colecções disponíveis: 1. Lendas de Sintra 2. Sintra Magia e Misticismo 3. História de Sintra 4. O Mistério da Boca do Inferno 5. Escritores e Sintra 6. Sintra nas Memórias de Charles Merveilleux, Séc. XVIII 7. Contos de Sintra 8. Maçonaria em Sintra 9. Palácio da Pena 10. Subterrâneos de Sintra 11. Sintra, Imagem em Movimento
Santa Maria da Pena e um Eclipse
na edição de 12 de Julho de 2019
do Jornal de Sintra
Eclipse no sentido literal? Sim, no sentido literal. Se aconteceu? O eclipse? Sim, aconteceu. E poderá ter acontecido de uma forma muito especial e inesperada para quem olhe para o passado. E também para quem no passado o tenha vivido com a hipótese que se coloca.
«Cerca de três dias depois, o Príncipe João veste uma longa capa dourada que se vai arrastando sobre os degraus que o Príncipe deixa para trás no seu subir até um cadafalso; sobe depois mais outro lanço de degraus que o levam até uma cadeira na qual se senta. Aí segura numa de suas mãos um ceptro. Momentos depois a mão deixa o ceptro para se juntar à sua outra e se apoiarem ambas sobre um missal; assim é prestado o seu juramento; com os nobres diante de si, prestam-lhe estes também um outro juramento; terminados os juramentos há uma bandeira do Reino de Portugal que se solta, assim como uma voz lança no ar: Real, Real, Real, pelo muito alto e muito poderoso El Rei D. João Nosso Senhor! O Príncipe transformado em Rei desce do estrado e monta um cavalo, gritando o dito Real, Real; o agora Rei D. João II começa a afastar-se a cavalo do cadafalso onde foi coroado, percorrendo um terreiro cercado por edificações: o terreiro do antigo Paço Real de Sintra. Os anos foram (...)»
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Tramas de Amor do Século XIX
na edição de 26 de Janeiro de 2018
do Jornal de Sintra
Já poderá ler gratuitamente e online o meu último artigo no Jornal de Sintra. Tramas de Amor do Século XIX mostrar-lhe-á um ambiente das intrigas amorosas vividas em redor do Paço Real de Sintra, através de uma cujo exemplo é constituído por um triângulo amoroso perdido na história. E o tempo em que entramos é propício para o seu recordar:
A caminho do mês da Lupercália, do mês do especial dia 14 e daquilo que antecede a transição para a estação que em suas cores o amor floresce, lentamente nos... (...)
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O Primeiro Príncipe de Portugal
na edição de 29 de Setembro de 2017
do Jornal de Sintra
Já poderá ler - online e gratuitamente - o meu último artigo no Jornal de Sintra. O Primeiro Príncipe de Portugal poderá levá-lo em questões a muitos sítios, mas existe um apenas onde aquele nasceu e morreu.
Poderia estar a aludir a D. Afonso Henriques, ou a Viriato, ou a Vímara Peres, visto o conceito 'príncipe' ser mutável consoante o uso que desse termo se faça. E não, não existe apenas o 'príncipe encantado' como variação do conceito do termo príncipe. Na realidade – e voltando às primeiras linhas deste parágrafo – hoje irei falar da importância do primeiro príncipe que o Reino de Portugal teve, precisamente porque é importante para Sintra. E, de forma inevitável, terei de abordar os conceitos do termo que o poderiam ter levado a perguntar-se pelos nomes que inicialmente enunciei. (...)
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Um Sátiro (ou Fauno)
na publicação de Hieronymus Osius, Fabulae Aesopi
(das fábulas de Esopo, também tratado no meu último
artigo do Jornal de Sintra), ano de 1564
Quem foi D. João Manuel? Quantos D. Joões Manuel não existiram?
Este era especial, e, aliás, até mesmo o uso deste Dom era especial.
Não no sentido que intuitivamente lhe reconhece, não advindo de um título da alta nobreza (Duque, Marquês, Conde, Visconde, Barão, Senhor), nem advindo de mercê própria (Dom poderia assim ser concedido: à parte de título nobiliárquico); o que o tornava especial além do seu enquadramento familiar, é que foi na sua sucessão, no herdar deste Dom específico, que se geraram as tragédias em que o Alcaide-mor de Sintra ficou no Norte de África com uma flecha atravessada no rosto e lutando como bravo leão, ou que a aparição do coroado, depois da passagem por essa batalha, passou a ser avistado em vários pontos, avistando-se mais concretamente a esperança de por entre nevoeiro reaparecer, trazendo um novo mundo ao interior ou ao espírito de Portugal. Mas para tal, quanto a mim, é necessário que cada um de nós saia primeiramente da névoa em que esse se encontra, mostrando um novo mundo a si próprio.
Mas voltando a D. João Manuel: o seu pai, figura muito conhecida na história de Portugal, teve até enquanto muito jovem, a oferta de um escravo que havia nascido no Congo. Acabou muitos anos mais tarde por tornar esse escravo num cavaleiro da Ordem de Santiago – muito também devido a feitos praticados por esse mesmo escravo na conquista de um território, a par do irmão do Rei, a par do Imperador Carlos V, e a par de D. João de Castro.
Esse pai de D. João Manuel que inclusive tornou em cavaleiro um escravo que tinha recebido quando jovem, era precisamente o Rei D. João III. D. João Manuel, além de ser filho de um rei português do século XVI, era Príncipe Real. E um príncipe, deveria ter sempre a sua sagração enquanto cavaleiro, em grandes festas – ou aquilo que assim fosse encarado – ou desafios onde pudesse mostrar a sua destreza, onde pudesse demonstrar os seus aprestos na cavalaria, em toda a nobreza e manejos que a essa estivesse ligada, como nos ficou escrito, na nossa história, por exemplo através do Rei D. João I.
As festas e desafios escolhidos, decididos para o Príncipe D. João Manuel foram-nos contados nas palavras de Jorge Ferreyra de Vasconcellos, que poucos anos antes – pouquíssimos! – era apenas um moço de câmara do Infante D. Duarte (irmão do Rei D. João III). Para essas festas e desafios foi escolhido um conhecido lugar de Lisboa que naqueles anos tinha um Palácio Real e tomava o nome de Enxobregas. Se associou Xabregas a Enxobregas, fê-lo da forna correcta, exceptuando talvez ou muito provavelmente, a imagem que em sua mente apareceu da “modernidade” de Xabregas. Nesses anos de 1540 era a zona tomada literalmente como um lugar paradisíaco, onde os bergantins atracavam em águas claras vendo a poucos metros de si o Palácio Real, e por detrás desse, erguendo-se colinas repletas de doces bosques guardando fantasias da Antiguidade Clássica.
Mas o lugar não foi escolhido pelos homens que percorrem o chão de terra à qual se agarra a maior razão e lucidez. O lugar foi escolhido por um conjunto de selvagens com cabelo pelos joelhos, com cornos de cabra saindo de suas carapuças, que foram a um outro Paço Real numa montanha de um promontório da Luna – representação à qual inevitavelmente associamos Sintra, o Paço Real de Sintra, ainda para mais pela forma como está transcrito no livro Sintra Lendária -, e em que entrando na sua principal sala, orlos fazendo soar, anunciaram o desafio à família real.
O dia do desafio viu-se chegado, as estruturas para as justas foram montadas, e os cavaleiros, todo o tipo de cavaleiros e suas armaduras os revestindo, foram chegando. Uns traziam sua honra para celebrar o investir do Príncipe enquanto cavaleiro, outros traziam presentes para fazer honra ao dia.
Dom João Manuel
O contar da celebração do armar cavaleiro o Príncipe D. João Manuel, revela-nos que os maiores presentes tinham sido trazidos da Serra de Sintra. Tinham sido capturados direi antes, na Serra de Sintra, por dois bravos cavaleiros portugueses que cruzando-a se cruzaram com dois gigantes que de lá queriam partir para o Mediterrânio. Ali esses viram seu destino riscado para serem ao Príncipe de Portugal ofertados. A obra, romanceando – se assim se poderá tal termo utilizar dada a profusão e transição de estilos que marca na época –, conta-nos também que os dois gigantes foram da Serra de Sintra trazidos numa águia sobre um batel, mas quando essa se aproximava de Enxobregas, uma de suas asas tocou o Tejo, fazendo com que ela se virasse, atirando os dois gigantes e os dois cavaleiros para o fundo do Tejo. Das águas do rio emergiu apenas um dos cavaleiros, enquanto o outro se perdeu.
Este recontar transmite-nos muito provavelmente que um desses dois cavaleiros faleceu no afundar de uma embarcação que se dirigia para as festas de investidura do Príncipe Real de Portugal como cavaleiro. Apesar disso, as celebrações continuaram.
uma composição de Francesco Corteccia, do século XVI, onde os coros de orlos - como os tocados pelos sátiros - se encontram presentes
Assim, no século XVI nos foi contado que foi armado cavaleiro o Príncipe de Portugal D. João Manuel, que nunca chegou a ser Rei de Portugal e que faleceu poucos dias antes de seu único filho e herdeiro nascer, o que motivou – enquanto o herdeiro não nasceu – grande preocupação, até porque sua mãe o carregava dentro de si com todos os riscos à situação inerentes.. O filho do Príncipe D. João Manuel nasceu sem conhecer seu pai, e rebelde, é ainda hoje conhecido como “o Desejado”. O pai de D. Sebastião e Príncipe Real, D. João Manuel, viveu apenas 17 curtos anos, não sendo os suficientes para conhecer o Rei que através da sua história de vida marcou nossa cultura.
Passam hoje, 3 de Junho, 480 anos desde que nasceu para curta vida viver. Uma curta vida que nos legou também, dois gigantes caçados na Serra de Sintra e selvagens sátiros anunciando justas em Xabregas, numa embaixada silvestre que teria, eventualmente, entrado pelo Paço Real de Sintra, orlos tocando.
Muito havia por dissecar nestes doces e romanceados contornos, mas hoje é dia de celebrar os 17 anos da vida vivida que o Príncipe D. João Manuel na nossa história tomou.
Nesta última parte de Sintra no Cinema, são apresentados mais quatro filmes, também eles inseridos na Filmografia de Sintra de 2012. Encerra-se assim esta série de artigos dedicados aos filmes menos publicitados, antes de se prosseguir para alguns filmes que mereceram grande destaque e com facilidade chegaram ao grande público.
El Perro del Hortelano, aqui com uma imagem captada na
Sala dos Cisnes, no Paço Real de Sintra
Pilar Miró em 1996 adapta a peça de teatro de Félix Lope de Vega, El Perro del Hortelano (baseada nos escritos gregos de Luciano de Samosata do século II d.C. (que como curiosidade escreveu aquelas que são consideradas as primeira obras de ficção científica, onde se inclui uma viagem à lua, "uma ilha redonda e brilhante suspensa no ar.") mantendo o mesmo nome para o filme. A adaptação para cinema utiliza o cenário português com vários locais de relevo, como o Palácio do Marquês da Fronteira, o Palácio de Queluz, e o Paço Real de Sintra. É esse que podemos aqui ver neste excelente documento audiovisual do programa Cine Magazine da RTP 2 (à altura, TV2), das filmagens de El Perro del Hortelano (O Cão do Hortelão), e também num excerto do filme que a esse se segue.
The Devil Hunter, tendo usado Sintra
como pano de fundo
The Devil Hunter é um filme de 1980, de Jesus Franco, que já antes tinha utilizado Sintra no seu filme Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa. Um filme de terror, repleto de cenas de nu - quase podendo dizer-se que se trata de um exibicionismo desmedido -, controverso, e que durante vários anos (até 2008) integrou a lista DPP (Director of Public Prosecutions) estabelecida pela dita entidade no Reino Unido e abrangendo a Commonwealth, que se regia pelo reconhecimento de ofensas criminais - neste caso, relacionadas com o cinema. As zonas de Sintra reconhecidas no filme, integram o Parque de Monserrate, e a Ermida de Monserrate, controversamente utilizada.
The Devil Hunter, de Jesus Franco, excerto captado na Ermida de Monserrate
Embora muito curto, com menos de um minuto, guarda-se como memória este excerto de um documentário francês sobre Portugal, de 1959, onde algumas palavras e algumas imagens se dedicam a Sintra.
A história do Paço Real de Sintra (também conhecido como “Palácio Nacional de Sintra”, e “Palácio da Vila”) remonta aos tempos da ocupação islâmica, dizendo-se que à altura Sintra teria dois castelos.
Um deles, era - e é - localizado no topo de uma colina com vista para norte, e é actualmente denominado de “Castelo de Mouros”.
O outro, localizado no declive dessa mesma colina, supostamente terá sido a residência dos governantes mouros da região, tendo tempos depois da Reconquista, sido denominado de Paço Real de Sintra.
Essa - estranha de se ler nos dias de hoje - primeira referência histórica, surgiu no século X pelo geógrafo árabe Al-Bakr. Depois, no século XII, quando Sintra foi tomada em paz por D. Afonso Henriques, a residência dos governantes árabes passou a ser um edifício importante na conjectura do reino português, tendo inclusive alguns autores assumido que tinha sido essa uma das casas que D. Afonso Henriques havia doado a Gualdim Pais, Grão-Mestre da Ordem dos Templários em Portugal.
Da forma mourisca do Paço Real de Sintra, dos primeiros tempos de ocupação cristã, diz-se nada se ter mantido até aos dias de hoje, sendo talvez a parte mais antiga, a Capela Real, possivelmente construída durante o reinado de D. Dinis no início do século XIII.
As grandes campanhas de renovação do Paço Real de Sintra, começaram talvez com D. João I, por volta do século XIV, nos edifícios à volta do pátio central (recorde-se que a antiga configuração do Paço Real de Sintra tinha ao longo do perímetro do largo que fica à frente da actual escadaria, altos muros fazendo lembrar um castelo) onde as suas maiores alterações datam desta campanha, que incluiu o edifício principal com as arcadas, bem como as chaminés cónicas. Do interior, e datando ainda desta modificação, uma série de salas foram fundadas, como por exemplo a Sala das Pegas (na qual se basei uma das lendas do Paço Real de Sintra, ou Palácio Nacional de Sintra).
Seguiram-se depois outros projectos de renovação, um ainda no mesmo século XV, e outro no século XVI. Desses projectos ordenados pelo rei D. Manuel I e pelo rei D. João III, entre 1497 e 1530, e à medida que o reino ia assistindo ao desenvolvimento de um estilo de transição da arte Gótico-Renascentista denominado “Manuelino”, inspirado nos feitos dos portugueses nos Descobrimentos, bem como uma espécie de renascimento artístico de influência islâmica chamado de Mudéjar, o Paço Real de Sintra ganhou em certas partes os tons policromáticos dos azulejos de traçado islâmico, bem como a Ala Manuelina (no extremo direito, estando de frente para as arcadas e possuindo decoradas janelas em pedra) e a Ala Joanina. Surgiu também durante estas modificações, a Sala dos Brasões.
Nessas primeiras renovações pela parte de D. Manuel, o arquitecto responsável foi Diogo Boytac (também conhecido como "Diogo de Boitaca"), crendo-se que tenha sido este um dos primeiros maçons em Portugal. Apesar deste facto, algumas assinaturas maçónicas que constam desse edifício bem como de outros em Sintra, tudo leva a crer que fizeram parte das obras de reparação realizadas após o terramoto de 1755. Na ocorrência do mesmo, a maior perda foi a torre sobre a Sala Árabe, que desabou.
A configuração actual, sem muralha em redor da praça sita em frente à escadaria das arcadas, ficou consumada no início do século XX, quando também após a implantação da República, o Paço Real de Sintra foi considerado Monumento Nacional.
Outros factos de nota relacionados com o Paço Real de Sintra:
- Na Sala dos Brasões, após a conspiração contra o rei D. José I, o brasão da família Távora foi removido [As armas dos Tavoras foram, em resultado da sabida sentença, apagadas, e mal se enxergam... in O Paço de Cintra, Conde de Sabugosa, p.193.].
- D. Duarte I, filho de D. João I, gostava muito do Paço Real de Sintra e durante muito tempo aí permaneceu. Acabou por deixar uma descrição bastante importante, frisando que a maior parte do edifício não mudou muito desde as renovações realizadas por seu pai, D. João I.
- O sucessor de D. Duarte I, o rei D. Afonso V, nasceu (em 1432) e faleceu (em 1481), no Paço Real de Sintra. Por sua vez, o seu sucessor, D. João II, foi aclamado rei de Portugal no mesmo edifício.
- Diz-se também que o rei D. Sebastião ouviu no Paço Real de Sintra, Luís Vaz de Camões a recitar “Os Lusíadas”, antes da partida do primeiro para Alcácer-Quibir.
- D. Afonso VI, que foi deposto por seu irmão D. Pedro II, por ser declarado mentalmente instável foi forçado a lá viver sem de lá sair, de 1674 até ter lá falecido no ano de 1683.
P.S.: Quanto à localização dos sítios mencionados neste blog, tive durante muito tempo a dúvida se a mesma haveria de ser aqui disposta ou não. Pela resolução positiva, peço que faça o melhor uso possível desta informação, o qual principalmente tem a ver com a preservação do património e a não poluição dos locais sob que forma for. Tendo boa fé em si, deixo-lhe aqui no mapa (seta verde - poderá ampliar o mapa para ver melhor), o Paço Real de Sintra, Portugal: