza crítica do escritor português, enlevada pelas emoções que a marca negativa do povo português imprimia no autor.

Existe ainda - depois da referida dissertação - uma pequena nota em forma de adenda, aludindo ainda a outra hipótese para a origem dos sete ais.

Já tínhamos que fortes noções referidas e impressas a respeito de Seteais, umas de gente boçal, outras de pseudo antiquários, não obstante a escritora deu-nos a novidade dos sete clamorosos ais ou hourraha em 1808 [nota: infelizmente não foi possível discernir a que escritora o autor se refere, no entanto, a data de 1808 é a mesma da Convenção de Sintra, mencionada na adenda que se segue a esta dissertação].

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Lenda do Túmulo dos Dois Irmãos, Versão "Sintra do Pretérito", de 1957



© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Imagem: Carlos Pinheiro


O Túmulo dos Dois Irmãos
  Talvez seja esta a versão que quem procura informações sobre o Túmulo dos Dois Irmãos em Sintra deva ler, devido à análise dos factos levada a cabo por Félix Alves Pereira, e às suas conclusões.

  De referir também um facto curioso, que é a utilização de medidas e coordenadas para análise, coisa que - falando o escriba por experiência própria - nos pode levar a vários locais da Serra de Sintra, ou subtilmente realizar as ligações entre locais, qual caminho inexistente aos olhos que tudo tentam observar.

Origem das Queijadas de Sintra - in "Velharias de Sintra" de José Azevedo (1980)

"Já se encontram referências às Queijadas de Sintra, como fazendo parte de pagamento de foros, no ano de 1227 (Século XIII), quando reinava D. Sancho II, o Capelo (podem-se consultar documentos arquivados na Torre do Tombo que o atestam).

Quanto ao local de origem das queijadas parece ter sido o lugar de Ranholas, freguesia de S. Pedro de Penaferrim, do concelho de Sintra. Em 11 de Maio de 1935, na extinta Assembleia de Sintra, que funcionou na Casa Valmor, na Vila Velha, proferiu uma conferência subordinada ao tema «Manteiga de Sintra», o regente agrícola, publicista e investigador Tude Martins de Sousa, e nela pode ler-se o seguinte:

sábado, 5 de junho de 2010

Lenda da Peninha em Duas Versões Curtas


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Fontes: Guia de Portugal, 1880; Biblioteca Municipal de Sintra
Imagem: autor Flickr ouriço


  Tal como no primeiro post sobre a Lenda da Peninha, do qual constavam duas versões longas da mesma, também nestas duas versões curtas as histórias se regem pelo mesmo: na era de D. João III, uma pastorinha muda, o aparecimento de uma imagem de Nossa Senhora, e a construção de uma capela em devoção a Nossa Senhora, por parte do povo.


::::: Primeira Versão Curta da Lenda da Peninha

Conta-se que em tempo de D. João III, andava por esta serra (de Sintra) uma rapariga muda, pastoreando um rebanho de ovelhas, das quais se extraviou uma, e procurando-a, foi encontrá-la sobre o rochedo, onde aparecendo-lhe a Nossa senhora, sob a forma de uma formosa menina, lhe deu fala.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Lenda do Palácio Nacional de Sintra ou Lenda do Palácio da Vila


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Imagens: (respectivamente) autor Flickr soyignatius; autor Flickr Whisker



O Palácio Nacional de Sintra, comummente
conhecido como Palácio da Vila

  A Lenda do Palácio Nacional de Sintra - ou como é mais comummente conhecido, "Palácio da Vila” - é uma lenda que se foca na Sala das Pegas, sala de jantar existente no dito palácio, tendo há vários séculos atrás, sido uma sala de audiências.

  Talvez por que a sala de jantar fosse um local pelo qual muitas pessoas passassem e pudessem com tempo a sala observar e sobre o que observavam reflectir, foram aí pintadas uma série de Pegas, contendo no bico uma faixa onde se lia “Por Bem”.

Versão II da Lenda da Pedra Amarela (ou Penedo dos Ovos) de Sintra


© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra
Imagem: Arquivo do Caminheiro de Sintra
Transcrição: de Alfredo Beato, através de Manuel Gandra


  Mais uma versão encontrada sobre a Lenda da Pedra Amarela, ou Lenda do Penedo dos Ovos, desta vez  - de acordo com Manuel Gandra - de

Alfredo Beato (História de Sintra).

  Esta versão segunda, acaba por ser praticamente igual à primeira, se bem que muito menos trabalhada na sua prosa, e com um diferente à vontade na maneira como foi escrita.

 Tal como na primeira versão, a imagem apresentada - bem como a localização no mapa - é de um dos outros vários locais - sendo pelo menos três - na Serra de Sintra, com a igual denominação de Pedra Amarela.

  O conteúdo desta versão de mais esta Lenda de Sintra, acaba por ter o mesmo conteúdo que a primeira versão publicada neste blog, e os trâmites que fazem surgir os nomes Pedra Amarela ou Penedo dos Ovos, são exactamente os mesmos: